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Arvore De Letras

Coisas lidas,ouvidas,cantadas, declamadas,faladas,escritas

Arvore De Letras

Coisas lidas,ouvidas,cantadas, declamadas,faladas,escritas

17
Fev09

India Tree

AnnaTree

Não existe outra via para a solidariedade humana senão a procura e o respeito da dignidade individual
Fonte: "O Homem e o seu Destino"
Autor: Nouy , Pierre
 


 

 

16
Fev09

O último voo do flamingo Mia Couto IX

AnnaTree

 


Coisas Lidas


Ana Deusqueira a tudo respondia, em verbo e gesto, olhos postos no italiano. Depois do inquérito, ela se aproximou de Massimo Risi e lhe segredou ao ouvido. O que ela disse ninguém sabe. O povo só via o branco ficar vermelho e voltar a enlividecer, cara pendurada no rosto.
Depois a prostituta deu costas á delegação e aproximou-se do polémico achado, no chão da estrada. Mirou o órgão desfigurado tombado como um verme flácido. Joelhou-se e, com um pauzinho, revirou o hífen carnal.
Em volta de Ana Deusqueira se formou um circulo, olhos de ansiosa expectativa. Impôs-se silencio. Até que o chefe da polícia local inquiriu:
- Cortaram esta coisa do homem ou vice-versa?
- Essa coisa, como o Sr. policia chama, essa coisa não pertence a nenhum dos homens daqui.
- Está certa?
- Com a máxima e absoluta certeza.
Cumprida a examinação, Ana Deusqueira sacudiu as mãos e abanicou a cabeleira desfrisada como se fosse uma rainha.

13
Fev09

O último voo do flamingo Mia Couto VIII

AnnaTree

Coisas Lidas


Deusqueira era sempre motivo de êxtase e suspiração. A mulher se desculpou quando se apercebeu da oficiosa expectativa. Chupando, tudo manteigoso, bichanou no ouvido da prostituta a breve explicação das circunstâncias. Afinal, não fora convocada para os usuais préstimos. Ana recebeu a surpresa, sempre em pose. Depois, amoleceu os charmes e agravou a voz. Ao fim e ao cabo, vinha envergada a despropósito para quê a arte se falta o artifício? A mulher passou a mão pela cabeleira postiça e suspirou:
- Txarra! Estava a pensar que era uma chamada de serviço. E com taxa de urgência.

 

Soltou a gargalhada em afronta. Depois ela se aproximou da esposa do administrador e a contemplou em desafio. Media-lhe as alturas, descomparando-a. Quem, afinal, era a mais que primeira-dama? Queixo altivo, em meio riso.
«- Como está a nossa primeira senhora?»
Dona Ermelinda tinha os olhos que cuspiam. Seu esposo a afastou, precavendo desmandos.
- Volte para casa, mulher.
- É melhor ela ficar – corrigiu a prostituta, e irmos juntas lá ver os restos do acidente. Quem sabe ela pode ajudar a identificar a coisa?
O confronto ficou-se por ali. Porque os estrangeiros fardados rodearam a prostituta fungando da intensidade dos seus aromas. A delegação se interessava: seria zelo, simples curiosidade? E pediram-lhe documentos comprovativos da sua rodagem: curriculum vitae, participação em projectos de desenvolvimento sustentável, trabalho em ligação com a comunidade.
- Duvidam? Sou puta legítima. Não uma desmeretriz, dessas. Até já dormi com....
-adiante, adiante – apressou o ministro, que logo iniciou uma dissertação sobre vagos assuntos como as precisões da chuva, o estado miserável das estradas e outras nenhumarias.

13
Fev09

Quando o luxo vem sem etiqueta...

AnnaTree

coisas mailadas

O tipo desce na estação de metro vestindo jeans, t-shirt e boné, encosta-se próximo à entrada, tira o violino da caixa e começa a tocar com entusiasmo para a multidão que passa por ali, bem na hora rush matinal.
Durante os 45 minutos que tocou, foi praticamente ignorado pelos traseuntes, ninguém sabia, mas o músico era Joshua Bell, um dos maiores violinistas do mundo, executando peças musicais consagradas num instrumento raríssimo, um Stradivarius de 1713, estimado em mais de 3 milhões de dólares.
Alguns dias antes Bell tinha tocado no Symphony Hall de Boston, onde os melhores lugares custam a 'bagatela' de 1000 dólares.
A experiência, gravada em ví­deo, mostra homens e mulheres de andar rápido, copo de café na mão, telemóvel ao ouvido, crachá balançando no pescoço, indiferentes ao som do violino. A iniciativa realizada pelo jornal The Washington Post era a de lançar um debate sobre valor, contexto e arte.

