Quarta-feira, 29 de Agosto de 2007

Parte IVXX Conta corrente e in 'Invocação ao Meu Corpo''de Virgílio Ferreira

Coisas lidas (e postadas a duas mãos)


Não te queixes. Recolhe em ti a amargura, não a disperses, não a esbanjes com os outros. Ela é tua, nasceu em ti, da tua miséria, pertence-te como os ossos e as vísceras. Concentra-te nela, absorve-a. Faz dela a tua grandeza. Porque só se é grande pelo sofrimento não pela futilidade do prazer. As pedras não sofrem. Cristo esteve «triste até á morte». Tem desprezo pelos humanos felizes porque dos homens felizes «não reza a história» . Só a dor pode medir o teu tamanho de excepção, só ela pode medir o que tu vales. O sofrimento medíocre não dá mais do que a comédia, mas a grandeza da tragédia só pode atribuir-se aos grandes. Não te aconselho a que vás ao encontro da amargura, mas se ela vier ter contigo acolhe-a com serenidade. Não sucumbas aos seus golpes, aguenta-os até onde puderes. E se és homem de verdade, tu a aguentarás.
Postado por Anna Tree

Uma verdade só o é quando sentida - não quando apenas entendida. Ficamos gratos a quem no-la demonstra para nos justificarmos como humanos perante os outros homens e entre eles nós mesmos. Mas a força dessa verdade está na força irrecusável com que nos afirmamos quem somos antes de sabermos porquê.
Assim nos é necessário estabelecer a diferença entre o que em nós é centrífugo e o que apenas é centrípeto. Nós somos centrifugamente pela irrupção inexorável de nós com tudo o que reconhecido ou não - e de que serve reconhecê-lo ou não? - como centripetamente provindo de fora, se nos recriou dentro no modo absoluto e original de se ser.
Só assim entenderemos que da «discussão» quase nunca nasça a «luz», porque a luz que nascer é normalmente a de duas pedras que se chocam. Da discussão não nasce a luz, porque a luz a nascer seria a que iluminasse a obscuridade de nós, a profundeza das nossas sombras profundas.
Decerto uma ideia que nos semeiem pode germinar e por isso as ideias é necessário que no-las semeiem. Mas a sua fertilidade não está na nossa mão ou na estrita qualidade da ideia semeada, porque o que somos profundamente só se altera quando isso que somos o quer - e não quando nós o deliberamos. Assim nasce um desencontro quantas vezes entre a mecânica dos nossos raciocínios e a verdade que em nós já é morta. No hábito dos gestos, as mãos tecem ainda na exterioridade de nós a plausibilidade do que em nós já não é plausível. Então nos é necessário substituirmos toda a aparelhagem de que nos serviríamos e já não serve. Surpresos olhamos quem fomos porque já nos não reconhecemos.
Atónitos perguntamos como foi possível?, quando, onde, porquê?, ao espanto da nossa transfiguração, ao incrível da cilada que nós próprios nos armámos, mesmo quando foi a vida que a armou; porque tudo quanto é da vida, e dos outros, e dos mil acontecimentos que quisermos, só existe eficaz e real quando abre em evidência na profundidade de nós. Como aceitar assim a força da razão, se a força dela está onde ela não está?

Vergílio Ferreira, in 'Invocação ao Meu Corpo' postado oprincipal

Dicionário:
centrípeto que se dirige para o centro;que procura aproximar-se do centro.


sinto-me: nos jacarandás a florirem
música: the queen is dead smiths

publicado por AnnaTree às 11:06
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Segunda-feira, 27 de Agosto de 2007

Parte XXIII Conta corrente e in 'Para Sempre'de Virgílio Ferreira

Coisas lidas (e postadas a duas mãos)

