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Arvore De Letras

Coisas lidas,ouvidas,cantadas, declamadas,faladas,escritas

Arvore De Letras

Coisas lidas,ouvidas,cantadas, declamadas,faladas,escritas

25.02.10

Rosa Lobato Faria (poesias)


AnnaTree

Coisas declamadas


amei-te com as palavras
com o verde ramo das palavras
e a pomba assustada do coração.

Amei-te com os olhos
O espelho doido dos olhos
E a sede inextinguível da boca.

Amei-te com a pele
As pernas e os pés
E todos os gritos que trago
Por debaixo da roupa

Amei-te com as mãos
As mesmas com que te digo adeus.

23.02.10

QUANDO FOR GRANDE, VOU SER AVÔ! POR EDUARDO SA


AnnaTree

 

Coisas lidas

(...) há avós que são pais duas vezes. São arrojados e sóbrios e casam bondade com autoridade. É verdade que são ainda melhores pais quando se tornam avós. Na verdade, os pais aprendem a ser pais á medida que são educados pelos filhos. É claro que também dão aos netos mais, ainda, do que deram aos filhos. Estes avos são muito menos egocêntricos do que os pais, E perdem a vergonha de abraçar, de se comover, ou de dizerem «gosto de ti!», e trocam uma ida ao cinema pela correria de um neto, de braços abertos, em direcção a si. E percebem que a sopa nunca é uma questão essencial das confusões de um jantar, mas o lado birrento das crianças/atropelado pelo dos pais) que, numa tontice, desatam num braço de ferro sem fim.
Há avos que tentam ser pais pela primeira vez, mas o melhor que conseguem é comportar-se como se fossem tios...um pouco mais velhos. Todas as patifarias que uma criança ainda não imaginou já eles a deixaram fazer. No fundo, comportam-se como crianças assustadas: imaginam que os melhores amigos das crianças são aqueles que exilam todos os «nãos» num pais distante ou que põem todas as regras agrilhoadas numa galáxia que fique a anos-luz da Via láctea. Estes avós - reconheço – não são fáceis. Porque instalam lá em casa democracias do proletariado, e porque disputam o amor dos pais, nalgumas circunstâncias, com as crianças. E não só o amor: também regras. (por outras palavras, sempre que os pais dizem as crianças «se tens duvida em relação a quem manda em ti, quando estamos com os avos, é o pai e a mãe»! falam para elas e para estes avos. e pior! Têm uma coligação de amuos difícil de gerir...) é claro que, muitas vezes, os pais reagem de inveja contra estes avos. Porque, pelos cuidados que dispensam aos netos, os pais não deixam de imaginar os cuidados que receberam deles. Imaginam mais do que recordam. E isso faz com que os filhos lhes tragam, de volta, os pais que não tiveram.
E há muitos avos que nem com os netos tentam ser pais pela primeira vez.
Invejam a vida das crianças, sentem que o sorriso delas exagera decibéis, acham a bondade dos pais para com elas como um prenúncio de uma guerra civil para os bons costumes, e exigem boa educação aos netos quando são os primeiros mal-educados.
Felizes os netos que têm os primeiros e os segundos (mesmo que esses sejam avós só aos bocadinhos)!

