Domingo, 22 de Outubro de 2017

O velho que plantava arvores

Em vez de ir a manifestações silenciosas pelos incêndios acho melhor plantar árvores

https://m.youtube.com/watch?feature=sha&v=Klx8UBMRrMA


publicado por AnnaTree às 17:49
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Sexta-feira, 13 de Outubro de 2017

Bulling no trabalho aulas direitos e garantias dos trabalhadores

Coisas dadas em aulas Bulling no trabalho reportagem da tvi https://m.youtube.com/watch?v=kr-QwnUaiIQ


publicado por AnnaTree às 16:13
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Quarta-feira, 4 de Outubro de 2017

...


publicado por AnnaTree às 09:43
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Domingo, 27 de Agosto de 2017

Relógio Rúben Alves

Eu tinha medo de dormir na casa do meu avô. Era um sobradão colonial enorme, longos corredores, escadarias, portas grossas e pesadas que rangiam, vidros coloridos nos caixilhos das janelas, pátios calçados com pedras antigas… De dia, tudo era luminoso. Mas quando vinha a noite e as luzes se apagavam, tudo mergulhava no sono: pessoas, paredes, espaços. Menos o relógio… De dia, ele estava lá também. Só que era diferente. Manso, tocando o carrilhão a cada quarto de hora, ignorado pelas pessoas, absorvidas por suas rotinas. Acho que era porque durante o dia ele dormia. Seu pêndulo regular era seu coração que batia, seu ressonar, e suas músicas eram seus sonhos, iguais aos de todos os outros relógios. De noite, ao contrário, quando todos dormiam, ele acordava, e começava a contar estórias. Só muito mais tarde vim a entender o que ele dizia: “Tempus fugit“. E eu ficava na cama, incapaz de dormir, ouvindo sua marcação sem pressa, esperando a música do próximo quarto de hora. Eu tinha medo. Hoje, acho que sei por quê: ele batia a Morte. Seu ritmo sem pressa não era coisa daquele tempo da minha insônia de menino. Vinha de muito longe. Tempo de musgos crescidos em paredes húmidas, de tábuas largas de assoalho que envelheciam, de ferrugem que aparecia nas chaves enormes e negras, da senzala abandonada, dos escravos que ensinaram para as crianças estórias de além-mar “dinguele-dingue que eu vou para Angola, dingue-ledingue que eu vou para Angola“ de grandes festas e grandes tristezas, nascimentos, casamentos, sepultamentos, de riqueza e decadência… O relógio batera aquelas horas – e se sofrera, não se podia dizer, porque ninguém jamais notara mudança alguma em sua indiferença pendular. Exceto quando a corda chegava ao fim e o seu carrilhão excessivamente lento se tomava num pedido de socorro: “Não quero morrer…“ Aí, aquele que tinha a missão de lhe dar corda – (pois este não era privilégio de qualquer um. Só podia tocar no coração do relógio aquele que já, por muito tempo, conhecesse os seus segredos) – subia numa cadeira e, de forma segura e contada, dava voltas na chave mágica. O tempo continuaria a fugir… Todas aquelas horas vividas e morridas estavam guardadas. De noite, quando todos dormiam, elas saíam. O passado só sai quando o silêncio é grande, memória do sobrado. E o meu medo era por isto: por sentir que o relógio, com seu pêndulo e carrilhão, me chamava para si e me incorporava naquela estória que eu não conhecia, mas só imaginava. Já havia visto alguns dos seus sinais imobilizados, fosse na própria magia do espaço da casa, fosse nos velhos álbuns de fotografia, homens solenes de colarinho engomado e bigode, famílias paradigmáticas, maridos assentados de pernas cruzadas, e fiéis esposas de pé, ao seu lado, mão docemente pousada no ombro do companheiro. Mas nada mais eram que fantasmas, desaparecidos no passado, deles, não se sabendo nem mesmo o nome. “Tempus fugit“. O relógio toca de novo. Mais um quarto de hora. Mais uma hora no quarto, sem dormir… Sentia que o relógio me chamava para o seu tempo, que era o tempo de todos aqueles fantasmas, o tempo da vida que passou. Depois o sobradão pegou fogo. Ficaram os gigantescos barrotes de pau-bálsamo fumegando por mais de uma semana, enchendo o ar com seu perfume de tristeza. Salvaram-se algumas coisas. Entre elas, o relógio. Dali saiu para uma casa pequena. Pelas noites adentro ele continuou a fazer a mesma coisa. E uma vizinha que não suportou a melodia do “Tempus fugit“ pediu que ele fosse reduzido ao silêncio. E a alma do relógio teve de ser desligada. Tenho saudades dele. Por sua tranqüila honestidade, repetindo sempre, incansável, “Tempus fugit“. Ainda comprarei um outro que diga a mesma coisa. Relógio que não se pareça com este meu, no meu pulso, que marca a hora sem dizer nada, que não tem estórias para contar. Meu relógio só me diz uma coisa: o quanto eu devo correr, para não me atrasar. Com ele, sinto-me tolo como o Coelho da estória da Alice, que olhava para seu relógio, corria esbaforido, e dizia: “Estou atrasado, estou atrasado…“ Não é curioso que o grande evento que marca a passagem do ano seja uma corrida, corrida de São Silvestre? Correr para chegar, aonde? Passagem de ano é o velho relógio que toca o seu carrilhão. O sol e as estrelas entoam a melodia eterna: “Tempus fugit“. E porque temos medo da verdade que só aparece no silêncio solitário da noite, reunimo-nos para espantar o tenor, e abafamos o ruído tranqüilo do pêndulo com enormes gritarias. Contra a música suave da nossa verdade, o barulho dos rojões… Pela manhã, seremos, de novo, o tolo Coelho da Alice: “Estou atrasado, estou atrasado…“ Mas o relógio não desiste. Continuará a nos chamar à sabedoria: Quem sabe que o tempo está fugindo descobre, subitamente, a beleza única do momento que nunca mais será… Rubem Alves

