Terça-feira, 09 de Fevereiro de 2010

 

 



publicado por AnnaTree às 14:33
Segunda-feira, 08 de Fevereiro de 2010

Coisas Mailadas
(Enviado por Joana salgado Obrigada )
Foi em 2010 que o prof. Andrew Oitke publicou o seu polémico livro Mental Obesity, que revolucionou os campos da educação, jornalismo e relações sociais em geral. Nessa obra, o catedrático de Antropologia em Harvard introduziu o conceito em epígrafe para descrever o que considerava o pior problema da sociedade moderna. «Há apenas algumas décadas, a Humanidade tomou consciência dos perigos do excesso de gordura física por uma alimentação desregrada. Está na altura de se notar que os nossos abusos no campo da informação e conhecimento estão a criar problemas tão ou mais sérios que esses.» Segundo o autor, «a nossa sociedade está mais atafulhada de preconceitos que de proteínas, mais intoxicada de lugares-comuns que de hidratos de carbono. As pessoas viciaram-se em estereótipos, juízos apressados, pensamentos tacanhos, condenações precipitadas. Todos têm opinião sobre tudo, mas não conhecem nada. Os cozinheiros desta magna fast food intelectual são os jornalistas e comentadores, os editores da informação e filósofos, os romancistas e realizadores de cinema. Os telejornais e telenovelas são os hamburgers do espírito, as revistas e romances são os donuts da imaginação.»
O problema central está na família e na escola. «Qualquer pai responsável sabe que os seus filhos ficarão doentes se comerem apenas doces e chocolate. Não se entende, então, como é que tantos educadores aceitam que a dieta mental das crianças seja composta por desenhos animados, videojogos e telenovelas. Com uma "alimentação intelectual" tão carregada de adrenalina, romance, violência e emoção, é normal que esses jovens nunca consigam depois uma vida saudável e equilibrada.»



publicado por AnnaTree às 11:23
Domingo, 07 de Fevereiro de 2010

 

 



publicado por AnnaTree às 20:18
Quinta-feira, 04 de Fevereiro de 2010

Coisas Lidas e que deixaram marca a vermelho


(no campo de refugiados)


A mulher estava morta, em puro e total falecimento. Seu ventre inchado recortava o inteiro azul. O cadáver, adiantado, não tinha salvação. A sua volta, zunzunavam as moscas, devotas carpideiras.
Daquele corpo não se esperava senão o ultimo pudor: ele que se cobrisse, em deferência á vida. Convidasse a poeira, invocasse a noite, fizesse o que entendesse mas poupasse o olhar dos viventes. Porque, naquele lugar, já não havia força para enterrar ninguém. Os defuntos se extinguissem as suas custas. Os outros, únicos residentes, estavam demasiado ocupados em sobrevivências.
Refugiados, ali restavam, sem fazerem favor a morte. Por que não cediam, noivos que estavam ausência? Seria a recordação da esperança, saudade de um antigamente?
Talvez, por isso, eles se tiravam da visão da defunta. Os refugiados se doseavam, nas aplicações da tristeza. Estarem vivos era seu resguardado segredo. Estivessem eles no território da vida e teriam seguido a tradição: levavam a grávida á cova e, antes de a sepultarem. Lhe abriam o ventre. Nem que fosse para ganharem certeza sobre o sexo do feto. Mas agora não, todos se faziam ninguém.
E assim a morta teimava em sua solidão. Parecia assunto apenas capaz de esquecimento quando do corpo começou a emergir uma levíssima respiração. Parecia as costelas regressavam á sua imperceptível dança. O que seria?
- É inchaço de gases, digestão dos falecidos.
Os presentes se aproximaram, atraídos os pelo lampejo daquela luz luzia. Espreitaram, debicaram com os olhos. Foi quando, de entre as coxas da falecida, se viu o desfolhar de um pequeno corpo.
Os olhos se alargaram de espanto ao espanto. A coisa carnuda progredia, excrescendo como um desembrulho, ventre afora. A morta estava, creia-se, em obras de parto. A vida, em seu corpo, fazia horas extraordinárias.
Ninguém mexeu, nenhuma mão se baixou. Fosse a criança filha da vida e as todas mulheres se anunciariam tias, incontáveis seriam os peitos de amamentar. Mas aquele menino nascera da foz para a fonte, em avessa e agoirenta execução.
Nem valesse o recém-nascido declarar uma choradeira, beicinho a convidar compaixão. Os presentes já davam costas ao sucedido e se afastavam em arrastados passos. Parecia aos pés deles eram pertença antecipada do chão, ambos em recíproco afecto.
Foi quando Tazarina se desapinhou da multidão. Ela tinha um ar de a si mesmo se faltar. Se conhecia por ser cabistonta, esquizofrénica, mazelenta e tão magra que, mesmo sem roupa, sua nudez não se notava. Nunca se lhe ouvira palavra, vogalzinha que fosse. Faltava-lhe o cabelo, restando duas magras tranças caídas sobre a testa. Tazarina sempre toda tremia, sequer suas mãos ela segurava. Bamboleava de varias bandas, parecendo ter mais joelhos que pernas, um número impar e infinito de tornozelos.
Sua única ocupação era apanhar cigarras. Junto das acácias ela chamava os bichos, imitando-lhes o canto. Segurava-lhes mas orelhas, a servirem de brincos vivos e sonoros. As cigarras, diziam-se, eram elas que lhe tinham comido o cabelo.
Pois foi esta definhosa, maleijadissima mulher que se achegou ao nascido e dele se ocupou. Levantou o orfãozito por um braço, erguendo-lhe acima da cabeça. Em seu desajeito devia de magoar o pequeno. Contudo, mesmo em tal desconforto, o menino parou de chorar. E quando Tazarina lhe ofereceu o regaço, o menino procurou o seio dela, sem recheio. Á medida que dava a mama, Tazarina se ia perfilando mais e mais segura, capaz de exercer ternuras. Seu corpo ensaiava mesmo a graça de ser mulher.
Foi então: os refugiados assistiram ao que nem davam credito. Pois a pobre mulher começou a cantar. Já não se servia rouquejos. Antes debitava doces embalos. Aos poucos ela se ia enchendo de corpo, os seios se avolumavam, os olhos se maternizavam, seus cabelos se preenchiam, capazes de pentes e penteados.
O menino se saciou e encostou no colo de Tazarina o seu primeiro sorriso. De longe, alguém atirou um pano que Tazarina apanhou e usou para cobrir a criança.
Depois, ela se afastou em caminhar sereno, altiva como se houvesse estrada e o destino fosse sua exclusiva posse. A um momento, Tazarina se voltou para encarar a multidão. Nunca se viu, dizem, mãe em tanta compostura. O rosto dela merecia toda a luz. De cada lado, pendia a fulgencia de ouro. As cigarras, seus antigos brincos, se haviam convertido em metal, com sonoras cintilancias.
Refaçam-se agora as contas da humanidade habitável. Pois cada menino nascido faz nascer uma mãe de uma respectiva mulher. Assim, cada novo ser triplica o número de viventes. Um filho, afinal, é que dá luz a mãe.

