Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]


27
Ago17

Relógio Rúben Alves

por AnnaTree

Eu tinha medo de dormir na casa do meu avô. Era um sobradão colonial enorme, longos corredores, escadarias, portas grossas e pesadas que rangiam, vidros coloridos nos caixilhos das janelas, pátios calçados com pedras antigas… De dia, tudo era luminoso. Mas quando vinha a noite e as luzes se apagavam, tudo mergulhava no sono: pessoas, paredes, espaços. Menos o relógio… De dia, ele estava lá também. Só que era diferente. Manso, tocando o carrilhão a cada quarto de hora, ignorado pelas pessoas, absorvidas por suas rotinas. Acho que era porque durante o dia ele dormia. Seu pêndulo regular era seu coração que batia, seu ressonar, e suas músicas eram seus sonhos, iguais aos de todos os outros relógios. De noite, ao contrário, quando todos dormiam, ele acordava, e começava a contar estórias. Só muito mais tarde vim a entender o que ele dizia: “Tempus fugit“. E eu ficava na cama, incapaz de dormir, ouvindo sua marcação sem pressa, esperando a música do próximo quarto de hora. Eu tinha medo. Hoje, acho que sei por quê: ele batia a Morte. Seu ritmo sem pressa não era coisa daquele tempo da minha insônia de menino. Vinha de muito longe. Tempo de musgos crescidos em paredes húmidas, de tábuas largas de assoalho que envelheciam, de ferrugem que aparecia nas chaves enormes e negras, da senzala abandonada, dos escravos que ensinaram para as crianças estórias de além-mar “dinguele-dingue que eu vou para Angola, dingue-ledingue que eu vou para Angola“ de grandes festas e grandes tristezas, nascimentos, casamentos, sepultamentos, de riqueza e decadência… O relógio batera aquelas horas – e se sofrera, não se podia dizer, porque ninguém jamais notara mudança alguma em sua indiferença pendular. Exceto quando a corda chegava ao fim e o seu carrilhão excessivamente lento se tomava num pedido de socorro: “Não quero morrer…“ Aí, aquele que tinha a missão de lhe dar corda – (pois este não era privilégio de qualquer um. Só podia tocar no coração do relógio aquele que já, por muito tempo, conhecesse os seus segredos) – subia numa cadeira e, de forma segura e contada, dava voltas na chave mágica. O tempo continuaria a fugir… Todas aquelas horas vividas e morridas estavam guardadas. De noite, quando todos dormiam, elas saíam. O passado só sai quando o silêncio é grande, memória do sobrado. E o meu medo era por isto: por sentir que o relógio, com seu pêndulo e carrilhão, me chamava para si e me incorporava naquela estória que eu não conhecia, mas só imaginava. Já havia visto alguns dos seus sinais imobilizados, fosse na própria magia do espaço da casa, fosse nos velhos álbuns de fotografia, homens solenes de colarinho engomado e bigode, famílias paradigmáticas, maridos assentados de pernas cruzadas, e fiéis esposas de pé, ao seu lado, mão docemente pousada no ombro do companheiro. Mas nada mais eram que fantasmas, desaparecidos no passado, deles, não se sabendo nem mesmo o nome. “Tempus fugit“. O relógio toca de novo. Mais um quarto de hora. Mais uma hora no quarto, sem dormir… Sentia que o relógio me chamava para o seu tempo, que era o tempo de todos aqueles fantasmas, o tempo da vida que passou. Depois o sobradão pegou fogo. Ficaram os gigantescos barrotes de pau-bálsamo fumegando por mais de uma semana, enchendo o ar com seu perfume de tristeza. Salvaram-se algumas coisas. Entre elas, o relógio. Dali saiu para uma casa pequena. Pelas noites adentro ele continuou a fazer a mesma coisa. E uma vizinha que não suportou a melodia do “Tempus fugit“ pediu que ele fosse reduzido ao silêncio. E a alma do relógio teve de ser desligada. Tenho saudades dele. Por sua tranqüila honestidade, repetindo sempre, incansável, “Tempus fugit“. Ainda comprarei um outro que diga a mesma coisa. Relógio que não se pareça com este meu, no meu pulso, que marca a hora sem dizer nada, que não tem estórias para contar. Meu relógio só me diz uma coisa: o quanto eu devo correr, para não me atrasar. Com ele, sinto-me tolo como o Coelho da estória da Alice, que olhava para seu relógio, corria esbaforido, e dizia: “Estou atrasado, estou atrasado…“ Não é curioso que o grande evento que marca a passagem do ano seja uma corrida, corrida de São Silvestre? Correr para chegar, aonde? Passagem de ano é o velho relógio que toca o seu carrilhão. O sol e as estrelas entoam a melodia eterna: “Tempus fugit“. E porque temos medo da verdade que só aparece no silêncio solitário da noite, reunimo-nos para espantar o tenor, e abafamos o ruído tranqüilo do pêndulo com enormes gritarias. Contra a música suave da nossa verdade, o barulho dos rojões… Pela manhã, seremos, de novo, o tolo Coelho da Alice: “Estou atrasado, estou atrasado…“ Mas o relógio não desiste. Continuará a nos chamar à sabedoria: Quem sabe que o tempo está fugindo descobre, subitamente, a beleza única do momento que nunca mais será… Rubem Alves

