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Arvore De Letras

Coisas lidas,ouvidas,cantadas, declamadas,faladas,escritas

Arvore De Letras

Coisas lidas,ouvidas,cantadas, declamadas,faladas,escritas

31
Out07

Parte VII do grande e do pequeno amor ines pedrosa e jorge colombo lido marc2007

AnnaTree

Coisas lidas e vividas
(…)
Pontuavam cada reencontro com o obrigatório circuito social: exibiam-se reconciliados e comparavam-se no espelho doutras relações, invariavelmente menos bélicas.
(…)
Mas a paz testemunhada traz aos guerreiros a saudade da batalha. A brandura daquela casa excitara-lhes o desejo de uma boa refrega; para piorar a situação, ambos tinham bebido mais que a conta. Abriram, os respectivos sacos das pedras éticas, e iniciaram mais um round de lapidação mútua. Depois fugiram naturalmente, cada um para seu lado.
Estacaram um quarteirão adiante, voltaram-se para trás exactamente ao mesmo tempo, e não puderam impedir-se de desatar a rir. Mas a guerra recomeçara, não percebiam como.
(…)
Costumavam-se separar-se em tumulto e confusão, mas desta vez tentaram uma ruptura a frio. Analisaram escaramuças passadas, diferendos fundamentais, riscos latentes, e concluíram que havia pouca esperança nesta trégua frágil. «Isto não da mais.» «Tens razão, não da» só neste dó menor a paz parecia viável. Mas as vozes serenas da razão doíam da mesma forma.
No espaço de um fim-de-semana a vida a dois bifurcou-se-lhe num inventário de pertences. O apartamento de solteira dela continuava vazio (…) e a presença dela na casa dele foi encafuada em caixas, uma alma reduzida a parcelas.

29
Out07

Parte VI do grande e do pequeno amor ines pedrosa e jorge colombo lido marc2007

AnnaTree
Coisas lidas e vividas

Um gesto tão dela que, sem saber como nem pensar porque, ela percebeu que o seu corpo corria pela escada, sôfrego, infantil, ardendo de desejo, a trás dele. Como se tivesse acabado de sair do carro agora mesmo, e os dois últimos meses tivessem sido uma surda hibernação, um sonho mau; como se fosse a tempo de desfazer um gesto errado.
Nenhum deles aprendera a resistir ao chamamento do outro. Era como se os seus nomes respondessem, á revelia dos donos, de cada vez que eram prenunciados pelo outro. «Preciso de ti», disse ela. «É uma estupidez, bem sei, não nos entendemos, pois é, mas preciso de ti.» «Vamos tentar», disse ele, «temos de conseguir entendermo-nos, sem ti a vida dói» «ainda mais do que comigo?», perguntou ela, rindo.
(…)
Juntos, tentavam prolongar a ilusão de que o vício de um outro corpo é incurável. Diz-se que é uma questão de pele. Desculpas. Pele é pele, dedos são dedos, alavancas são alavancas. E por aí fora; é uma questão de fantasia. Uma questão de literatura. Rigorosamente, ela não precisava dele para fornicar. Ninguém precisa de ninguém para o exercício do sexo do que todos precisamos é do amor dos outros. O amor pequeno, parcelar, da ternura e da vaidade; e o amor grande, que se nos entranha como um órgão imaterial e nos faz respirar por toda a vida.
Acordar dentro do amor da pessoa amada; encontrar o cheiro quente da felicidade nos lençóis escangalhados pela felicidade pela solitária viagem dos sonhos. Olhavam um para o outro e pensavam em uníssono: como? Como podiam ter vivido longe um do outro? Que importância tinham as mesquinhices que os haviam separado? «Ainda bem que correste atrás de mim, naquela noite», dizia ele. «Enganaste; corri atrás de mim mesma», dizia ela. Era um dizer sem palavras, o deles, de cérebro para cérebro. Aquela relação dispensava conversas; ambos viam as palavras flutuando, iluminadas, sobre as carícias partilhadas. Temiam que, começando a falar, essas palavras exactas, frágeis, absolutamente silenciosas, se quebrassem.