Uma palavra. Disse-a. Amo-te - uma palavra breve. Quantos milhões de palavras eu disse durante a vida. E ouvi. E pensei. Tudo se desfez. Palavras sem inteira significação em si, o professor devia ter razão. Palavras que remetiam umas para as outras e se encostavam umas às outras para se aguentarem na sua rede aérea de sons. Mas houve uma palavra - meu Deus. Uma palavra que eu disse e repercutiu em ti, palavra cheia, quente de sangue, palavra vinda das vísceras, da minha vida inteira, do universo que nela se conglomerava, palavra total. Todas as outras palavras estavam a mais e dispensavam-se e eram uma articulação ridícula de sons e mobilizavam apenas a parte mecânica de mim, a parte frágil e vã. Palavra absoluta no entendimento profundo do meu olhar no teu, palavra infinita como o verbo divino. Recordo-a agora - onde está? Como se desfez? Ou não desfez mas se alterou e resfriou e absorveu apenas a fracção de mim onde estava a ternura triste, o conforto humilde, a compaixão. Não haverá então uma palavra que perdure e me exprima todo para a vida inteira? E não deixe de mim um recanto oculto que não venha à sua chamada e vibre nela desde os mais finos filamentos de si? Uma palavra. Recupero-a agora na minha imaginação doente. Amo-te. Na intimidade exclusiva e ciumenta do nosso olhar mútuo e encantado. Fecha-nos o lençol na claridade difusa do amanhecer, estás perto de mim no intocável da tua doçura. Frágil de névoa. Fímbria de sorriso e de receio, de pavor, no meu olhar embevecido. Uma palavra. A primeira que em toda a minha vida me esgotou o ser. A que foi tão completa e absorvente, que tudo o mais foi um excesso na criação. Deus esgotou em mim, na minha boca, todo o prodígio do seu poder. Ao princípio era a palavra. Eu a soube. E nada mais houve depois dela. Vergílio Ferreira, in 'Para Sempre'
Continuando com o Vergilio...postado oprincipal


Assume-te na tua limitação. E sê feliz ai e tenaz como a erva. Nas fendas mais imprevisíveis das pedras de um passeio, uma semente insere-se e rebenta um talo verde. Milhentos pés a esmagam, ela aproveita todos os intervalos para se pôr de novo em pé. O seu destino era o campo, mas qualquer hipótese na cidade é bastante.(...) assume-te e sê contente.
Anna tree

sinto-me: portista!
música: billy holiday becouse

publicado por AnnaTree às 10:25
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Sexta-feira, 24 de Agosto de 2007

Parte XXII Conta corrente e estrela polar de Virgílio Ferreira

Coisas lidas (e postadas a duas mãos)


Não acreditar já numa verdade, mas continuar a defende-la. A isto chama-se firmeza de caracter.
Anna tree


Quando se faz uma pergunta dissemos já que nos interessamos por uma determinada questão, limitamos já o campo da resposta. Que eu te pergunte, disseste-me tu, «está frio?», e nada se poderá dizer senão referente ao frio. Não se poderá responder por exemplo que a arte é bela ou que a Terra é redonda. É por isso que é suspeito para um ateu que se pergunte se Deus existe; como seria ofensivo perguntar-se a alguém se a mulher o atraiçoa... Mesmo que a resposta dissesse «não», a pergunta, só por si, já de algum modo tinha dito «sim».

Vergílio Ferreira, in 'Estrela Polar'
oprincipal

música: Placebo - Slave To The Wage

publicado por AnnaTree às 10:02
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Quarta-feira, 22 de Agosto de 2007

Parte XXI Conta corrente de Virgílio Ferreira

Coisas lidas
(...)
Atirado para o fundo de uma forte depressão. Tento segurar-me ás bordas do sorvedouro, a uma distância razoável de mim mesmo, olhar-me, entender-me. É o máximo que me é possível para suster o afundamento.
(...)
Há, sobretudo um «para quê» que não chega a formular-se, porque a resposta da inutilidade está antes da formulação. O único sentimento que se esboça em nós para além da piedade por nós e o assumo da lágrima que não há senão na sua ameaça, para descomprimir a depressão e salvar alguma coisa do desastre que é a nossa pessoa por quem temos piedade.
(...)
Estou hoje verdadeiramente em baixo. Procuro todas as razões que devia haver para não estar assim. Mas todas elas se me afiguram ridículas e infantis. Seguro-me como posso neste enfrentar o caso pela escrita sobre ele que o descole um pouco de mim. Faço o que posso não me chamam vendicista. Tenho ainda a coragem para dize-lo e, portanto não sê-lo já não é mau.

música: I remember Damien rice

publicado por AnnaTree às 10:44
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Segunda-feira, 20 de Agosto de 2007

