Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Arvore De Letras

Coisas lidas,ouvidas,cantadas, declamadas,faladas,escritas

Arvore De Letras

Coisas lidas,ouvidas,cantadas, declamadas,faladas,escritas

29.06.07

Parte IV Conta corrente de Virgílio Ferreira lido em 1995/96


AnnaTree

Coisas lidas

(...)
E de repente reparo que mal tenho falado de mim. Ora. Dizer o quê? Como quem subiu uma montanha e foi parando para desfrutar a paisagem, e chegado ao alto admira largamente, e á tarde desce cansado sem já reparar em nada e deseja chegar mais depressa a casa.
(...)
Demora-te ainda um pouco, demora-te ainda um pouco. Há tanto ainda que ver que pensar, que admirar... Mesmo no último instante, abre ainda os olhos – e vê. A vida é tão espantosa. Não terás tempo de a saber. Demora-te ainda um pouco. Há muito ainda que amar.
(...)
Morrer por inteiro – quem o merece?
Morre-se sempre todo -excepto o que fica nos filhos, na gloria que se espera, na reputação que nos fica num vizinho, num conhecido da esquina que nos dava os bons dias, numa porcaria qualquer que nos iluda da eternidade!
(...)
Da cinta para baixo nenhuma mulher envelhece. É justamente da cinta para baixo que mais envelhece o homem.

27.06.07

Parte III Conta corrente de Virgílio Ferreira lido em 1995/96


AnnaTree

Coisas lidas

(...)
No nosso tempo a gente remetia o gozo para um futuro invisível. Visível era só o marranço a falta de dinheiro para o tabaco, o namoro por carta. Agora não. Agora quanto a namoro começa logo pela cama para as primeiras impressões. E o resto, nós que gamemos a estucha, e sobretudo que implantemos o jovem no seu lugar de direito que é onde se possa ganhar muito e não trabalhar demasiado para não tirar tempo ao gozo que há-de vir do ganhar.
(...)
É mais fácil quando se é estalinista, mudar-se para o fascismo do que para a democracia.
(...)
Não, não quero saber mais, já sei tudo o que me chegue para encher a vida.
O mais que viesse, que é que me ensinava?
(...)
Estou cansado é a verdade que tenho, definitiva e insubstituível.
Acumulei o que pude da verdade dos séculos.
(...)
Agora, não. Agora quero é estar só, entretido com o que se passa, olhar mas sem ver muito, que tenho a vista cansada e ouvir o rumor do que passa, mas distraidamente, que ouço mal do ouvido esquerdo. Não há que ver nem ouvir, há apenas ir estando.
(...)
Não! Saber mais não me interessa. Dêem-me apenas um livro, pequeno, resumido, que não há tempo e tenho pressa, um livro breve, mas em que se aprenda a morte, essa matéria tão difícil de aprender. E é quanto basta para ser homem.

25.06.07

Parte II Conta corrente de Virgílio Ferreira lido em 1995/96


AnnaTree

Coisas lidas

(...)
Quando se dão dois beijos é sinal de amizade; quando se tem amor, dá-se só um. O amor é exclusivista ou concentrionário.
(...)
De noite caiu uma carga de água. Ouvia-a no quente da cama com o prazer imaginativo de poder estar a apanhar chuva – e não estar.
(...)
O medo de se ser livre cria o orgulho de se ser escravo.
(...)
O Jogo do amor é um jogo de forças. Quanto mais se ama mais fraco se é.
(...)
Deslumbra-me um grande palácio. Mas eu prefiro viver numa casa pequena.
(...)
As nossas relações nunca se estabelecem com “ eu “ dos outros, mas com o que está para cá dele – a simpatia, o humor, a prestabilidade e o mais. Ou o inverso. Todas as nossas relações se referem a segunda (ou terceira) camada de nós. Nós nunca podemos amar alguém por ela própria, mas por aquilo que o manifesta; as qualidades que tem. Há só uma situação em que tentamos atingir o “eu” é quando fazemos amor.
(...)
Com o frisson que o meu acidente provocou nos meus amigos, a minha obrigação era ter morrido. Assim devem sentir-se frustrados.
(...)
Pode amar-se uma mulher feia, mas só se admira, como mulher, uma mulher bela...
(...)
A modéstia, por exemplo, é normalmente uma prova de imenso orgulho.
(...)
O suicídio mostra coragem em enfrentar a dureza da morte ou cobardia em fugir a dureza da vida?
(...)
O problema da morte, não sendo problema para o adolescente, é-o para o adulto, porque então a morte está diante dele. Mas na velhice ela está em nós. E o único sitio onde se não vê uma coisa é essa coisa.
(...)
Toda a gente constrói uma pessoa artificial de si e é com ela que se estabelecem todas as relações.
Quem identificasse uma pessoa artificial com a natural seria um monstro. Ela não caberia sequer numa cadeia, nem talvez num manicómio. Só seríamos verdadeiramente nós num cemitério. Mas aí não estamos nós, mas uma porção de estrume.
(...)
Para se ver bem seja o que for, é preciso fechar os olhos.

