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Arvore De Letras

Coisas lidas,ouvidas,cantadas, declamadas,faladas,escritas

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27
Jan10

A RUA DE PERNAS PARA O AR por Mia couto

AnnaTree

Coisas Lidas

E foi o enormíssimo estrondo. No bairro, todos se inquietaram. Seria a guerra, ali chegada pé ante pé? Seriam os morteiros, mortíferos? No estremunho dos lençóis fazia-se contas á morte.
Juvenal se levantou da cama, encadeou o escuro. A mulher, logo em reparos: ele que deixasse o mundo, ninguém lhes convidara.
- Não vês que há uma situação, mulher?
Ela insistia: nem situação não era. Quando muito aquilo seria um som, desses. Dona Evalinda costurava o marido ao seu medo. A escuridão, hoje em noite, é muito mortal. Mas, o Juvenal nem com isso. A esposa desfolhava o lençol em convite matreiro, lhe prometendo o mais quentinho na cama. Não, ele tinha que ir. Mesmo já cursara os treinos quase militares, desses destinados aos directores. A esposa riu, desdenhosa. O Juvenal, com aquela vasta barriga, chumbara logo nos exercícios de placar. A pança charruava, em agrícolas funções.
- Tenho que ir ver o que se passa.
Evalinda lhe denunciou aquele esboço de valentia. A coragem dele era como os chifres do caracol: só saíam da boca para fora. Mas já Juvenal abrira a porta e rumara os passeios.
Na estrada lhes surgiu, extraordinário, o motivo do estrondo: um camião militar cambalhotado! As rodas ainda giravam, bêbedas. Juvenal deu a volta ao veículo gigante, apreciando o insólito. Parecia um bicho verde-escuro nascido de um grande projecto, uma tartaruga prospectiva-indicativa. Olhou em volta: aquele acidente não tinha aparência. Não havia outra viatura, não havia desses postes do passeio que muito atrapalham a circulação nas estradas.
Juvenal espiou a cabina. O condutor, de cabeça para baixo, ainda remanescia ao volante. Parecia alheio á inversão da paisagem. Estivesse ele morto, suspeitou o residente. Fosse o motorista um mortorista. Mas a farda dele não transparecia uma mancha de sangue. Juvenal bateu no vidro, chamando a atenção do descondutor. Era um tipo cheio de dimensões, a condizer com o camiãozarrao. Tão grande ele era que o uniforme figurava mais ser um unidisforme.
O homem se incomodou, desperto pelos toques na vidraça. Fingiu travar, rodou o volante como se ainda conduzisse. Que era? Como ousara aquele pedestre interromper a sua viagem? O pobre Juvenal logo começou de desculpar-se, tal era a verdade daquele motorista, posto em máxima dignidade, mesmo se de cabeça para baixo. O sinistrado entoou ameaças:
- Não vês que somos um cortejo?
- Um cortejo, pois claro, admitiu o Juvenal. O senhor me seja doador de perdoes, foi a minha esposa que me mandou ver o barulho.
- Que barulho?
Pois, qual barulho? Ilusão de mulher, a Evalinda ela devia de estar a ouvir as suas próprias mexas. Porque aquela noite, tão tranquilinha, só oferecia silêncios. Juvenal rastejava, submissionario
-olha, ali esta ela, de roupão. Vai para dentro, Evalinda, vai que isto aqui esta cheio de cacimbo.
E sorriu-se para o condutor as avessas. Confessou: por momentos, acreditara que aquele camião tivesse virado. Não, calma. Não estou a dizer que está. O que se passa, afinal, é que a rua esta de pernas para o ar. Acontece.
- Estou a pedir guardar o camião.
Juvenal se admirou: de onde vinha aquela voz tão miúda? Olhou, era um molwenwe. O menino vestia-se de rasgões. Vai te daqui, miúdo, suca, não incomoda o cortejo! Vai antes que apanhes.
- Esse é seu filho? – Perguntou o acidentado?
Meu filho? Juvenal se indignou: será que tenho cara de calamitoso? Eu não sou um qualquer, espreite ali a minha fachada residencial, veja a garagem, aquele ele-ele-esse, novinho em página?
- Patrão, estou a pedir guardar o camião.
O motorista, então, saiu do camião. Deu uma cambalhota no ar, sacudiu os ombros, alisou a farda. Juvenal tentou uma simpatia:
- Já o sangue lhe descia na cabeça?
O outro nem ouviu. Inspecionava os vizinhos que, agora, se concentravam no passeio. Falou, com voz patenteada: então vocês não se envergonham, numa altura dessas, em véspera do Congresso, apresentarem uma rua virada ao contrário? Cabisbaixinhos, os moradores se condoíam.
- E agora, por punição, vocês todos vão meter esse camião de cabeça para baixo.
O Juvenal, predispronto, incitou a multidão a ser participassiva:
- Vamos, gente, vamos endireitar o camião.
Endireitar, não, rectificou o motorista. Virar, conforme a alteração da rua. E todos, homens e mulheres, se aplicaram a revirar o gigante de ferro. Concluída a obra, o motorista se meteu no veículo e acelerou fumos. O camião se fez ao escuro.
Os vizinhos, emudecidos, trocavam muito espanto. Nunca ali se juntou tanto sentimento. Os mais velhos suspiravam: pudessem eles reaprender a vida! Foi então que, sobre o silêncio, se fez ouvir o esganiço do menino:
- Patrões, estou pedir guardar a rua.
 

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