26
Out07

Parte V do grande e do pequeno amor ines pedrosa e jorge colombo lido marc2007

AnnaTree

Coisas lidas e vividas

 

(…)
Ele nunca gostara de ir a festas com ela, porque a sua sede de protagonismo acabava sempre por se virar contra ele. Arrastada pela embriaguez dos risos que provocava, ela contava episódios da sua intimidade ou interrompia-lhe as frases para fazer troça dele. Ele fingia que não reparava, ela insistia. Depois, no regresso a casa, ainda se insurgia contra aquilo a que chamava o puritanismo ou o espírito de censura dele, acusando-o de não aguentar que uma mulher o sub plantasse em eloquência e popularidade.
Naquela festa ele tentava aperfeiçoar a qualidade do seu trabalho de esquecimento. Mas ao fim de meia hora de conversa com uma personagem do acaso, já uma amiga lhe sussurrava: «não tens vergonha de passar dos braços de uma mulher brilhante para essa pindérica? Olha que eu vou-lhe contar tudo!» e um literato que costumava fazer-se a ela veio dar-lhe os parabéns: «finalmente conseguiste livrar-te da gaija, pá! Valente!» dois casais com quem costumávamos passar feriados cercaram-no, solidários, dizendo mal dela. Ele começou a defende la, porque defende la era ainda defender a intimidade solar que os dois tinham vivido, numa casa de cristal que via agora apedrejada por aqueles que até ontem faziam parte dela.
(…)
Enchia o copo quando ela entrou, e decidiu deixar lhe a festa, sem ter de ver o transito sorridente para os braços dela dos mesmos amigos comuns que minutos antes da sua chegada a vituperavam. Á saída, ele bateu com a porta. Mais um gesto típico dela.

24
Out07

Parte IV do grande e do pequeno amor ines pedrosa e jorge colombo lido marc2007

AnnaTree

Coisas lidas e Vividas

Tinha os pés bem assentes na terra. Ás vezes ele dizia-lhe que ela corria o risco de ficar com os pés bem assentes na terra e criar raízes . Ela gostava do sossego das árvores; ele do movimento das casas. Ela interessava-se pela história das guerras, ele preferia olhar para o que sobrara da história e atravessava o quotidiano, inventariando destroços. Nas bibliotecas, refugiava-se dos bombardeamentos da existência. O estudo das guerras enchi-a de paz. Dedicava-se agora ao papel das mulheres na guerra dos cem anos. Perante a odisseia de Joana D’arc., ou a complexa diplomacia de Leonor de Aquitânia, a sua vida era um paraíso.
Esta guerra lenta que matara o feudalismo distraia-a da guerra sem fim que há anos travava a com ele. Por mais tratados de paz que se propusessem assinar, nunca conseguiam ficar juntos mais do que alguns meses. Acordavam uma manhã com escaramuças de fronteira que cresciam para batalhas campais até se transformarem em guerra aberta. Esgotadas as munições, entravam num período de guerra-fria, que durava até que um deles soçobrasse de tristeza e soltasse o grito da independência. Mas invariavelmente, passado um tempo, regressavam á terra queimada da paixão, jurando que desta vez é que era.
Mas nunca era. Nunca conseguiam encontrar um fuso horário que unisse os seus dois mundos. E faltava-lhes já a força para o terçar de armas ritual. Começavam a estar demasiado descrentes para lutar.

22
Out07

Parte III do grande e do pequeno amor ines pedrosa e jorge colombo lido marc2007

AnnaTree

Coisas lidas e vividas


A ele, mas entre as velas de um bar, aturdido pela banda no palco, nem notava. Nem tentava notar. Sem ela não chegava a perceber se a sua vida era de novo um livro em branco, ou se tinha arrancado de vez as páginas do futuro. Uma noitada em bares com o irmão, cervejas esvaziadas em competição com rockers filosofantes, faziam-no sentir-se um eterno rapaz na crista duma impossível longevidade. Dava-lhe para acreditar que o fim de tudo se podia traduzir num começo auspicioso.
(…)
O que dele não entendia a mãe, entendia-o a arquitecta com quem dividia o estúdio, um caso de amizade á primeira vista que se mantinha inexpugnável desde a pré-graduação. Pensavam da mesma forma sobre todas as coisas. Juntos, poupavam nas palavras; á noite, já em casa, continuavam juntos por telefone. A namorada dele tinha dificuldade em entender o fio condutor. «Não e digas que é só trabalho», dizia ela. «Só trabalho não existe».


