Quinta-feira, 15 de Novembro de 2018

Estilhaços Júlio Machado Vaz

Coisas lidas

 

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Puto, comia na cozinha. Em cadeira e mesa de verga, cuja escala reduzida feria o meu orgulho, ansioso por subir na vida e em casa cobiçava a sala de jantar dos grandes.

(...)

 Aos oito anos abandonei o gueto a família  passou a tomar as refeições em conjunto, crescera o suficiente para me sentar de costas para a cristaleira e de frente para o sólido apetite da avó. Hoje lembro, com saudade e gratidão, outros rituais. Meu pai incentivava e ouvia com ternura as minhas opiniões, prestando-lhes a maior das homenagens: submetias -as ao exame da sua argumentação para eu aprender a fina esgrima do debate. E quando na ânsia de sobreviver ao seu verbo Florentino o filho se excedia, esboçava um sorriso, perguntando se "não estaria a deixar-me arrastar pelo prazer da frase". Em 50 anos de vida ninguém voltou a dizer-me de forma tão elegante que estava a fazer figura! De parvo!

 


publicado por AnnaTree às 09:44
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Terça-feira, 13 de Novembro de 2018

Estilhaços de Júlio Machado Vaz

Coisas lidas

(...)

amor de hoje — talvez falemos de outros um dia — fala pelos cotovelos, Exige que nos investigamos constantemente e do resultado dêmos conta ao outro que faz o mesmo, a salvação reside no conhecimento, mútuo e profundo, à intimidade dos corpos junta-se a  arqueologia das almas.

(...)

 Também o sexo pressupõe aprendizagem cuidadosa, não basta evitar a ignorância Geradora de mal-entendido  que se cala na tristeza de um adeus preventivo, deixar alguém para não ser deixado é sinal amargo de dúvidas que sobrevivem à adolescência. É preciso mais: amar com eficácia, o prazer do outro salvará a nossa auto-estima. 

(...)

E o que aconteceu aos homens/mulheres das nossas vidas? Continuamos a esperá-los , mas não da mesma forma. A maior liberdade dos customs e a certeza que duas pessoas, para serem felizes, devem ser "compatíveis", empurram-nos para uma aprendizagem por tentativas e erros. O outro não surge por revelação divina ou laica e o amor à primeira vista é temido e desejado . Chegas-se ao companheiro ideal após experiências diversas, que permitem reconhecê-lo por constante compraste de afetos e prazeres, uma vez nos seus braços poderemos dizer sem receio, como Neruda: confesso que vivi. Sem receio… Eu aconselharia algum cuidado às mulheres , nisto da igualdade entre os sexos nem sempre a prática corresponde a teoria. 

 

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publicado por AnnaTree às 10:08
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Segunda-feira, 12 de Novembro de 2018

Estilhaços de Júlio Machado Vaz uma noite como as outras

Coisas lidas

 

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Uma noite como tantas outras. Depois das outras, porque outras existiram há uma eternidade, meia dúzia de anos.

Ele chegado de cama alheia para onde tenciona regressar, ela evitando a sua por apenas desejar dormir, embora sono profundo a não visite com frequência. Nem uma palavra na escuridão: de malícia brincalhona para apimentar a parte do amor que dizemos fazer, usando metáfora de construção civil; de raiva dorida, que magoa e por isso traz algum alívio pela certeza de estarem os dois de alma inteira; de solidão partilhada por antigos amantes olhando o teto, os corpos nus de luto pesado pelo espasmo que já não volta .Nem uma palavra. 

Ela empresta o corpo, se isso se chama  a abrir as coxas para ele entrar e permanecer. A cabeça fugiu e deixou o olhar baço, o coração vestiu armadura tecida em noites de espera e posta à prova por telefonemas anónimos e avisos voluptuosos de amigas e familiares. Assim a tem, vagina áspera  e quadris imóveis, nem o prazer reflexo lhe concede.O coração. E ele encarniças -se , na esperança toda macha de a sentir em arco, exigindo promessas, mostrando saudades, reprimindo  um gemido que não seja de dor ou fastio.Se a não tiver como poderá engana-la? Ninguém aprecia escapadelas sem ter braços a que voltar e depois…, 

Um sabor a injustiça caprichosa de mulher. Os homens são os homens, pousam em flores que não as suas mas delas não trazem o pólen, regressam e imaculados, a alma nem chegou a partir e o corpo teve a delicadeza de passar pelo chuveiro. 

(...)

Querida. 

E algo irrompe dentro dela, feroz de triste, a noite deixa de ser como as outras, muito menos como as outras de antanho. Vestido roubado com um safanão ao sossego do cabide ,  nua em direção à porta do quarto, ele surpreso e preso de estupor quando a chave roda na fechadura; Prisioneiro. A vida tem destas ironias, anos atrás libertou- a de marido sufocante com promessas de novo amor para sempre, mais livre e adulto, sem porrada velha e ciúmes alcoólicos. Estranho jogo, dois homens disputando mulher a quem reservavam o mesmo destino, interessará a forma da gaiola que prende o pássaro e lhe estrangula o canto? 

