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Arvore De Letras

Coisas lidas,ouvidas,cantadas, declamadas,faladas,escritas

Arvore De Letras

Coisas lidas,ouvidas,cantadas, declamadas,faladas,escritas

13
Abr09

O vestido de lantejoulas DE RITA FERRO

AnnaTree

Coisas Lidas
Adormecer, era como morrer todas as noites condenada pelas costas; acordar era renascer uma vez mais.
(...)
Quando o olhava de alto a baixo e o abrangia todo, e dava de caras com aquele sangue-do-seu-sangue de morfologia inquietante, não podia deixar de lamentar:
- Meu deus, que medonho que é...
E tentava disfarçar o embaraço que o seu único filho lhe causava com dolorosa e forçada ternura
(...)
Mas Pedrinho era uma criança invulgar e não era só o seu aspecto físico que desconcertava. As coisas que dizia de uma acutilância precoce.
(...)
- Estranho, isto de ser filho...
- Estranho porquê?
- Ter que ser filho, e pai e mãe, ao mesmo tempo.
- Explica-te, seu tonto! A mãe não está a seguir-te
- O pai diz: deita-te cedo
- E então? – Espantava-se ela – o pai preocupa-se contigo!
E Pedrinho ria escancarando as pernas, afagando o estômago.
- Errado! Os pais preocupam-se com os erros que fizeram e não tiveram coragem de evitar. Esperam de nós essa coragem, e tentam corrigi-los através de nós...
- Não te compreendo, Pedro, falas por enigmas...
- Essa! De não nos perceberem! É que é tão fácil perceberem-nos... Nós percebemos tudo! (...) os modelos que nos dão, de quem são?
- Nossos!
- Não minta, mãe. Os pais mentem imenso... (...) fiz um estudo, sei o que estou a dizer!
- Um estudo? Um estudo de quê?
- Das coisas que os pais me dizem (...) «deixa o quarto arrumado. Apaga as luzes de que não estas a precisar. Não digas mal das pessoas. Não copies nos pontos. Nunca bebas álcool nunca fumes estuda com método...
- Ai Pedrinho, que maçador!
- Exigem-nos o que nunca conseguiram... – e encolhendo os ombros – e nós a assistir, de açaime posto...
- A assistir a quê?
- Ao inverso! A vossa imperfeição impune... Culpam-nos constantemente de não sermos perfeitos, sem a menor autoridade para o fazerem. E andamos aqui a brincar ao gato e ao rato: os pais a fingirem que são perfeitos, e nós, por nossa parte, a fingir que acreditamos...
Ao ver o filho desconsolado e céptico esboçando um sorriso derrotado e impotente que por milagre a tocou; fez um esforço para se dominar.
- Estamos satisfeitos contigo Pedro! O pai e a mãe são teus amigos...
- Mas eu sou feio
- Tu não és feio, filho. Quem te disse que eras feio?
- Esses olhos... Essa ternura que eu não lhes inspiro...
Encurralada, só viu uma fuga.
- Vamos filho! Já conversamos muito hoje. E ainda não estudaste nada...Não é amanhã que tens ponto?
E Pedrinho entrou no jogo
- Pois é... E de historia ainda por cima!


03
Abr09

Memória de Carlos Drummond Andrade

AnnaTree

Coisas declamadas


Congresso de gaivotas neste céu
Como uma tampa azul cobrindo o Tejo.
Querela de aves, pios, escarcéu.
Ainda palpitante voa um beijo.

Donde teria vindo! (Não é meu...)
De algum quarto perdido no desejo?
De algum jovem amor que recebeu
Mandado de captura ou de despejo?

É uma ave estranha: colorida,
Vai batendo como a própria vida,
Um coração vermelho pelo ar.

E é a força sem fim de duas bocas,
De duas bocas que se juntam, loucas!
De inveja as gaivotas a gritar...
Alexandre O'Neill

01
Abr09

O VENTO E A LUA DE RITA FERRO

AnnaTree

Coisas Lidas
A figueira dá frutos sem flor, porque Judas se enforcou nos seus ramos....
(...)
As sementes da verdadeira amizade são eternas, e imunes ao tempo á distância, á própria ausência, crescem sem precisar de água ou sol e florescem ao primeiro contacto de quem as fecundou. São estes, no fundo, os sentimentos que importam.

(...)
O amor não tinha que ter sentido nem utilidade, a beleza estava justamente aí, na renúncia, na infundamentação.
(...)
É depois de morrerem que as pessoas passam a fazer sentido.
(...)
Nunca se deve subestimar os idosos: sabem mais que os novos com o dobro da argúcia... a solidão de um velho é um desperdício de conhecimento, um esbanjamento de experiência, um desaproveitamento da maturidade acabada, um desbarato de afecto
(...) para reforçar as defesas, refugiou-se na leitura; queria que a vida dos outros lhe devolvesse a aventura que a sua já não tinha

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