IMG_4389.JPG

Autoria e outros dados (tags, etc)

14
Ago17

Pensageiro Frequente de Mia Couto

por AnnaTree

COISAS LIDAS

(…)

Olhei a cidade e ela, pela primeira vez,me pareceu pequena. Como poderia ser grande um lugar se nele não cabia o amor de dois anónimos adolescentes?

Até áquela tarde eu era apenas uma menina capaz de sonhar vidas e viver sonhos.

Naquele momento creio ter entendido: a cidade não é um lugar. É a moldura de uma vida, um chão para a memória.(…) a cidade em que nasci estava destinada a nascer de mim. Um arame invisível nos prendia os pulsos, a mim e à minha terra natal.

In Pensageiro Frequente de Mia Couto

 

20768089_1499301420092341_3326924805567771306_n.jp

FOTOGRAFIA DE NUNO PIMENTA VIA FB

Autoria e outros dados (tags, etc)

IMG_1186.JPG

. Cavalo ruano corre todo o ano Cavalo baio mais veloz que o raio Cavalo branco veja lá se é manco Cavalo pedrês compro dois por mês Cavalo rosilho quero com filho Cavalo alazão a minha paixão Cavalo inteiro amanse primeiro Cavalo de sela mas não pra donzela Cavalo preto chave de soneto Cavalo de tiro não rincho, suspiro Cavalo de circo não corre uma vírgula Cavalo de raça rolo de fumaça Cavalo de pobre é vintém de cobre Cavalo baiano eu dou pra fulano Cavalo paulista não abaixa a crista Cavalo mineiro dizem que é matreiro Cavalo do sul chispa até no azul Cavalo inglês fica pra outra vez. . Parêmia = provérbio

Autoria e outros dados (tags, etc)

03
Abr17

So long, Diana

por AnnaTree

IMG_0995.JPG

So long, Diana Sousa Pinto Agora já não vejo o sol Nem seu reflexo lunar levo as asas nos bolsos e o coração a planar neste voo nocturno Nao sei onde vou aterrar sinto as nuvens nos meus pulsos e o leme sempre a consentir sao sempre os mesmos ossos que eu insisto em partir neste voo nocturno só quero mesmo resistir neste voo nocturno sou mais leve do que o ar neste voo nocturno nao sei onde vou acordar em baixo há manchas no canal mas eu nao as quero ver poeira ou plano está frio e as helices a ferver o nariz do avião só obedece a quem quiser agora nao existe nada o meu motor ao ralenti vou revendo em surdina tudo o que eu vivi neste voo nocturno a madrugada vem ai neste voo nocturno sou mais leve do que o ar neste voo nocturno nao si onde vou acordar. Jorge Palma

Autoria e outros dados (tags, etc)

coisas declamadas

a16cf27483c9e45b2987881e9bace2d4.jpg

 

 Para possuíres a filosofia

Das cousas, como um cético risonho,

Cheio de uma bondade comovida,

É preciso que tenhas algum dia

Escapado da Vida para o sonho

E voltado do sonho para a vida.

