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Arvore De Letras

Coisas lidas,ouvidas,cantadas, declamadas,faladas,escritas

Arvore De Letras

Coisas lidas,ouvidas,cantadas, declamadas,faladas,escritas

30.11.09

Pássaros de seda Rosa Lobato Faria V


AnnaTree

Coisas Lidas


A Diamantina explicou-nos então que no melhor da festa ele tinha tido um ataque de ciúmes, só porque pela primeira vez ela correspondera as suas carícias, carícias que alias tinham sido também uma estreia absoluta na vida sexual dos dois.
- Se calhar íamos começar a ser felizes, mas o machismo é mais do que uma cultura, é uma doença hereditária. Convenceu-se que eu lhe ponho os cornos, provavelmente contigo.
Deu uma gargalhada daquelas que lhe vinham do útero, a Teca olhou-me e adivinhou que eu me senti o mais desprezado de todos os homens. Mal eu sabia o que estava para vir.
Simão guiou a caminho de casa entre tonturas e perturbações da vista, com uma dor forte na nuca e uma mágoa inexplicável no coração a que se misturava uma ponta de remorso.
Sou uma besta, não percebo nada de mulheres, só conheci putas que fingiam que sim e se calhar a minha passou a vida a fingir que não. Talvez tanta sabedoria não seja aprendida m na volta é instintivo nelas quando a gente lhes toca no botão certo. Foi tudo tão bom e tão mau, será que não se pode ter prazer sem alguma coisa que o envenene, o remorso, o ciúme, a desconfiança, a raiva, a vertigem, que raio de coisa é o amor? Onde é que se aprende, como é que se faz? Tenho cinquenta anos e descobri agora que lixei tudo, as mulheres tem qualquer coisa de bruxas e a minha, com toda aquela arte, aquela carne até hoje tão fria e hoje tão quente, não é certamente excepção.

28.11.09

passaros de seda roosa lobato faria


AnnaTree

coisas lidas

 

Foi por essa época que as saídas do tio Zebra para estrada se foram tornando cada vez mais prolongadas. Voltava de longe em longe com as mantas todas vendidas, sentava-se para lá das laranjeiras a alcançar o trigal com os olhos visionários, falava sozinho, assoava-se ao seu grande lenço vermelho, ás vezes extraia do talego uma machadinha de azeitonas, ficava a roê-las, a cuspir os caroços longe.
Um dia disse á minha mãe:
- Margarida, está na hora de me ir chegando por aqueles caminhos do mundo, que são feitos de alma que de terra. Foste a minha filha querida, a Tina e o Márito os meus netos, agora a Teca, também lhe quero muito, porque lhe vejo aquela vontade de fazer o Mário feliz, mas a minha missão aqui acabou. Sinto que alguém me chama doutro lugar, talvez outra mãe com outro menino ao colo, talvez a minha zebra milagrosa em feitio de nuvem e tenho que partir e não te entristeças porque a vida é assim mesmo.
Deixo – te a carroça, o macho Muchacho nunca se comparou com a Queijada, mas é bem mandado, come pouco, pode valer-te numa aflição.
Ah, e diz ao Márito que eu lhe comprei este olival aqui, que liga a nossa terra á horta que lhe deixaram os outros padrinhos, agora é tudo dele, que meta um caseiro que eu não te quero aí dobrada a mondar ervas e a sachar feijão.
São horas de abalar, fica com Deus Margarida, se as filhas se comprassem na feira era uma igualzinha a ti que eu escolhia, e não penses mais em mim, que estou sempre bem, com os pés na terra e a cabeça no céu e o coração em toda a parte e pernas ao caminho e algum comboio que me leve, ou barco de aventura ou caravana de ciganos, tudo serve a um homem que já não tem amarras com a vida das coisas e vai levezinho por esse mundo além.
Partiu. Com noventa e dois anos e o mais belo sorriso de todo o Alentejo.