Parte XX Conta corrente de Virgílio Ferreira

Coisas lidas

O mundo gosta de ser aldrabado
(...)
A agilidade mental é a reação pronta do pensar da resposta, ora acontece que muitas vezes, quem é profundamente inteligente, é pouco rápido a reagir. Não me considero muito estúpido e sou vagoroso a reagir. Sabe-o Deus e sei-o eu quantas vezes engoli muitos vexames por não ter respostas prontas. A “response de l’escalier” do dito francês, é isso: é na escada, quando já fora de lance, que a resposta apropriada nos surge. A inteligência e a prontidão não coabitam normalmente no mesmo indivíduo, como coexistem a lentidão e a ingenuidade. São Tomás, como sabemos, não era estúpido. Um dia um frade disse-lhe: «vem ver um boi a voar». E ele foi. E o que viu foi o camarada a rir da sua angelidade. O bom do São Tomás lá se safou, mas foi com uma admoestação moral: admirava-se menos de ver um boi voar do que um frade mentir. Ora bem, o que é vulgar não é a inteligência a ser rápida, mas a esperteza. A esperteza é uma inteligência a meia dose, sendo a outra meia preenchida pela astúcia, a habilidade de, a artimanha. E aí, decerto, a rapidez colabora. Aliás, isto da inteligência e racionalidade e memória e outras faculdades do espírito são extremamente variáveis e especializadas, consoante a situação em que funcionam (...) diferentes tipos de memória como de inteligência há tipos de razão funcional de grande capacidade, mas de inteligência e subtileza pouco evidente.
(...)
Duas palavras sobre o «esperto». Ele é um falso inteligente com finalidades practicas e imediatas. Ele é um habilidoso, um estratega, um calculista, um aldrabão. E a sua fertilidade é apenas a do triunfo circunstancial para ir vivendo em brilho de lantejoula.
Há espertos no próprio domínio da inteligência e do saber, porque até no inferno ou no paraíso os hábeis e os intrujões. Mas o seu domínio privilegiado é o das relações sociais-desde a alta sociedade a do vigarista do vigésimo.

música: kayleigh marillion

publicado por AnnaTree às 10:31
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Quinta-feira, 16 de Agosto de 2007

Parte XIX Conta corrente e escrever de Virgílio Ferreira

Coisas lidas (a duas mãos)


Que fantástica desproporção entre um corpo de miséria e o extraordinário do que ele produz ás vezes em ideias e obras de arte geniais. Para o medirmos não é preciso imaginarmos esse corpo em degradação em disformidade e purulência. Basta pensarmos numa «guarnica» ou no «velho rei» e no que foram os seus autores pela manhã na retrete.

anna tree



Porque é que a TV foi essa «caixinha que revolucionou o mundo»? Faço a pergunta e as respostas vêm em turbilhão. Fez de tudo um espectáculo, fez do longe o mais perto, promoveu o analfabetismo e o atraso mental. De um modo geral, desnaturou o homem. E sobretudo miniturizou-o, fazendo de tudo um pormenor, isturado ao quotidiano doméstico. Porque mesmo um filme ou peça de teatro ou até um espectáculo desportivo perdem a grandeza e metafísica de um largo espaço de uma comunidade humana.
Já um acto religioso é muito diferente ao ar livre ou no interior de uma catedral. Mas a TV é algo de minúsculo e trivial como o sofá donde a presenciamos. Diremos assim e em resumo que a TV é um instrumento redutor. Porque tudo o que passa por lá chega até nós diminuído e desvalorizado no que lhe é essencial. E a maior razão disso não está nas reduzidas dimensões do ecrã, mas no facto de a «caixa revolucionadora» ser um objecto entre os objectos de uma sala.
Mas por sobre todos os males que nos infligiu, ergue-se o da promoção do analfabetismo. Ser é um acto difícil e olhar o boneco não dá trabalho nenhum. Ler exige a colaboração da memória, do entendimento e da imaginação.
A TV dispensa tudo. Uma simples frase como «o homem subiu a escada» exige a decifração de cada palavra, a relação das anteriores até se ler a última e a figuração do seu sentido e imagem correspondente. Mas na TV dá-se tudo de uma vez sem nós termos de trabalhar. Mas cada nossa faculdade, posta em desuso, chega ao desuso maior que é deixar de existir. Mas ser homem simplesmente é muito trabalhoso. E o mais cómodo é ser suíno... "

Vergílio Ferreira, in 'Escrever'  oprincipal

 

música: mozart piano sonata5g maior

publicado por AnnaTree às 09:59
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Segunda-feira, 13 de Agosto de 2007

