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Arvore De Letras

Coisas lidas,ouvidas,cantadas, declamadas,faladas,escritas

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Coisas lidas,ouvidas,cantadas, declamadas,faladas,escritas

18
Mar10

NATUREZA MORTA; FOGO DE ARTIFICIO; DIALOGO AO ENTARDECER

AnnaTree

Coisas Lidas


NATUREZA MORTA
Começou por recuperar á sua maneira, temas clássicos: três pêras e um violino; cachos de uvas junto a livros antigos, daqueles com paginas repletas de símbolos alquímicos; cestos de figos, copos de cristal, flores murchas, um elmo. Depois, aos poucos, foi introduzindo elementos bizarros, combinações grotescas: um cão morto de olhos cosidos, sobre a carcaça de um automóvel, dois pneus a arder dentro de um armário forrado de espelhos; lírios brancos flutuando numa banheira de esmalte cheia de sangue. Passou a viver no atelier, tecendo lentamente a sua loucura. Perdeu os laços com a família, com os amigos, com as galerias. Quando o prenderam, acusado de homicídio na pessoa do amante e modelo, trabalhava na sua «obra-prima».
Quadro gigantesco – seis por cinco metros – inteiramente preenchido pela cabeça degolada do S. João Baptista.

FOGO DE ARTIFICIO

Ele gostava de coincidências. Ela também. Ele acreditava que quando encontrasse a mulher da sua vida, haveria um sinal. Numa noite de festa popular, chocaram um com o outro, perdidos no meio da confusão. Olharam-se nos olhos e pensaram, ao mesmo tempo:
«Nem é preciso haver sinal». Foi nesse instante, nesse preciso instante, que as luzes explodiram no céu.

DIALOGO AO ENTARDECER

Estas a ver aquele bando de estorninhos, ali ao fundo, sobre o Coliseu?
- Sim, sim, coisa espantosa, parece um pássaro feito de pássaros – repara agora, olha bem, a mancha negra a mover-se sobre os telhados de Roma. Primeiro afasta-se, depois aproxima-se, cria formas para logo as desfazer, é como um cardume a voar nas águas do céu. - Pois é, tens razão. Nunca vi nada assim. É um prodígio da natureza. - Lembras-te daquela conversa que tivemos em Florença, na margem do Arno? - Sobre a felicidade? - Sim, sobre a felicidade. - Lembro-me muito bem. Disseste que a felicidade não existe, é uma miragem. Só vale a pena pensar nela se soubermos que nunca a alcançaremos. - Talvez tivesse razão quando disse isso, sabes. Mas agora peço que o esqueças. A felicidade é aquele bando de estorninhos aqueles pássaros abrindo as asas sobre Roma. A felicidade é este crepúsculo, com as suas nuvens douradas e vermelhas, este crepúsculo que nunca mais se repetirá

TITANIC

Quando a noite chegou, com a lua brilhante a subir no horizonte tão escuro, ela tirou do baú os sapatos brancos, algumas jóias. O melhor vestido. Caminhou até ao salão, toda veludo e pérolas. A meio do baile, disse-lhe baixinho ao ouvido: «estou grávida». Ele empalideceu, de repente os vidros embaciaram-se, a orquestra atacou uma última valsa. Já no convés, ela decifrou em cada gesto dele, mais do que nas palavras, os sinais claros da decepção. Compreendeu tudo. O olhar que a seduzira numa rua de Viena – há quantos séculos? - Era agora de uma frieza que só se encontra no coração azul do gelo.

FIM

O escritor – não sabia como concluir as suas histórias. Por isso, numa noite de álcool, insónia e lucidez, decidiu nunca mais correr o riscou pérfido, vicioso – de as começar.

João Mário Silva DNA 2002