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Arvore De Letras

Coisas lidas,ouvidas,cantadas, declamadas,faladas,escritas

Arvore De Letras

Coisas lidas,ouvidas,cantadas, declamadas,faladas,escritas

04
Dez09

Pássaros de seda Rosa Lobato Faria VII

AnnaTree

Coisas Lidas
Era uma vez um catraio, disse anos atrás o tio Zebra, que cegava a mãe com tanta tropelia e a diabrura. Ia a banhar-se no rio e obrigava o seu anjo da guarda a molhar as saias para tira-lo de lá, ia a empoleirar-se no mais alto das arvores e lá tinha o anjo de bater as asas e pousa-lo em terra firme, ia para a linha do comboio e lá ficava o anjo com os canudos num palmito para pesca-lo da ventania da maquina, ia a meter-se na toca do lobo e tinha o anjo de acender a aureola para assustar o bicho, ate que um dia disse ao catraio, vê se me das descanso que eu tenho vinte mil anos e estou esfalfado da correria em que me fazes andar, vê se cresces, moço, que um anjo não é de pau. O moço pouco melhorou, andou o anjo naquela estafadeira anos e anos até que o moço cresceu e deu de se apaixonar por uma feiticeira que atraia os homens e os comia e deitava os restos ás suas hienas gargalhosas. Quando o moço ia a entrar na sua gruta o anjo perdeu a compostura e começou a dar-lhe carolos e a gritar, se entras aí não te posso valer, que essa mulher tem parte com o diabo e aqui á porta se acaba o meu poder. Mas ela saiu a espera-lo, era tão linda que até o anjo estremeceu na sua alvura, levou o moço para dentro e o pobre guardião ficou á porta a arrepelar os caracóis em desespero. Passada a noite, a feiticeira deitou fora os pedaços do moço que lhe sobraram e antes que viessem as hienas gargalhosas o anjo ali o costurou, já não era o moço de antigamente, faltava-lhe a melhor parte da carne, mas ainda mexia e disse ao anjo:
- Bendito que me protegeres e me coseres os bocados, mas em verdade te digo, se não tivesse ido lá de rojo a conhecer o diabo em forma de mulher, não te conhecia agora a bondade em forma de anjo. E seguiram o seu caminho e nunca mais se desavieram.

02
Dez09

Pássaros de seda Rosa Lobato Faria VI

AnnaTree

coisas lidas

(...)
Simão chegou a casa e sentou-se melancolicamente a jantar. Comeu bem, bebeu um pouco mais do que era habito.
Depois foi para o escritório onde a lareira arrefecia e pôs-se a espevitar o lume. Duas achas cruzadas sobre as brasas, o fole a atear a chama por debaixo, subiram labaredas felizes e ele deu – se por satisfeito. Ao erguer-se teve uma tremenda vertigem. Tentou agarra-se a qualquer coisa, mas desmaiou e caiu desamparado na pedra da lareira. Sentiu-se bem. Ficou ali deitado com a cabeça aberta, sem nenhuma dor, nenhuma mágoa, nenhuma tontura, nenhum remorso. Do pescoço finalmente livre despontaram penas iguais á do bordado. E de posse da sua prometida envergadura bateu asas. E voou.
(...) o melhor que a gente faz, sendo os peões, é por muita beleza no nosso quadrado, ora preto ora branco e tentar entender com o coração o que não entendemos com a cabeça.
(...)
Pensa no que tens e não no que não tens, ama o teu marido no teu coração, mas outros dias hão-de vir, com as suas alegrias e as suas tristezas e de todos hás-de tirar uma lição, uma inspiracao, um proveito, uma amargura ou um sorriso. Não andamos cá para compreender, mas para tentar sermos felizes.

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