22.06.07

Parte I Conta corrente de Virgílio Ferreira lido em 1995/96


AnnaTree

Coisas lidas


Que estranha esta predisposição para me sentir culpado. De quê? Não sei. Deve ser esse sentimento que me leva ao “ moi haissable” sentirmo-nos satisfeitos em uma parte de nós, ao menos com aquela que os outros nos estimam e devia por isso ser estimável. Culpado de existir.
(...)
Aqui estou eu diante do fogão e da memória. Sinto, todavia, cada vez mais o vou sentindo que a memória se retrai se reduz perde a extensão do indizível para lá do que se recordo. Assim, com a redução do futuro, a vida se restringe a punctualidade do presente. É um presente frio, neutro, materializado no puro acontecer olho o lume do fogão, ouço o rumor das suas chamas. E tudo em mim fica indiferente mesmo a essa indiferença. A amargura e todas as grandes convulsões da alma são uma variante da felicidade. Esgotada esta por inteiro, nada acontece e apenas se está.
(...)
O silêncio não assimilado faz sempre imenso barulho.

20.06.07

gracias a la vida que me ha dado tanto


AnnaTree

A prima e poetiza Ana Briz fez este poema para minha neta Carolina.
Na realidade não me posso queixar da minha vida. O que a vida me tira com uma mão, logo me dá com outra.
A minha mãe foi raiz em Maio de 2006 e em Maio de 2007 a carolina fez-se flor

e foi entre...

... e por entre a mágoa de um AMOR AUSENTE veios de ternura brotaram contentes num cordão de vida que me foi prendendo


Então a Benção chegou no teu sorriso
e o momento foi tão belo e impreciso
que a noite suspirou...AMANHECENDO.

18.06.07

La chanson d'hélène


AnnaTree

La chanson d'hélène



Ce soir nous sommes septembre et j'ai fermé ma chambre
Le soleil n'y entrera plus
Tu ne m'aimes plus
Là-haut un oiseau passe comme une dédicace
Dans le ciel

{Parlé:}
Je t'aimais tant Hélène
Il faut se quitter
Les avions partiront sans nous
Je ne sais plus t'aimer Hélène

Avant dans la maison j'aimais quand nous vivions
Comme un dessin d'enfant
Tu ne m'aimes plus
Je regarde le soir tomber dans les miroirs
C'est la vie

{Parlé:}
C'est mieux ainsi Hélène
C'était l'amour sans amitié Il va falloir changer de mémoire
Je ne t'écrirai plus Hélène

L'histoire n'est plus à suivre et j'ai fermé le livre
Le soleil n'y entrera plus
Tu ne m'aimes plus

15.06.07

parte IV Conto Guy de Maupassant


AnnaTree

Coisas lidas...


Contemplava-a desvairado. Depois tomei-lhe a mão; as lágrimas borbulhavam-me nos olhos. Chorava a sua mocidade, pranteava a sua morte porque não a conhecia mais! - Naquela anafada e nutrida senhora que ali tinha diante de mim.
Ela comovida também balbuciou:
- Acha-me muito mudada, não é assim?
E depois com um suspiro triste:
- Que quer! Tudo passa. Como vê tornei-me mãe. Nada mais do que mãe. Boa mãe e boa dona de casa. O resto adeus, acabou-se. Oh! Bem pensava que não me reconheceria, se nos tornássemos a encontrar. O senhor também está bastante mudado. Analisei-o muito tempo antes de lhe falar, para não me enganar.
(....) olhei para a criança. Encontrei nela alguma coisa do antigo encanto da mãe (...) e a vida apareceu-me pela primeira vez rápida como um comboio que passa com toda a velocidade.
Chegamos a Maison Lafitte. Beijei a mão da minha velha amiga. Nada achei para lhe dizer, prenunciei apenas algumas banalidades palavras imbecis. Não podia falar. O choque fora rude demais. Á noite, sozinho, no meu quarto pus-me a mirar-me bastante tempo ao espelho. Levei nisso mesmo muito tempo. E acabei por me recordar do que tinha sido, revendo no pensamento o meu bigode castanho escuro, os meus cabelos pretos, a fisionomia fresca e o ar prazenteiro. Agora, meu caro, estou velho, positivamente velho, mesmo muito velho. Adeus!

13.06.07

parte III Conto Guy de Maupassant


AnnaTree

Coisas lidas...