Nem palavra de conforto a si própria ou resposta à fúria dele. A sala. A velha telefonia ilude o cansaço, ninguém se lembrou de lhe permitir o descanso, música noite dentro para gente da sua idade, costumava esperá-lo no escuro , ansiosa  por acreditar nas suas mentiras. Stop!, in the name of love… Último aviso? Pois bem: recebido e desprezado. Enquanto se dirige ao quarto da miúda vai remoendo preocupação ridícula em momentos de decisões graves, memória do que se orgulhava constantemente fazendo negaças nos últimos anos por força da idade ou tristeza, talvez ambas; quem canta? Diana Ross and the  supremes…, Jesus!, Estes programas são cruéis, não se devolve assim a uma pessoa a adolescência traída. 

Acorda-a. Vamos, despacha-te. A garota não faz perguntas, conhece as respostas há muito tempo. Ignora os murros na porta e as ameaças apocalípticas para o futuro próximo. Afinal tão parecidos os dois homens da sua não - vida, que remédio se não mudar ela? Sorri à  telefonia e o verso traz -lhe o passado, it’s to late to stop now .Ao sair pensa que há muito não escuta Van Morrison.

Estás bem? A filha com enorme bom senso, tenho sono. Um porto de abrigo, mas provisório, definitivamente provisório, encalhou com  estrépido nos homens mas não tenciona acabar os seus dias em doca seca de família, navegar é preciso, onde pararão  os discos de Chico Buarque? As duas de mãos  dadas, vamos dormir aos avós.

 Braços e velho quarto de solteira abertos, o inevitável " não me quiseste dar ouvidos…" A miúda dormindo tranquila, deixá-la estar . Ainda não sabe como são ferozes as guerras dos adultos quando termina o combate corpo-a-corpo, tribunais, visitas, insinuações, recados; deixá-la estar. "Não nos quiseste dar ouvidos?" Não é bem uma questão de vontade, alguns alertas apenas se escutam quando são as entranhas a grita-los, associação imediata, Betânia no Coliseu para a semana. Quase envergonhada, parece impossível, tudo o que aí vem e ela a pensar num concerto, mas há quanto tempo não fecha os olhos e aperta a mão de alguém no escuro da plateia? Eles nunca… 

Irão as duas. De qualquer modo a adolescência ao virar da esquina, a garota ansiosa por saída noturna que lhe dará estatuto ao espelho e na escola, necessário colecionar recordações para o resto da viagem, não vá a vida tecê-las e recusar -lhe os sonhos… Credo! , pensamento sinistro.

 Irão as duas. Juntas. Com açúcar e com afeto.


publicado por AnnaTree às 16:16
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Segunda-feira, 5 de Novembro de 2018

Estilhacos de Júlio Machado Vaz

Coisas lidas

(...)

 

Marido a mais e admiradores a menos, sufocava- se naquele vazio. 

(...)

A crueldade do destino, a beleza da miúda lembrando as suas de infância e adolescência, o brilho perdido explodindo de novo, mas fora de si. A revolta escondida pelo tédio do quotidiano, horroroso de tão igual ao dos outros que nunca deixaram o rebanho. 

(...)

As flores murcham, mas não consta que se apercebam disso.

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publicado por AnnaTree às 11:14
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Sexta-feira, 2 de Novembro de 2018

Estilhaços de Júlio Machado Vaz

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coisas lidas

(...)

As "solidões acompanhadas", amiúde escondidas durante anos e anos, depois gritadas em discussões de quarto dormir e cozinha ou secamente dirimidas através de cartas dos respetivos advogados, acolheram a Net de braços abertos . Como se …, Esperem!, Roubo de novo a poesia dos Floyd: "We’re just two lost souls swimming in a ficha bowl,year after year" ( somos apenas duas almas perdidas nadando num aquário, ano após ano) . A Rede pesca-nos porque torna mais transparentes os vidros baços do aquário das nossas vidas. Milhões de príncipes e princesas encantados estão ali , ao alcance de um reconfortante anonimato inicial. Quando alguém parece preencher os requisitos, arrisca-se a intimidade absoluta que, contudo, não implica sequer uma festa nos cabelos, a angústia da nudez física, o nó na garganta de um telefonema. Conversa -se teclando. Horas, dias, semanas a fio, por vezes com o marido ou mulher dormindo no quarto ao lado. À chegada a casa procura-se o correio e um simples mail faz acreditar que a vida não é tão rotineira assim, as palavras no ecrã chegam livres de todos os pequenos dramas quotidianos que fazem esmaecer os sentimentos. A Net propicia um caldo de cultura ideal para a paixão, que nunca é por alguém, mas pela  imagem, que construímos na cabeça. A Net permite a intimidade psicológica associada a uma distância física que autoriza  todas as fantasias com o álibi de ausência dos corpos. A Net rega um jardim secreto em que não vagueamos sozinhos, uma realidade fora de uma realidade que não nos satisfaz e gostaríamos de trocar. 