Autoria e outros dados (tags, etc)

02
Mar17

Raul Leoni História antiga

por AnnaTree

COISAS LIDAS

17021710_1325782984110853_5738498466403895238_n.jp

 

História antiga/No meu grande otimismo de inocente/Eu nunca soube por que foi... um dia,/Ela me olhou indiferentemente,/Perguntei-lhe por que era... Não sabia.../Desde então, transformou-se de repente/A nossa intimidade correntia/Em saudações de simples cortesia/E a vida foi andando para frente.../Nunca mais nos falamos... vai distante.../Mas, quando a vejo, há sempre um vago instante
Em que seu mudo olhar no meu repousa,/E eu sinto, sem no entanto compreendê-la,/Que ela tenta dizer-me qualquer cousa,/Mas que é tarde demais para dizê-la.../Raul Leoni

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

27
Fev17

Alberto Caeiro

por AnnaTree

IMG_0561.JPG

Quando Vier a Primavera Quando vier a Primavera, Se eu já estiver morto, As flores florirão da mesma maneira E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada. A realidade não precisa de mim. Sinto uma alegria enorme Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma Se soubesse que amanhã morria E a Primavera era depois de amanhã, Morreria contente, porque ela era depois de amanhã. Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo? Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo; E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse. Por isso, se morrer agora, morro contente, Porque tudo é real e tudo está certo. Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem. Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele. Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências. O que for, quando for, é que será o que é. Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos"

Autoria e outros dados (tags, etc)

15
Fev17

Ver Para Além do Olhar

por AnnaTree

672118e09f4d82b5598582e4a47f4e92.jpg

 

Uma coisa é o amor; outra coisa é a paixão. Embora parecidos, é importante distingui-los. Enquanto a paixão não considera limites, rompe as distâncias e tende à fusão; o amor reconhece a diferença, respeita o limite e sabe que a comunhão só pode acontecer na diferença. Enquanto a paixão, ao ver chegar os problemas, entra em crise; o amor entra em acção. A paixão diz: “o problema é teu”; o amor diz: “o problema é meu, também". A paixão diz: “preciso de ti para viver”; o amor diz: "quero dar-te a minha vida". A paixão dura um Verão; o amor é para todas as estações."

Ver Para Além do Olhar

Autoria e outros dados (tags, etc)

COISAS OUVIDAS E TRANSCRITAS

5ee2e6546f39ca8d35e37a4a0e99afea.jpg

 

 

Porque toleramos relações toxicas e insistimos em falar de amor

Ouvido no programa da cadena ser contigo dentro  30/01/2017

 

Se doí é desamor ou é inexistência de amor. O amor não dói e temos que começar a entender isso de uma vez por todas.

Falta de educação ou educação errónea. E os exemplos que nos dão os nossos modelos de referência e quando somos adultos repetimos esses modelos. Dizem que estás a educar quando não estás a tentar ensinar nada aos teus filhos. Isso de «não me separo por causa dos meus filhos» que é tantas vezes ouvido como desculpa para as relações se estendam no tempo; não serve de desculpa pois as crianças assistem a péssimos exemplos dos seus modelos de referência, quando formos grandes repetimos esses comportamentos. Não sabem depois pôr limites ou distinguir o que é negociável e o q nunca devia ser negociável numa relação.

Uma pessoa sabe sempre quando não se sente bem numa relação, porque não se encaixa no que uma pessoa quer. É certo que tentamos normalizar certas situações e acabamos a desculpabilizar comportamentos tóxicos, mas depois o nosso corpo nunca nos engano e começamos a desenvolver ansiedade a sentirmos nos mal a ter pensamentos negativos.

