Sexta-feira, 27 de Janeiro de 2012

Coisas Declamadas

 

 

O amor paciente, repleto de bondade,

O amor que desconhece a inveja e não ostenta orgulho,

O amor sem vaidade, que descura o próprio interesse,

E não se irrita e não suspeita mal,

O amor que não colhe alegria da injustiça

Mas se alegra com a verdade;

Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera,

Tudo suporta.


Ao Carlos :)



publicado por AnnaTree às 11:39
Quinta-feira, 26 de Janeiro de 2012


publicado por AnnaTree às 15:19
Quarta-feira, 25 de Janeiro de 2012

Coisas Declamadas





Escalar-te lábio a lábio/percorrer-te: eis a cintura
o lume breve entre as nádegas/e o ventre, o peito, o dorso
descer aos flancos, enterrar/os olhos na pedra fresca
dos teus olhos,/entregar-me poro a poro
ao furor da tua boca,/esquecer a mão errante
na festa ou na fresta/aberta à doce penetração
das águas duras,/respirar como quem tropeça
no escuro, gritar/às portas da alegria,
da solidão./Porque é terrível/subir assim às hastes da loucura,
do fogo descer à neve./Abandonar-me agora
nas ervas ao orvalho-/a glande leve.

Eugénio de Andrade



publicado por AnnaTree às 15:04
Segunda-feira, 23 de Janeiro de 2012


publicado por AnnaTree às 13:42
Sexta-feira, 20 de Janeiro de 2012

Coisas Lidas



Acho que a coisa mais importante que me aconteceu na vida foi uma viagem de cerca de um mês a Itália, com o meu avô. O meu avô guiava e eu sentado ao lado dele, com um volante de plástico, fingia que guiava também.

(…)

De vez em quando o meu avô fazia-me uma festa no pescoço. É engraçado mas ainda sinto os dedos dele.

(…)

As paixões demoravam a passar nessa época em que tudo era lento. Dias compridíssimos, dentes que demoravam séculos a nascer. O meu padrinho dava-me dinheiro pelos dentes de leite. Se eu fosse jacaré estava rico

(…)

A torre Eiffel parece-me uma coisa por acabar, que julgava só existir dentro de um pisa papeis. Voltava-se ao contrário e um redemoinho de palhetas douradas esvoaçavam ao redor daquilo. Talvez o meu avo tivesse força para voltar a Paris mas por um motivo qualquer que me escapa não o fez, e portanto não houve palhetas douradas nenhumas. Ainda pensei em pedir-lhe. Respeitei o seu desinteresse pelo pisa-papéis e, dececionado, afastei o pescoço quando os dedos vieram. Logo a seguir, claro, arrependi-me. Se calhar o meu avo ia voltar-me, a mim, ao contrário, e eu cercado de palhetas douradas. Voltando a Portugal o oferecia-me ao marido da costureira e teria ficado lindamente em cima do rádio. Como me diziam sempre:

-tão bonito, tão loiro

(…)

E a seguir voltávamos, e a seguir o tal tempo lento pôs-se a andar cada vez mais depressa. Até hoje. Eu fiz dezoito anos e o meu avo morreu. Desde a sua morte não me aconteceu nada de importante. Queria dizer-lhe não tive filhos, avo, tive filhas: juro que não foi por mal. E escrevo, facto que tanto o alarmava chamou me ao escritório, perguntou-me no seu poder de síntese de oficial de cavalaria:

-és invertido, por acaso?

Eu não sabia o que era invertido. Pela sua cara tratava-se de uma palavra horrível e garanti-lhe logo que não. Olhou-me desconfiado, a murmurar, perguntei-lhe

- O que é que disse?

E ele a murmurar

- Nada, pode ir-se embora

Espiei-o da porta: continuava a murmurar. Depois de algumas investigações no dicionário e horas de reflexão atarantada, conclui que invertido tinha que ver com pisa-papéis ao contrário e tudo cheio de palhetas douradas a brilharem. Estou a escrever isto de paris. Da janela vejo a torre Eiffel

A grande invertida

E fechei logo a persiana. Não quero que o meu avo pense mal de mim. Nem me aproximo dela. Fujo, evito-a. Não consinto que me levem lá. Pode ser que desta maneira me perdoe o pecado de escrever. Entretanto, para lhe acalmar as suspeitas, recuso-me a fazer o pino. Aqui estou eu como um fuso, direito, de pés no tapete. Se na televisão um intelectual fala da inversão de valores, desligo logo o aparelho não vá isso pegar-se e eu acabar pisa papéis do marido da costureira

 



publicado por AnnaTree às 15:05
Quinta-feira, 19 de Janeiro de 2012


publicado por AnnaTree às 15:03
Quarta-feira, 18 de Janeiro de 2012

Coisas Declamadas



"Colhe o dia, confia o mínimo no amanhã

Não perguntes, saber é proibido, o fim que os deuses

darão a mim ou a você, Leuconoe, com os adivinhos da Babilônia

não brinque. É melhor apenas lidar com o que se cruza no seu caminho

Se muitos invernos Júpiter te dará ou se este é o último,

que agora bate nas rochas da praia com as ondas do mar

Tirreno: seja sábio, beba o seu vinho e para o curto prazo

reescale as suas esperanças. Mesmo enquanto falamos, o tempo ciumento

está fugindo de nós. Colhe o dia, confia o mínimo no amanhã.

 



publicado por AnnaTree às 12:58
Terça-feira, 17 de Janeiro de 2012


publicado por AnnaTree às 13:16
Segunda-feira, 16 de Janeiro de 2012

 

Coisas Lidas



 

Tínhamos o quê? Dezasseis? Dezassete anos (…) íamos buscar-te ao colégio e esperava enquanto mudavas de roupa na pastelaria do Sr. Fonseca (…) entre as seis e as sete, era a mudança de turno das empregadas. E a Adelina e a Lurdes e vinham a Isaura e a Joaquina. Fazíamos amor na sala, no hall de entrada, e na casa de banho, nem sempre por esta ordem (…) no outro dia era igual.

Quando vinham a casa, os teus pais traziam-te chocolates e postais (…) se te perguntava onde estavam tu dizias que, de certeza, em nenhum sítio daqueles porque eles nunca iam aos mesmos sítios. Dizias isso com os olhos a brilhar, e eu tenho pena de nunca te ter perguntado se era porque te sentias sozinha ou porque tivéssemos estado a fumar (…). Aos fins-de-semana, tinhas uma tia-avó enviada pelos teus pais. Esperavas que ela adormecesse para irmos passear para o centro comercial. Escolhíamos os filmes em que achávamos que estivessem menos pessoas. Normalmente europeus. Não me lembro de nenhum. No centro comercial havia colegas tuas que andavam às compras com as mães. E segredavam-lhes coisas quando nós passávamos (…)

Mas um dia os teus pais levaram-te e eu nunca mais soube nada de ti.

Vi-te há algum tempo numa revista. Estavas bonita. Casaste bem. Um tipo louro com punhos e pescoço fortes, confiantes. Uma casa grande e um jardim com muitas árvores. Havia (…) miúdos. Ele é como eu sempre imaginei que fosse. Os olhos e o cabelo castanhos. Obrigado por teres cumprido a promessa. Isso eu nunca te teria perdoado



publicado por AnnaTree às 12:05
Sexta-feira, 13 de Janeiro de 2012


Coisas lidas,ouvidas,cantadas, declamadas,faladas,escritas
mais sobre mim
Janeiro 2012
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6
7

8
9
14

15
21

22
24
28

29
30
31


pesquisar neste blog
 
subscrever feeds
blogs SAPO