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Arvore De Letras

Coisas lidas,ouvidas,cantadas, declamadas,faladas,escritas

Arvore De Letras

Coisas lidas,ouvidas,cantadas, declamadas,faladas,escritas

06
Mar09

O último voo do flamingo Mia Couto XVII

AnnaTree

Coisas Lidas
Quando chegou minha esposa eu tive que mentir. Não podia revelar com quem estava na altura do acontecimento. Me incriminando todavia: os copos de wisqui. Dona Ermelinda, a minha esposa, foi de imediato ao assunto:
- Estes são dois copos
- Sim, eu estava bebendo com o major Ahmed
- Quem é Ahmed?
- Era. Era esse que esvoaçou. Chefe da segurança.
- E esse chefe de segurança, esse major, usava batôn?
Engoli um sei lá. Quem sabe os costumes desses asiáticos. Não há por ai uns que andam de saia? Sabe-se lá o que usam dentro da roupa. E apontei para o tecto. Era melhor que ela visse o órgão do militar para desvanecer suspeitas. Só depois senti embaraço de confessar que o instrumento de macho estava espetado, digamos que de cabeça para baixo, no tecto da minha casa. Enganava a Ermelinda. Mas, os outros que iriam pensar? Que eu estava envolvido nas famigeradas rebentações? Ou pior, que andava por aí a tomatear-me com homens, ainda por cima acastanhados? 

 

04
Mar09

O último voo do flamingo Mia Couto XVI

AnnaTree

 


Coisas Lidas


Decidi aumentar a velocidade na rotação da ventoinha. Pudesse ser que a coisa se despegasse, em fraqueza centrifuga. Acertei o botão nos máximos. Mas qual nada: o pendurico não despegava, suspenso na ilusão, de estar vivo. Jogava á cabra cega?
Lhe explico o âmbito da sucedencia: eu tinha mandado preparar uns tantos cabritos para sua Excelência levar para a capital. Parece que agora já não deixam embarcar cabrito no avião. Todavia, para os dirigentes sempre se abre uma excepção, não é verdade? A vida não é só sacrifícios. Pois naquela tarde havia uns tantos ajudantes que matavam uns outros tantos cabritos, lá no pátio das traseiras. Quando se deu a explosão aquilo foi um ver se te enfias. Instalou-se a maior confusão, os cabritos a saltitar pela estrada, as gentes a descarrilarem por todo o lado. Depois de um tempo, aquele mesmo povo se acumulou junto ao galinheiro. Lá em cima das tábuas estavam as botas do desditoso. E mais nenhum sinal: nem sangue, nem vísceras, nem cheiro sequer. A pergunta andava no ar sem chegar a ser proferida: e o trambiricalho do paquistanês onde teria ido parar?

02
Mar09

O último voo do flamingo Mia Couto XV

AnnaTree

 


Coisas Lidas


(...)
Sua excelência
O ministro responsável
Escrevo de arrompante: o que eu vi me fez cegar; o que não vi é que me clareou. Quando ouvi aquele clarão, esburacando o poente, então desconfiei: seria aquilo um chamarisco?
(...)
Pois, eu, excelência, já começava as intimidades com a tal anónima. Não entro em detalhes, mas confio-lhe este meu pavor das minhas mãos incendiarem. Sucede com Ermelinda: mal namoro meus dedos desatam-se a aquecer. Com esta outra, porém, com a tal inominada mulher mais esse mal olhado parece não ter cabimento. Então eu, naquele fim de tarde, eu me esfregava com ela sem afastar o medo das ardências. Á cautela, ia esfriando os dedos no gelo do wisqui. Já eu me deitava sobre ela, quando o clarão recintilou, parecia o cosmos se rasgava em dois. Com o susto me apalpei, no imediato segundo a constatar minha aflição explodi, eu? E olhei os céus, implorando a clemência dos donos da vida. Foi quando vi voar em minha direcção um órgão de macho, mais veloz que fulminancia de relampejo. Me berlindaram os olhos. Ainda hoje gaguejo: fica-me a língua á procura da goela quando tento descrever o sucedido. A tal senhora felizmente desandou. Ainda pensei que tivesse dissolvido no âmbito da explosão. Mas não, pela fresta da janela ainda a vi correndo, ruas afora.
O senhor pode-me acusar. Tenho as costas largas como a tartaruga. Mas passou-se igual ao que eu exponho. Pois o tal sexo voador depois de rasar a minha pessoa, se foi pespegar na pá da ventoinha. E ficou rodopiando lá no tecto, como equilibrista nas alturas do circo.

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