19
Out07

Parte II do grande e do pequeno amor ines pedrosa e jorge colombo lido marc2007

AnnaTree

coisas lidas e vividas

Ela, entretanto, escondia-se do mundo. Com as cortinas a barrica-la do dia, nem precisava de chorar para sofrer. Antigamente, bastava-lhe pensar no seu apartamento de bolso para que se sentisse protegida. Mas isso fora outrora, noutra vida que agora precisava de reconstruir rapidamente. Lembrou-se do gelado no congelador. Não gostava de comer gelado sozinha. Acreditava que o excesso de calorias se produzia através da solidão; acreditava que os gelados, com companhia, não engordavam. Acreditava em muitas coisas assim: presságios, provérbios, profecias, coisas antigas de que ele se ria.

«Nem sei por onde comece. Sim, outra vez. Não, quero dizer, sim mas desta vez acabou mesmo. Estou feita num oito.
(…)
Vá lá, não gozes. Sei lá como é que foi. Desta vez foi por causa da sócia dele (…) mas desta vez nunca mais» e a dizer estas coisas era como se desembarcasse num deserto frio de onde alguém tivesse roubado todo o seu passado e todo o seu futuro. A cada momento uma nova esperança, uma centelha de cumplicidade, se lhe apagava.

17
Out07

Parte Ido grande e do pequeno amor ines pedrosa e jorge colombo lido marc2007

AnnaTree

Coisas lidas


«Sai. Sai, não ouviste? Nunca mais te quero ver», disse ela. «Nem eu a ti. Acabou, adeus basta», disse ele.
(…)
O fim de tudo, de novo.
(…)
Livre de novo, ele planava sobre a cidade, redescobria-a como terreno de possibilidades e surpresas, filme de acção sem roteiro predefinido. Comprazia-se na liberdade do calendário sem compromissos, dos gostos sem reprimenda, de namoriscar com a garota do bar sem sentir culpa. Mas esta consciência repetida incomodava-o; sabia que a verdadeira liberdade consistiria em não ter de enumerar as vantagens da liberdade e disso já não era capaz. Lembrava se da forma como ela lhe massajava os ombros, das gargalhadas partilhadas, das noites em claro. Nunca poderia voltar a ser leve como um homem solteiro; era um homem separado, um amputado a tentar reconstruir-se com um corpo diferente.

16
Out07

E deixo por aqui o virgílio por agora...

AnnaTree

Coisas lidas e finadas.... ou findadas?
(...)
Imagem da perfeição, do meu deslumbramento, onde estás? Vem suave ao meu apelo, á minha necessidade e cansaço. Não sei como és ou que luz te ilumina ao meu imaginar.Mas sei de mim, do acabrunhamento que me afunda, que deves existir pelo que em mim te chama e te exige. Tudo em mim está pronto para que me apareças, te formes como um universo que vai existir, um sorriso breve se me abre a idéia de que virás. Desastre do meu ser, corrupção da minha finitude, sombra evanescente do que falhou e morreu, aí se destende o espaço para a tua aparição. Não sei nada de ti nem a forma que tomarás para a minha pacificação. Sei apenas que há em mim uma falta muito grande que alguma coisa deve preencher. Sei apenas que em algum lado há-de existir, o que me tranqüilize e me ponha devagar a mão sobre a fronte. Sei apenas que a paz e a beleza e a graça devem existir para a minha melancolia que as exige. Graciosidade gentil um olhar suave que me fite qualquer coisa de terno e pacificador que desça sobre mim e me cubra e me envolva e me sagre de doçura e de apaziguamento em que tudo me esqueça e repouse e esteja bem...