Noticias magazine 7 Ago. 2005 
 

19.02.10

Balões dos meninos velhos por Mia Couto


AnnaTree

Coisas lidas


Era o asilo dos velhos. Nele se albergava gente idosa, sem lugar nem aconchego. Velhos de todas as raças passeavam sombras, pastoreando memórias pelos obscuros recantos. No vazio de seus destinos eles se igualavam, partilhando da tremula fronteira que nos separa da imobilidade.
O asilo sofria das muitas, mesmas carências de todo o país. Talvez pior. Os velhos já nem tinham força de reclamar. Apenas resmungavam na solidão dos corredores. Vistos de fora, no longo desfile das horas, pareciam sobreviventes de um navio naufragado. O asilo era a embarcação, já sem viragem. E eles, clausura dos na derradeira praia, morriam devagarinho, tão devagar que quase não se dava conta.
Aconteceu, certa vez: os responsáveis da instituição pensaram trazer uma pequena felicidade para os asiladinhos. E aproveitando o clima de peditório geral, endereçaram carta a uma dessas organizações internacionais de beneficência que muito comparecem nas páginas de jornais. Solicitava-se apoio para a festa de natal, qualquer coisita que alegrasse os pobres velhos.
A resposta foi positiva, o donativo já vinha a caminho. Só que, por lapso da carta, os beneméritos entenderam tratar-se de uma instituição infantil e enviaram caixas com brinquedos, jogos, bonecas, balões. Vieram sandes, doces e bolos. Mas para beber só havia refrescos.
A festa mesmo assim se realizou. Os velhos, primeiro, se espantaram. Alguns, de garganta mais jovem, perguntaram: e as cervejas? Outros, de pulmão mais versado, quiseram saber do tabaco. Seus olhos desconfiados pousaram sobre os responsáveis. Mas quando notaram melhor as cores dos brinquedos, seus olhos se desenrugaram. Num instante, se espalharam risos e alegritos. Os velhos se encriaçaram, saltando o muro da idade. Uns de gatas, animavam os brinquedos. Outros enchiam os balões, soprando mais para fora que dentro, metendo mais cuspo que ar.
Os responsáveis pelo asilo não sabiam qual o sentimento que convinha á ocasião. Mas aquela idosa infantilidade já não tinha controlo. Sandes e bolos se esfumaram num repente. Era vingança de uma fome de séculos. Dos refrigerantes, mais entornados que bebidos, já nada restava. O director distribuiu sabias orientações aos subordinados:
- Telefonem á televisão, digam para mandarem os repórteres.
E os balões estouravam entre berros e gargalhadas. Quando o primeiro balão rebentou, o velhinho que o enchia desmaiou de susto. Um dos assistentes o reanimou mas ele, mal recobrou a consciência, se empertigou na cadeira de rodas: mais, quero mais puum!
Quando distribuíram os rebuçados, o alvoroço se tornou máximo. Impacientes por suas mãos tremeliqueiras não serem capazes de desembrulhar os doces, alguns velhos metiam-nos assim á boca, com papel e tudo., de repente, um dos assistentes sociais deu o alarme:
- Senhor director: estão a engolir os chuingas.
E tentaram retirar as pastilhas do trânsito. Mas os velhos resistiram heroicamente guardando-as nos esconderijos onde usualmente se protegiam da cobiça mutua.
O director da instituição se encheu de resolução, subiu na mesa e tentou umas palavras discursuosas. Foi difícil impor o silêncio, mas ao fim de alguns encontrões e ameaças, a voz do chefe se autorizou:
- Graças a solidariedade incondicional dos nossos amigos foi possível esta festa de natal, que nós chamamos de festa da família....
Mas, no vira-gira geral, o director levou um empurrinho e se despromoveu da tribuna improvisada, tombando com aparato em pleno chão. Levantou se enorme algazarra e as brincadeiras logo recomeçaram. E assim o asilo se foi salvando do tempo, até o peso escuro da noite baixar as pálpebras dos asilentos.
Então, por entre destroços de brinquedos e latas vazias, os velhos se arrastaram para seus ninhos sujos e bolorosos. O próprio director ajudou um dos inválidos, empurrando a sua cadeira de rodas. O idoso paralítico estranhou aquela ajuda de tão cimeira individualidade. Nunca sua cadeirinha tivera tanta honra. E, virando-se todo para trás, agarrou as mãos do director e suplicou:
- Senhor director, não será que podemos ter mais natais, muitas vezes cada ano?

17.02.10

QUALQUER LUZ É MELHOR QUE A NOITE ESCURA POR ANTÓNIO LOBO ANTUNES


AnnaTree

Coisas lidas

(...)
qualquer luz é melhor que a noite escura
(...)
porque motivo continuo aqui?
Há o meu filho, há a minha mulher. Será só isso?
Perguntas e perguntas sem qualquer resposta. A minha cabeça anda cheia de perguntas. Não duvidas. Não inquietações. Perguntas. A minha mãe costumava dizer-me
Quando fores mais velho hás-de compreender. Não devo ter envelhecido seja o que for dado que não compreendo nada.
Concentro-me na rua enquanto farrapos de ideias, de lembranças, me invadem e se afastam. por exemplo a minha avó a tapar os espelhos com lençóis quando alguém morria na família. Garantia que se a morte se encontrasse no espelho nunca mais se ia embora. Também não nos deixava deitar pão fora: guardava saquinhos de pão duro. Quando havia demasiados sacos e a minha mãe protestava, a minha avó desaparecia na escada com eles e voltava de mãos a abanar. Nunca ninguém soube onde escondia o pão. Faleceu com setenta e seis anos e a partir do seu falecimento a morte passou a encontrar-se á vontade nos espelhos.
Daqui a nada volto para a cama. Os lençóis mornos. Os números fosforescentes do despertador a azularem o quarto. A gravura com uma criança e um urso. Tudo coisas reais. Agradáveis. Verdadeiras. Fixo-me na gravura e as perguntas abandonaram-me a pouco e pouco. A lembrança da minha avó também. Onde escondia o pão? Já não penso nisso. Já não penso em nada.
Sinto-me resvalar devagarinho descendo, descendo, com a canção a repetir-me aos ouvidos que qualquer luz é melhor que a noite escura. Mesmo que apareça uma rapariga muito bonita não hei-de abandonar a minha vida.

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