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Arvore De Letras

Coisas lidas,ouvidas,cantadas, declamadas,faladas,escritas

Arvore De Letras

Coisas lidas,ouvidas,cantadas, declamadas,faladas,escritas

06
Out08

ESTE É O MEU CORPO DE FILIPA MELO parteVI

AnnaTree

Coisas lidas

(...)
Há muito que aprendi que é em pequenos gestos repartidos por cada dia que permanecemos inteiros. Que evitamos desfazer-nos em pedaços, estraçalhar-nos, dissolver-nos em enganos. E aprendemos a amar os vivos.
(...)
Preciso sentir que estou vivo. Vivo-vivo. Não vivo-morto, como vejo muitas á minha volta. Gente que já morreu e nem sequer deu por isso. Que se deixou morrer aos poucos, bocadinho por bocadinho. O que se esvaziou de vontade e de esperança. E que, hoje, olha o futuro como uma sucessão do presente, sem sobressaltos, continua. Alimentada apenas por farrapos de memorias. Farrapos – ficções.
A esses respeito-os menos do que aos meus mortos, que me passam pelas mãos já sem ilusões.
(...)
Alguém me disse uma vez que a morte é um parto de si mesmo. Uma consumação, uma onda que nos varre até ao cabo de nós mesmos, ao fundo da nossa historia, ali onde encerramos os mistérios. Se não formos nós a cumprir a tarefa encarregam-se os outros dela. Não há como fugir.

03
Out08

ESTE É O MEU CORPO DE FILIPA MELO parteV

AnnaTree

Coisas lidas
(...)
Os mortos têm sempre razão. Quanto mais não seja porque têm a ultima palavra. É para lha extorquir que nós trabalhamos.
(...)
« mulher sem cinta, navio sem leme!»
(...)
Precisou de quarenta e oito anos para saber que tem um corpo. Senti-lo, tê-lo, olhá-lo de frente.
(...)
Guardamos as verdadeiras memórias de uma situação, de um rosto, de um corpo, de um tique, de uma expressão, de um gesto, de um sabor, de uma frase. Por quanto tempo? O que ainda lembramos mistura-se lentamente com aquilo que supomos lembrar. Transformamos as memórias em ficções. Reformulamo-las, limando com cuidado os seus contornos. Fica só um rasto da realidade que completamos com a imaginação. E sentimo-nos satisfeitos, felizes, pacificados.
Até ao momento em que, por um acaso, somos obrigados a abrir as gavetas que suponhamos arrumadas com zelo. a desempoeirar as prateleiras. E nada está onde julgávamos ir encontra-lo. Que inocência! Acreditávamos mesmo ter guardado ali um sentimento, aqui uma sensação, ali uma impressão. E nada está no seu sítio.

01
Out08

ESTE É O MEU CORPO DE FILIPA MELO parteIV

AnnaTree

Coisas lidas

(...)
Se me disserem que um dos meus mortos já teve uma vida antes, eu respondo que só me interessa aquela que ainda encontro quando o abro. Uma vida que não dura mais de três horas de cortes e sangue com poucas personagens e desfecho rápido. Morreu. Mataram-no.
É verdade que com cada corpo que me passa pelas mãos tenho uma conversa diferente. Não há duas histórias semelhantes. Ou dois cérebros. Ou dois corações. Ou dois sexos. Mas a uni-los descubro sempre a fina membrana que separa a fragilidade dos corpos da brutalidade dos sentimentos. morremos todos de excesso ou de falta de amor. E morremos sozinhos, de regresso á nossa odiosa singularidade.
Morremos todos do coração, acreditem.

 

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