A Net, a Net, a Net..., Culpar a tecnologia é fácil, mas nem sequer  equaciona os problemas, muito menos os resolve.


publicado por AnnaTree às 09:58
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Quinta-feira, 1 de Novembro de 2018

Estilhaços de Júlio Machado Vaz

coisas lidas

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(...)

 as dúvidas sobre envelhecimento , o pânico de se de ver desbotar as relações, a necessidade absoluta de manter uma imagem positiva no emprego. A solidão, que tem o péssimo hábito de ser mais severa quando acompanhada. 

 

 


publicado por AnnaTree às 08:07
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Quarta-feira, 31 de Outubro de 2018

Estilhacos de Júlio Machado Vaz

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Coisas lidas

 

Meu velho, 

cheguei do jantar com uma sensação estranha.Algo avinhado também, o que me preocupa. Não sei o que pensas disso, mas nos últimos tempos, sobretudo depois da morte do Carlos, acho que nos relacionamos com a garrafa de modo diferente. Bom, pelo menos eu. Dou comigo a escolher o vinho antes de decidir o que me apetece trincar , o Whisky já não é uma opção das noites longas de fim-de-semana, passou a sobremesa obrigatória depois do café. Não me impressiona a quantidade, mas a sofreguidão, os primeiros copos não bebo, engulo-os de um trago, como as pastilhas que tomo para combater o pânico de voar.

 


publicado por AnnaTree às 09:31
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Terça-feira, 30 de Outubro de 2018

Estilhaços de Júlio Machado Vaz

coisas lidas

 

(...)

 falou do seu homem como de um filho rebelde. Fiquei a saber que conhecia as maroteiras, apenas não pudera tomar conhecimento oficial delas porque não desejava partir. Nunca a julguei por isso, penso que pesou prós e contras e decidiu ficar, a minha profissão ensinou-me que os princípios mais rígidos podem ceder quando o outro nos aquece o coração. 

 

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publicado por AnnaTree às 09:40
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Segunda-feira, 29 de Outubro de 2018

Estilhaços de Júlio Machado Vaz

Coisas lidas

 

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Meu pai não teve sorte, os últimos dois anos foram terríveis. Quando me confidenciou, pela primeira e última vez, que estava muito fatigado, percebi que se despedia e poupei-nos a banalidade de mau gosto. Segura-lhe a mão, tarde e a más horas, com mais de 30 anos de atraso. Ainda e sempre desencontrados, apagou-se na minha ausência, poucos minutos antes de eu chegar. Essa pequena distância de espaço e tempo resumiu nossa vida. 

(...)

Oito meses volvidos , estamos juntos como nunca estivemos. O silêncio mantém-se, mas não a distância, levo-o ao colo dos neurónios para todo lado. O avô que ele, neto favorito, venerava, escreveu um dia que só quando a nossa mãe morre abandonamos verdadeiramente a infância .

Não deixarei morrer nada do que fui dentro de mim, preciso desesperadamente da memória para seguir em frente.

 

 

 


publicado por AnnaTree às 15:12
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Sexta-feira, 26 de Outubro de 2018

Estilhaços de Júlio Machado Vaz

Coisas lidas

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(...)

 o pai abomina a cadeira de rodas apesar da fissura óssea e sente-se humilhado pelos negássas da memória. Sobreviver à autonomia física e a uma agilidade mental que sempre constituiu o núcleo do seu amor próprio parece-lhe, creio, obsceno. Estou de acordo. 

(...)

aceito-lhe o pudor, o medo de ser recordado em tons  baços e não de sorriso aberto , cigarro e humor em riste, discurso florentino , histórias assegurando a lenda familiar. Compreendo- o, também não gostaria de sobreviver a mim próprio. 

(...)

A vida em abstrato não existe, “apenas” vidas humanas. E o respeito por essas, por nós, que delas somos garantes e fazedores, quem o deve decidir à revelia da nossa dignidade? Não basta garantir o controlo da dor física que atormenta alguém, muito menos rotular de sintoma psiquiátrico ou cobardia o que flui de lucidez diversa da nossa. Respeitar o outro, alguns dos outros, passa por aceitar que considerem a morte como parte integrante do seu projecto de vida e não a simples linha isoelétrica em visores de máquinas sem vontade própria, mas capazes de impedir o corpo de seguir alma. Esses, com razão ou sem ela aos nossos olhos, podem sentir um dia que chegou a hora de partir, antes de se tornarem caricaturas de quem foram. Discutir se a sociedade os deve ajudar em situação de impotência é seguramente necessário e angustiante, mas soterra-los sob a anátema de não respeitarem a vida que acarretam e construíram é de uma arrogância atroz. 

 

 


publicado por AnnaTree às 10:15
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