 



publicado por AnnaTree às 15:20

 

 


obrigada helena dias



Quarta-feira, 03 de Fevereiro de 2010

Rosa Lobato Faria
(para a mãe)
Desaguei de ti para o lençol de espuma

e fui escuna sangue grito faca

Nunca mais saboreei o interior do teu ventre

o mar de nenúfares

os doces dedos da agua

o coração horizontal.

 

desaguei de ti

para este báltico de poesia

este mediterrâneo de loucura

este mar morto poluído de dias

e de noites atlânticas.

 

e não te encontro na rota dos meus braços

pertenço-te e não posso

inundar-te de saliva safiras e poemas

devolver-te o leite

alisar-te os cabelos

pousar na tua face de nardo

a sílaba cor da lua

da palavra mãe.

 



publicado por AnnaTree às 10:08
Terça-feira, 02 de Fevereiro de 2010

 

 



publicado por AnnaTree às 14:32
Segunda-feira, 01 de Fevereiro de 2010

 

 

Coisas declamadas
 
Deus escreve direito por linhas tortas
E a vida não vive em linha recta
Em cada célula do homem
Estão inscritas
A cor dos olhos e a argúcia do olhar
O desenho dos ossos e o contorno da boca
Por isso te olhas ao espelho:
E no espelho te buscas para te reconhecer
Porem em cada célula desde o inicio
Foi inscrito o signo veemente da tua liberdade
Pois foste criado e tens de ser real
Por isso não percas nunca o teu fervor mais austero
Tua exigência de ti e por entre
Espelhos deformantes e desastres e desvios
Nem um momento só podes perder
A linha musical do encantamento
Que é o teu sol, tua luz, teu alinhamento
Sophia Mello Bryener

 



publicado por AnnaTree às 10:31
Domingo, 31 de Janeiro de 2010

 

 



publicado por AnnaTree às 20:57
Sexta-feira, 29 de Janeiro de 2010

 

Coisas Lidas

A história reza o seguinte: “Um dia, o burro cansado, sobrecarregado pelo camponês a mando de quem trabalhava, com tantos e tantos fardos às costas, caiu num poço mandado fazer pelo próprio lavrador na ânsia de encontrar água e fortuna. O animal chorou fortemente durante horas e horas, apesar do camponês, disfarçadamente, tentar mostrar-lhe que fazia algo para o tirar do poço, para o seu bem. Finalmente, o camponês decidiu que o burro já estava velho e o poço já estava seco e necessitava de ser tapado de qualquer modo, que realmente não valia a pena tirar o burro do poço. Convidou todos os seus vizinhos para que viessem ajudá-lo. Cada um agarrou uma pá e começaram a atirar terra para o poço. O burro deu-se conta do que estava a passar-se e chorou horrivelmente. Mas, para surpresa de todos, depois de umas tantas pazadas de terra, acalmou-se. O camponês finalmente mirou o fundo do poço e surpreendeu-se com o que viu... com cada pazada de terra, o burro estava fazendo algo incrível: sacudia a terra e dava um passo por cima da mesma; outra pazada de terra e o burro de novo a sacudia e dava um passo encima dela. E assim por diante. De repente toda a gente viu, surpreendida, como o burro chegou até à boca do poço passou por cima da borda e saiu a trote

 

 



publicado por AnnaTree às 09:43
Coisas lidas,ouvidas,cantadas, declamadas,faladas,escritas
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