Conclusão: estamos acostumados a dar valor às coisas quando estão num contexto. Bell era uma obra de arte sem moldura. Um artefato de luxo sem etiqueta de glamour.
Somente uma mulher reconheceu o músico...

 

Vejam este relato e vídeo correspondente "espantoso"...

Neste caso cultura parece querer significar luxo...
Do luxo qualquer pessoa pode usufruir logo que tenha dinheiro...
À cultura qualquer pessoa pode aceder logo que tenha educação, sensibilidade e em alguns casos dinheiro...
Mas para aprender a desfrutar a riqueza dos momentos não basta ter dinheiro, cultura e sensibilidade...


 

 

12
Fev09

O último voo do flamingo Mia Couto VII

AnnaTree

 


Coisas Lidas


- Esta a compreender, Excelência? Chamamos a Deusqueira para ela identificar o todo pela parte.
- Pela parte?
-pela.....pela coisa, quer dizer, refiro-me á questão pendente
E logo despachou mandamentos, em trejeitos militares não fossem os estrangeiros pensar que o martelo não tinha cabo:
- Sr. adjunto, vá chamar Ana Deusqueira.
(...)
Foi uma fracção de nada enquanto a ordem se cumpriu. O administrador, entretanto, deu de caras com a minha pessoa e me ordenou:
– Traduza, traduza para o Sr. Reis!
– Não vale a pena, ele está a acompanhar tudo
– Ao menos, faça um resumo. Aproveita para introduzir....quer dizer, para explicar a nossa Deusqueira.
Não deu tempo. Ana Deusqueira se anunciava, com menos sirene que a delegação, mas com maiores espananciais. A mulher exibia demasiado corpo em insuficientes vestes. Os tacões altos se afundavam na areia como os olhos se espetavam nas suas curvaturas. O povo, em volta, olhava como se ela fosse irreal. Até recentemente não existira uma prostituta na vila. Nem palavra havia na língua local para nomear tal criatura

10
Fev09

O último voo do flamingo Mia Couto VI

AnnaTree


Coisas Lidas

- Mas, essa Ana, quem é? – Inquiriu o ministro.
Vozes se cruzam: como se podia não conhecer a Deusqueira? Ora, ela era a prostituta da vila, a mais competente conhecedora das manchas locais.
- Prostitutas? Vocês já cá têm disso?
E o administrador empoleirado na vaidade, murmurou:
-é a descentralização, sr. Ministro, é a promoção da iniciativa local e repetia, enfunado: - a nossa Ana!
O ministro ainda achou por bem refrear aquele entusiasmo crescente:
- A nossa quer dizer...
Mas o administrador já ia de vela e viagem. E prosseguia: que essa Ana era uma mulher ás mil imperfeições, artista de invariedades, mulher bastante descapotável. Quem, senão ela, podia dar um parecer abalizado sobre a identidade do órgão? Ou não era ela perita em Medina ilegal?

06
Fev09

O último voo do flamingo Mia Couto IV

AnnaTree

Coisas Lidas

(...)
Enfim, chegaram todos á estrada onde jazia o anónimo sexo. Formaram um círculo e o silêncio deu um nó em volta. Assim, calados, pareciam prestar sentidas homenagens. O facto de o dito apêndice haver resistido aquele tempo sem ter sido removido pelos bichos era assunto que convocava as imaginações.
Até que o representante do governo central, depois de muito esfregar o vazio dos bolsos, tossiu e metafisicou hipótese: aquilo, em plena estrada, era um órgão ou organismo? E se era órgão, assim díspar e ímpar, de quem havia sido cortado?
E logo se acenderam despropositados debates. Via-se que era o poeirar de vozes, só para espantar silêncio. Até que o administrador local sugeriu:
- Com o devido respeito. Excelências: e se chamasse mos Ana Deusqueira?