Parte XVIII Conta corrente e pensar de Virgílio Ferreira

Coisas lidas (a duas mãos)

 

(...) Quem me dera ser um pobre de espírito, mesmo que não fosse ao paraíso. Mas pobre de espírito estou – o sendo já no estar apenas a desejá-lo. E ao paraíso, por essa via é que com certeza não vou.

anna tree


Senta-te diante da folha de papel e escreve. Escrever o quê? Não perguntes. Os crentes têm as suas horas de orar, mesmo não estando inclinados para isso. Concentram-se, fazem um esforço de contensão beata e lá conseguem. Esperam a graça e às vezes ela vem. Escrever é orar sem um deus para a oração. Porque o poder da divindade não passa apenas pela crença e é aí apenas uma modalidade de a fazer existir. Ela existe para os que não crêem, como expressão do sagrado sem divindade que a preencha. Como é que outros escrevem em agnosticismo da sensibilidade? Decerto eles o fazem sendo crentes como os crentes pelo acto extremo de o manifestarem. Eles captarão assim o poder da transfiguração e do incognoscível na execução fria do acto em que isso deveria ser. Escreve e não perguntes. Escreve para te doeres disso, de não saberes. E já houve resposta bastante.

Vergílio Ferreira, in "Pensar" 
  o principal

 

música: suzanne leonard cohen

publicado por AnnaTree às 01:44
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Quinta-feira, 9 de Agosto de 2007

Intervalo para a poesia decretado por o leitor oprincipal

Coisas lidas (a duas mãos)

"Deixei pousar minha boca em tua fronte
toquei-te a pele como se fosses harpa
escorreguei em teu ventre como o vento
e atravessei-te em mim como se fosse farpa

Deixei crescer uma vontade devagar
deixei crescer no peito um infinito
morri da morte lenta do desejo
e em cada beijo abafei um grito

Quando desfolho o livro velho da memória
sinto que o tempo passado à tua beira
é um espaço bom que há na minha história
e foi bonito ter dito companheira

Inventei mil paisagens no teu peito
rebentei de loucura e fantasia
quando me olhavas devagar com esse jeito
e eu descobri tanta coisa que não vias

Havia em ti uma forma grande de incerteza
que conseguias converter em alegria
havia em ti um mar salgado de beleza
que me faz sentir saudades em cada dia

Quando desfolho o livro velho da memória
sinto que o tempo passado à tua beira
é um espaço bom que há na minha história
e foi bonito ter dito companheira"
Pedro barroso posta por oprincipal


Morri numa quinta-feira por volta da hora do almoço.
Senti o coração explodir em tantos pedaços, que era impossível juntá-los.
Não foi uma morte súbita e inesperada,
A agonia foi lenta, dolorosa, cansativa.
Tão cansativa que o coração explodiu.
Morri relativamente cedo, relativamente nova, relativamente…
Nessa mesma noite convidaram-me para beber um café e aceitei,
Mesmo tendo já morrido, mesmo tendo já partido.
E bebi o café e olhei em volta e a maioria das pessoas era como eu,
Ou, para ser precisa e exacta, tinha-me tornado igual à maioria.
E dizia as palavras que diziam, e ria quando riam, e fingia uma alegria ou uma tristeza que não sentia.
Fixei a data da minha morte porque tudo passou a ser Presente.
O tempo dividiu-se em dois, Passado e Presente,
E esqueci como se conjuga o Futuro.
Todos os acontecimentos passaram a ser irrelevantes, irrisórios, insignificantes.
O passado deixou de me assombrar, como até aí tinha acontecido,
E fiquei em paz.
E comecei a descansar.
Deixei de ter expectativas, objectivos, ilusões.
Aliás, todos os meus objectivos, até aí, foram ilusões,
Ilusões porque inalcançáveis, intangíveis, grandes demais.
Tinha caminhado com os olhos postos no céu,
E tropecei em todos os obstáculos possíveis,
E caí em todas as ratoeiras que a vida armadilhou.
E por isso morri relativamente cedo, relativamente nova, relativamente…
Hoje, nem levanto os olhos, nem sequer me levanto.
Passei só a descansar.
Deixei de ler, deixei de ouvir musica, deixei de ter curiosidade, deixei de procurar…
Deixei de me interessar,
Como acontece com a maioria das pessoas que conheço, ou conheci.
É confortável e pacifico este estado vegetativo,
E definitivamente, nada cansativo.
Como convém e se espera de quem morreu,
Descanso em paz.
http://eroticidades.blogspot.com/
annatree
música: 33 versos a mi muerte

publicado por AnnaTree às 10:51
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Terça-feira, 7 de Agosto de 2007