26.11.09

Pássaros de seda Rosa Lobato Faria VIII


AnnaTree

Coisas Lidas
Era um cego que tinha uma viola de doze cordas, disse um dia o tio zebra.
Tocava-a nas feiras e nos balhos, todo o povo gostava de repenicar ao som das suas modas. Andava cego pelas terras alem com a sua viola, o seu cajado e o seu cão, quando um dia adregou de topar com um tartamudo que lhe pediu que tocasse, por muitos gestos e sinais. O cego tocou, o mundo que também era surdo nada ouviu.
Por ali passava um coxo com fama de santo, apoiado no seu pupilo que era um menino iluminado, que lhe servia de guia e lhe traduzia os pensamentos, já que o santo falava por charadas e ninguém, a não ser o menino, o entendia. Corda partida, catarata caída, boca florida, cera derretida.
O cego não percebeu patavina, o surdo ainda menos, o menino vá de explicar que por cada corda da viola que se partisse, menos cego ficava o cego, menos mudo ficava o mudo e menos surdo o surdo.
E dai? Disse o cego. Dai que a vida é feita de dozes cordas como a tua viola, e por cada uma q eu se usa e parte, melhor se vê, melhor se ouve e melhor se fala.
E mal dos manetas que não a tanjam com os dentes, disse o santo,
E isto o que seja, perguntou o cego.
Isto quer dizer que quem não tiver unhas para usar e partir todas as cordas ou na falta de unhas não use, para tange-las, todo o seu engenho, não terá vivido e morrera cego, surdo e mudo.
Quer dizer que quando partirem todas as doze cordas eu serei capaz de ver e o surdo-mudo de ouvir e falar?
O santo não respondeu. Não sei, disse o menino. Mas segue tangendo a tua viola, deixa que a corda se parta de forma natural, umas na tristeza e outras na alegria, uma na fome e outras na fartura, umas no bulício, outras na solidão. E quem viver vera e quem tanger cantará. E abalaram os dois
O cego e o surdo-mudo juntaram-se na sua peregrinação pelo mundo, as cordas da viola lá se foram partindo uma a uma, eles foram ficando mais sábios e mais percebe dores da vida e dos outros e da obra de Deus e um dia, quando á viola restava uma corda só, vieram num fim de uma feira, uns bêbados que lha partiram e ao verem aqueles três, cego, surdo e cão sarnento, os encheram de pau e os mataram. Agora compreendo, disse o mudo, já com a boca da alma sou capaz de falar, já oiço o coração dos outros a bater e tu? Eu vejo tudo, disse o cego. Mas vejo mais que tudo os meus erros e vejo que a vida é cheia deles e vejo que para emenda-los é tarde demais
Não será tarde de mais, disse o mudo. Porque os outros aprenderão a tanger as suas violas, a usar a vista, o ouvido, a voz, as unhas e os dentes que o senhor lhes deu, em vez de ficarem a tocar para os outros bailarem, de mão estendida, á espera duma esmola.

 

24.11.09

Pássaros de seda Rosa Lobato Faria VII


AnnaTree

Coisas Lidas


Primeiro não percebi esta resposta. Depois, com o tempo vim a pensar que nas sinuosas cabeças das mulheres há uma escala de valores, desfraldada no confronto com o macho. Como por exemplo, digo-te coisas desagradáveis para despertar a tua agressividade, mas digno-me olhar-te como raramente olho para alguém. Deixo-te embasbacado e confuso e retiro-me. É mais que certo que vais voltar. Finjo-me ingrata, altiva e superior, para que saibas que sou oferecida, nem deslumbrada, nem fácil.
Era um jogo sexual e eu, eterno parvo, não sabia.
(...)

Pensava que poderia compor a vida com a mesma mestria com que bordava as suas colchas.
 


 

22.11.09

...


AnnaTree

coisas lidas

Quando Simão Proença estava a ser concebido, deus chamou um dos seus colaboradores e disse-lhe:
- Põe umas asas naquela criatura, que vai precisar delas para pequenos voos.
O executivo, que era novo no cargo e estava pouco familiarizado com a linguagem metafórica de deus, pespegou-lhe dois rudimentos de osso na sétima cervical, que toda a vida causaram ao pobre Simão incómodos de varia ordem: dores de cabeça, vertigens e ate por vezes, já que a palavra de deus é irreversível, alguns vislumbres da quarta dimensao.

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