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Arvore De Letras

Coisas lidas,ouvidas,cantadas, declamadas,faladas,escritas

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22
Abr09

chega-te a mim e deixa-te estar de Eduardo Sá

AnnaTree

1. Não é verdade que as pessoas da família marquem presença constante nos retratos. Nem que gostem de nós ou nos conheçam (porque compartilhamos os pais ou o sangue que aproximou as nossas vidas). Sempre que nos desconhecem, ou se afligem quando estamos aflitos, ou se intrigam (como se lhes faltasse o mapa do tesouro para chegarem a nós), fazem-nos sentir sós e abandonados. E, quando é assim, as pessoas de família podem tornar-se estranhos colados a nós. O que, naturalmente, só nos traz amargura, decepção e, até, rancor.
2. Não é verdade que as pessoas da família nos ancorem sempre á vida e que nos rasguem mais um horizonte no olhar... quando nos olham. Na verdade, as pessoas da família são, também, quem mais nos decepciona e desampara. E, por vezes, são quem nos ensina a aprender deixando de perguntar porquê. E parecem ter perdido, por entre um comboio de gestos, os pequenos nadas que nos dão lume por dentro e nos iluminam. E são, ainda, elas que, de floco em floco, criam a «bola de neve» de coisas por dizer que, um dia, como uma avalancha, há-de resvalar sobre o nosso coração.
3. Muitas vezes, as pessoas de família parecem crianças assustadas. Receiam dizer «gosto de ti», para que isso não nos inebrie. E nem sempre colam o seu peito ao nosso, se aconchegam e nos abraçam, por mais nenhum motivo que não seja para que nos sintam junto a si. Muitas vezes as pessoas da família falam, fluentemente, dos ossos, da gripe, da pedra no rim mas, raramente, dos sonhos que as movem ou das convicções que lhes dão luz. Quando o fazem assim, é como se nos pedissem «tem pena de mim!» e, quase nunca, «gosta de mim!». «Amam-me!», muito menos.
4. Na verdade, o mundo interior não divide as pessoas entre as estranhas e as de família. Mas entre viajantes e os aventureiros, os arquitectos do nosso coração, e os alquimistas. Os viajantes e os aventureiros são pessoas que nos surpreendem de passagem. São como pirilampos que nos dão uma luz e, de seguida, nos desassombram com outra decepção. Os arquitectos do nosso coração rasgam avenidas ou desvendam planaltos, e guiam-nos. Trazem consigo as revoluções tranquilas que acrescentam outro lugar aos pontos cardeais. Os alquimistas desconcertam mais. Abrem persianas na nossa alma, dão-lhe sol e transformam-nos para sempre. (peço-vos que não me perguntem onde fica a alma porque não sei). Mas, como sabem, da jeito imaginar um «lugar ao sul» que defina o mais fundo de nós que não tem definição)
Como se não chegasse, os alquimistas percebem que aquilo que distingue as «boas prendas» dos «presentes» são os laços, e nunca nos perguntam se estamos tristes ou aflitos. Antes nos dizem: «Chega-te a mim...e deixa-te estar»

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