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publicado por AnnaTree às 09:42
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Segunda-feira, 14 de Agosto de 2017

Pensageiro Frequente de Mia Couto

COISAS LIDAS

(…)

Olhei a cidade e ela, pela primeira vez,me pareceu pequena. Como poderia ser grande um lugar se nele não cabia o amor de dois anónimos adolescentes?

Até áquela tarde eu era apenas uma menina capaz de sonhar vidas e viver sonhos.

Naquele momento creio ter entendido: a cidade não é um lugar. É a moldura de uma vida, um chão para a memória.(…) a cidade em que nasci estava destinada a nascer de mim. Um arame invisível nos prendia os pulsos, a mim e à minha terra natal.

In Pensageiro Frequente de Mia Couto

 

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FOTOGRAFIA DE NUNO PIMENTA VIA FB


publicado por AnnaTree às 16:28
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Terça-feira, 18 de Abril de 2017

Parémia do cavalo Drummond Andrade

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. Cavalo ruano corre todo o ano Cavalo baio mais veloz que o raio Cavalo branco veja lá se é manco Cavalo pedrês compro dois por mês Cavalo rosilho quero com filho Cavalo alazão a minha paixão Cavalo inteiro amanse primeiro Cavalo de sela mas não pra donzela Cavalo preto chave de soneto Cavalo de tiro não rincho, suspiro Cavalo de circo não corre uma vírgula Cavalo de raça rolo de fumaça Cavalo de pobre é vintém de cobre Cavalo baiano eu dou pra fulano Cavalo paulista não abaixa a crista Cavalo mineiro dizem que é matreiro Cavalo do sul chispa até no azul Cavalo inglês fica pra outra vez. . Parêmia = provérbio


publicado por AnnaTree às 09:31
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Segunda-feira, 3 de Abril de 2017

So long, Diana

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So long, Diana Sousa Pinto Agora já não vejo o sol Nem seu reflexo lunar levo as asas nos bolsos e o coração a planar neste voo nocturno Nao sei onde vou aterrar sinto as nuvens nos meus pulsos e o leme sempre a consentir sao sempre os mesmos ossos que eu insisto em partir neste voo nocturno só quero mesmo resistir neste voo nocturno sou mais leve do que o ar neste voo nocturno nao sei onde vou acordar em baixo há manchas no canal mas eu nao as quero ver poeira ou plano está frio e as helices a ferver o nariz do avião só obedece a quem quiser agora nao existe nada o meu motor ao ralenti vou revendo em surdina tudo o que eu vivi neste voo nocturno a madrugada vem ai neste voo nocturno sou mais leve do que o ar neste voo nocturno nao si onde vou acordar. Jorge Palma


publicado por AnnaTree às 09:24
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Sexta-feira, 3 de Março de 2017

DO MEU EVANGELHO Raul de Leoni (1895-1926)

coisas declamadas

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 Para possuíres a filosofia

Das cousas, como um cético risonho,

Cheio de uma bondade comovida,

É preciso que tenhas algum dia

Escapado da Vida para o sonho

E voltado do sonho para a vida.


publicado por AnnaTree às 13:03
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Quinta-feira, 2 de Março de 2017

Raul Leoni História antiga

COISAS LIDAS

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História antiga/No meu grande otimismo de inocente/Eu nunca soube por que foi... um dia,/Ela me olhou indiferentemente,/Perguntei-lhe por que era... Não sabia.../Desde então, transformou-se de repente/A nossa intimidade correntia/Em saudações de simples cortesia/E a vida foi andando para frente.../Nunca mais nos falamos... vai distante.../Mas, quando a vejo, há sempre um vago instante
Em que seu mudo olhar no meu repousa,/E eu sinto, sem no entanto compreendê-la,/Que ela tenta dizer-me qualquer cousa,/Mas que é tarde demais para dizê-la.../Raul Leoni

 


publicado por AnnaTree às 09:57
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Segunda-feira, 27 de Fevereiro de 2017

Alberto Caeiro

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Quando Vier a Primavera Quando vier a Primavera, Se eu já estiver morto, As flores florirão da mesma maneira E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada. A realidade não precisa de mim. Sinto uma alegria enorme Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma Se soubesse que amanhã morria E a Primavera era depois de amanhã, Morreria contente, porque ela era depois de amanhã. Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo? Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo; E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse. Por isso, se morrer agora, morro contente, Porque tudo é real e tudo está certo. Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem. Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele. Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências. O que for, quando for, é que será o que é. Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos"


publicado por AnnaTree às 09:36
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