Parte XVII Conta corrente + estrela polar de Virgílio Ferreira

Coisas lidas (a duas mãos)

 Amar é reconhecer nos outros um ser misterioso, e não um objecto - tu eras uma vibração à tua volta, não a estreita presença de um corpo. Aqueles que não amamos nem odiamos são nítidos como uma pedra. Sentir neles uma pessoa é começar a amar ou a odiá-los. Só amamos ou odiamos quem é vivo para nós. («Nunca amaste ninguém...»). Vergílio Ferreira, in 'Estrela Polar' O principal


Nas margens da estrada e no meio dos campos visíveis havia maciços rubros de papoilas manchas amarelas de malmequeres. De um eucalipto novo colhe um ramo que esmaguei na mão algumas folhas para o seu perfume para me penetrar. Dei o ramo á Regina, ela aspirou-lhe também o perfume. Quase nada dizíamos porque a beleza de tudo era mais forte e falava mais alto não nos deixando falar a nós. Á volta colhemos algumas papoilas e malmequeres. -Murcham logo dizia-me J... Eu sabia. Mas era excitante pensar que podíamos ter connosco por mais algum tempo a beleza que sem ser vista se desperdiçava.

sinto-me:

publicado por AnnaTree às 10:21
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Domingo, 5 de Agosto de 2007

Parte XVIConta corrente de Virgílio Ferreira

Coisas lidas (e postadas oprincipal)

A pessoa que sou é única, limitada a um nascer e a um morrer, presente a si mesma e que só à sua face é verdadeira, é autêntica, decide em verdade a autenticidade de tudo quanto realizar. Assim a sua solidão, que persiste sempre talvez como pano de fundo em toda a comunicação, em toda a comunhão, não é 'isolamento'. Porque o isolamento implica um corte com os outros; a solidão implica apenas que toda a voz que a exprima não é puramente uma voz da rua, mas uma voz que ressoa no silêncio final, uma voz que fala do mais fundo de si, que está certa entre os homens como em face do homem só. O isolamento corta com os homens: a solidão não corta com o homem. A voz da solidão difere da voz fácil da fraternidade fácil em ser mais profunda e em estar prevenida.


Nós vivemos da nossa vida um fragmento tão breve. Não é da vida geral - é da nossa. É em primeiro lugar a restrita porção do que em cada elemento haveria para viver. Porque em cada um desses elementos há a intensidade com o que poderíamos viver, a profundeza, as ramificações. Nós vivemos à superfície de tudo na parte deslizante, a que é facilidade e fuga. O resto prende-se irremediavelmente ao escuro do esquecimento e distracção. Mas há sobretudo a zona incomensurável dos possíveis que não poderemos viver. Porque em cada instante, a cada opção que fazemos, a cada opção que faz o destino por nós, correspondem as inumeráveis opções que nada para nós poderá fazer. Um golpe de sorte ou de azar, o acaso de um encontro, de um lance, de uma falência ou benefício fazem-nos eliminar toda uma rede de caminhos para se percorrer um só. Em cada momento há inúmeros possíveis, favoráveis ou desfavoráveis, diante de nós. Mas é um só o que se escolheu ou nos calhou.

Assim durante a vida vão-nos ficando para trás mil soluções que se abandonaram e não poderão jamais fazer parte da nossa vida. Regresso à minha infância e entonteço com as milhentas possibilidades que se me puseram de parte. Regresso à juventude, à idade adulta, ao simples dia de ontem e a infinidade de soluções que não adoptei dava para um mundo de vidas. Foi uma só. Nela realizei, num único percurso, aquilo que constituiu o todo de uma vida humana. E todavia, nessa estreiteza de ser está o infinito de mim. Deus é a simplicidade absoluta e tem o máximo de ser. Nós conhecemos em nós esse máximo e é por isso que ao Deus o soubemos inventar.

Vergílio Ferreira, in 'Conta-Corrente 4'

Postado oprincipal

música: GRANDES MÚSICAS porant cartaxo ant 1

publicado por AnnaTree às 10:09
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