oprincipal, deixou um comentário ao post

Eu continuo com o Vergilio... "Dostoievski escreveu: «Se Deus não existisse, tudo seria permitido». Aí se situa o ponto de partida do existencialismo. Com efeito, tudo é permitido se Deus não existe , fica o homem, por conseguinte , abandonado, já que não encontra em si, nem fora de si, uma possibilidade a que se apegue. Antes de mais nada, não há desculpas para ele. Se, com efeito, a existência precede a essência, não será nunca possível referir uma explicação a uma natureza humana dada e imutável; por outras palavras, não há determinismo, o homem é livre, o homem é liberdade. Se, por outro lado, Deus não existe, não encontramos diante de nós valores ou imposições que nos legitimem o comportamento. Assim, não temos nem atrás de nós, nem diante de nós, no domínio luminoso dos valores, justificações ou desculpas. Estamos sós e sem desculpas. É o que traduzirei dizendo que o homem está condenado a ser livre. Condenado, porque não se criou a si próprio; e no entanto livre, porque uma vez lançado ao mundo, é responsável por tudo quanto fizer. O existencialista não crê na força da paixão. Não pensará nunca que uma bela paixão é uma torrente devastadora que conduz fatalmente o homem a certos actos e que por conseguinte, tal paixão é uma desculpa. Pensa, sim, que o homem é responsável por essa sua paixão. O existencialista não pensará também que o homem pode encontrar auxílio num sinal dado sobre a terra, e que o há-de orientar; porque pensa que o homem decifra ele mesmo esse sinal como lhe aprouver. Pensa portanto que o homem, sem qualquer apoio e sem qualquer auxílio, está condenado a cada instante a inventar o homem. Disse Ponge num belo artigo: «O homem é o futuro do homem.» É perfeitamente exacto. Somente, se se entende por isso que tal futuro está inscrito no céu, que Deus o vê, nesse caso é um erro, até porque nem isso seria um futuro. Mas se se entender por isso que, seja qual for o homem, tem um futuro virgem que o espera, então essa frase está certa." Vergílio Ferreira, in 'O Existencialismo é um Humanismo'



14
Out07

XXXIV virgilio ferreira conta corrente e pensar

AnnaTree

Coisas lidas

Nas margens da estrada e no meio dos campos visíveis havia maciços rubros de papoilas manchas amarelas de malmequeres. De um eucalipto novo colhi um ramo que esmaguei na mão algumas folhas para o seu perfume para me penetrar. Dei o ramo á Regina, ela aspirou-lhe também o perfume. Quase nada dizíamos porque a beleza de tudo era mais forte e falava mais alto não nos deixando falar a nós. Á volta colhemos algumas papoilas e malmequeres.
-Murcham logo dizia-me ela
Eu sabia. Mas era excitante pensar que podíamos ter connosco por mais algum tempo a beleza que sem ser
vista se desperdiçava.

De oprincipal a 14 de Outubro de 2007 às 17:17 O desperdício. Ele é a faixa mais larga de todo o acontecer no universo. E na vida. Quanta energia se esgota até ao seu nada, para ter razão esse tal segundo princípio da termodinâmica. Que mundo incrível se perdeu com as pessoas que se não cumpriram, que fracção enorme do cérebro ficou sem aplicação. E numa simples vida, que gasto enorme no comer e no dormir. Nós podíamos ser como as plantas de raízes aéreas e que só comem ar. Ou ser como o sol, que não dorme. Ou Deus que também não, até há pouco. Mas nessa desproporção alucinante entre o que se desperdiça e o que se aproveita, o homem cria o espaço para ser maior que o universo. Porque foi preciso o homem para o universo nascer. Tudo tão pouco. E tudo tão tanto, não é verdade? Vergílio Ferreira, in 'Pensar'

12
Out07

XXXIII virgilio ferreira conta corrente e estrela polar

AnnaTree

Coisas lidas a duas mãos

É exactamente porque não há solidão que dizes que há solidão. Imagina que eras o único homem no universo. Imagina que nascias de uma árvore, ou antes, porque eu quero pôr a hipótese de que não há árvores, nem astros, nem nada com que te confrontes: supõe que o universo é só o vazio e que tu nascias no meio desse vazio, sem nada para te confrontares. Como dizeres «eu estou sozinho»? Para pensares em «eu» e em «sozinho» tinhas de pensar em «tu» e em «companhia». Só há solidão «porque» vivemos com os outros...

Vergílio Ferreira, in 'Estrela Polar'
Posted by oprincipal


Acendeu-se o fogão para haver o calor que ainda não há e para haver fogão aceso. Esta razão foi a mais importante. Que se disse ao almoço? Mas nunca se diz nada, e é, todavia sempre um nada que enche tudo. Sobretudo a boa disposição que é sempre festa do nada com que é sempre festa do nada (...) havia doçaria trazida pelos convivas. È ainda o fogão. E a certa altura reparamos que o dia ia fechando as portas. E antes que as fechasse de todo, os amigos partiram. E todos nós registamos na memória um dia a haver na lembrança.E eu registo-a aqui também, para os efeitos da posteridade

posted by anna tree conta corrente


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