A forma como amamos é feita de auto estima. A auto estima forma se com as doses de reconhecimento que vieram dos nossos pais e também com as doses de afecto e /ou com as doses de carência e de críticas permanentes. Em função da quantidade de afecto ou de desamor que recebes vai te fazer sentir uma pessoa capaz, valiosa ou ao invés uma pessoa incapaz sem valor. Quanto pior uma pessoa se sente com ela mesma mais medo tem de encontrar alguém a quem amar, por isso muitas vezes contentamo nos com a primeira pessoa que se fixa em nós e que muitas vezes não escolhemos

Autoria e outros dados (tags, etc)

COISAS LIDAS

images.jpg

 

Sabe luisa, pensei escrever sobre um livro de Óscar Wilde. Agora, em frente desta folha, foi irresistível falar consigo, não através dos autores, mas através de mim. Vêm –me as lagrimas aos olhos não sei bem porquê. Talvez pela noção de paralelo, entre o sofrimento solitário e o que hoje pode ser partilhado consigo, dantes, só o papel me ouvia e apenas a ele denunciava as minhas inquietações. Agora posso contar consigo. Contar-me. É impossível não agradecer a quem nos embalou, a quem nos deu abrigo. Ninguém entenderia estas palavras que lhe escrevo, pois as acharia excessivas ou injustas. Não me interessa. As duas sabemos: apesar da minha inconsciência (pois eu teimava em esquecer), a luisa corrigiu a interpretação dessas dores e, como se eu fosse disléxica, trocou as letras das palavras equivocas. Por isso posso agora entregar lhe a dor e quase os segredos. Nem sabia o que eram os segredos, não me eram permitidos; agora até posso dar me ao luxo de os esconder. Chorarei todas as lagrimas que me foram interditas. Choro, porque já desconfio ser possível. Só depois das lagrimas, poderei ver o sol que as seca. Há muitos sóis, não há luisa? Há, não há? Preciso de saber a verdade, para continuar a levantar –me de manhã, festejar o gato e assobiar. Quero tanto acreditar que me posso erguer do seu divã e ser feliz cá fora. Sinto urgência. Mas sei que é longa a cicatrização dos golpes profundos. É preciso tempo para cuidar deles: protegê-los da terra, das águas sujas, dos fumos. Os outros ainda me doem, a natureza ainda me magoa, os animais assustam me e a culpa devora me. Nesta casa tao grande, longe de si, procuro encontrar um espaço quente. Não é fácil encontrar o meu lugar e quando adormeço, os sonhos atormentam –me e lembram-me outras vidas que vivi, bem longe da memoria. Acordo já perdida. Ai começa tudo de novo: inquieta, procuro –me nos livros, nos papeis e na jardinagem desta casa. Tudo isto na ansiedade (esse monstro) de construir a minha morada a minha cabana, onde os pesadelos desistirão de me assombrar e onde as pessoas possam entrar sem que me doam Éramos duas mulheres e nenhuma de nós tinha de ser subalterna. Devíamo-nos respeito e nada mais. Poderíamos tornarmo-nos amigas desde que respeitássemos a liberdade uma da outra. Por mim não haveria mais cobranças. Tinha sido a análise que entendera que mais nada podia exigir de quem me tinha oferecido tudo o que tinha para dar. Não podia passar o resto da vida na frustração de ser amada da forma que sonhara. Tinha chegado a hora de aceitar os meus pais com as suas limitações e não insistir na frustração de querer modifica-los. Quero-a disciplinar o meu rumo sem estar presa a acusações. De qualquer forma, não podia ignorar as feridas que não foram tratadas. Isso era o mais difícil: a minha tendência era esquecer passado e começar uma nova vida, mas percebi que não resultava porque os sonhos não desistiam de mo lembrar e tinha que integrar um passado triste num presente que se estava a tornar, aos poucos, agradável.

Autoria e outros dados (tags, etc)


Mais sobre mim

foto do autor




subscrever feeds