(...) durou isto três meses. Depois parti para a América, o coração esmagado de desespero. Mas a sua recordação ficou em mim. Possuía-me de longe como me possuía de perto. Passaram-se anos. Não a esquecia não a podia esquecer. (...) Parecia-me realmente que alguns meses apenas me separavam da encantadora estação balnear de Etart.
Na Primavera ultima fui jantar a Maison Lafitte, a casa de uns amigos. No momento em que o trem partia, uma dama bastante nutrida subiu para o meu wagon, acompanhada de quatro meninas. Relanceei o olhar para essa mãe galinha, muito larga, muito redonda, cujas as faces de lua cheia estavam emolduradas num chapéu de estação, com muitas flores e fitas de mau gosto. Respirava fortemente fatigada de ter marchado depressa. As crianças essas eram encantadoras! Abri o jornal do dia e pus-me a ler.
Acabávamos de passar a estação d'Asnieres quando a minha companheira de jornada me disse á queima-roupa:
Peço desculpa, não é o Sr. Carnier que tenho a honra de falar?
- Sim, minha senhora
E então ela desatou a rir, mas o riso contente, o largo riso de uma honesta e simples mulher, contudo um pouco triste.
- Não me reconhece?
Hesitava. Parecia-me com efeito ter visto algures aquela cara. Mas onde? Quando?
- sim... e não...conheço-a certamente minha senhora, mas sem poder lembrar-me do seu nome.
Ela fez-se um pouco vermelha
- Madame Júlia Lefréve
Nunca recebi um golpe semelhante. Pareceu-me que naquele segundo tudo acabara para mm. Senti unicamente que se rasgara um véu a meus olhos e que ia descobrir coisas horrorosas, desoladoras, cheias de uma tristeza amarga.
Era essa, gorda mulher tão burguesa, tão comum, ela! E tivera uma postura de quatro rapariguinhas desde que a deixei de ver. E esses pequeninos seres amados espantavam-me tanto como a própria mamã. Saiam dela; eram já crescidos, tinham o seu lugar á mesa da existência. E a mãe, a mãe não era já o que foi, uma flor coquete e fina, uma maravilha de graça e encanto. Vi-a ontem parecia-me até e hoje encontrava – a assim era pois possível? Uma dor violenta, funda, apertava-me o coração e também a revolta contra a própria natureza – uma indignação irreflectida, contra essa obra brutal, infame de destruição.

11.06.07

parte II Conto Guy de Maupassant


AnnaTree

Coisas lidas...

Conto
A revelação da minha decadência apareceu-me de maneira mais simples e terrível, trazendo-me assustado mais de seis meses!
Andei frequentes vezes mais ou menos apaixonado como todos os homens, mais principalmente de uma vez.
Encontrei-a á beira-mar, em Etrat. Está a fazer agora justamente 12 anos.
(...) a turba das mulheres junta-se ali em massa (...) sentamo-nos nos rebordos dos penhascos e contemplamos as banhistas (...) a primeira vez que vi essa jovem mulher, fiquei extático, enamorado, seduzido! (...) depois há figuras cujo encontro entra em nós bruscamente, invadindo-nos de tudo e de súbito, como um relâmpago. Parece que se encontra a mulher para a qual nascemos para amar. Eu tive essa sensação e esse abalo.
Fiz-me apresentar e fiquei desde logo preso, preso como nunca estive na minha vida! É uma coisa espantosamente deliciosa sofrer o jugo duma mulher (...) os menores movimentos das suas feições deliciavam-me, transtornavam-me, enlouqueciam-me (...)
Era casada, mas o marido vinha quasi todos os sábados, e retirava-se nas segundas-feiras. Como a amava! E como era bela e graciosa e jovem (...)

08.06.07

parte I Conto Guy de Maupassant


AnnaTree

Coisas lidas...


Os dois amigos acabavam de jantar. Da janela do café contemplavam o Boulevard repleto de gente (...)
Um, dois, Henrique Simon suspirou profundamente:
- Ah! Envelheço, meu rapaz! É triste. Noutro tempos, por noites como estas e como se tivesse o demónio no corpo. Hoje unicamente o que sinto, é saudade. Vai depressa a vida!
Henrique estava já um pouco gordo, pesavam-lhe demasiadamente os 75 anos. E depois, a sua grande calva ainda o envelhecia mais.
O outro, Pedro, um quasi nada mais idoso, mais magro e mais vivo, replicou:
- Eu, meu caro, tenho envelhecido sem perceber a menor coisa. Fui sempre rapaz, sempre alegre e sempre vigoroso. Ora como a gente se vê todos os dias ao espelho, não vê o trabalho da idade a completar-se. É um trabalhinho lento e regular, o que queres tu? A gente nem sente...
É unicamente por isso que não morremos de desgosto, ao cabo de dois ou três anos destas malditas devastações (...) e as mulheres meu caro Henrique, como eu lastimo essas pobres criaturas! Todo o seu poder e toda a sua felicidade estão na sua beleza que dura o muito, o muito dez anos (...)
Continua....

Pág. 1/2