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Arvore De Letras

Coisas lidas,ouvidas,cantadas, declamadas,faladas,escritas

Arvore De Letras

Coisas lidas,ouvidas,cantadas, declamadas,faladas,escritas

15
Fev10

Paulo Coelho recebido Internet 12/2/2000 pelo Ernesto

AnnaTree

Coisas Mailadas

O dono de um pequeno comércio, amigo do grande poeta Olavo Bilac, abordou-o na rua:
- Sr. Bilac, estou precisando vender o meu sítio, que o Senhor tão bem conhece. Poderá redigir o anúncio para o jornal?
Olavo Bilac apanhou o papel e escreveu:
"Vende-se encantadora propriedade, onde cantam os pássaros ao amanhecer no extenso arvoredo, cortada por cristalinas e marejantes águas de um ribeiro. A casa banhada pelo sol nascente oferece a sombra tranquila as tardes, na varanda".
Meses depois, topa o poeta com o homem e pergunta-lhe se havia vendido o sítio.
- Nem pensei mais nisso, disse o homem. Quando li o anúncio é que percebi a maravilha que tinha.

12
Fev10

Cartas de amor por N.Sparks de as palavras que nunca te direi

AnnaTree

Coisas Lidas

(...) Consegues perdoar-me?
Num mundo que eu raramente compreendo, existem ventos do destino que sopram quando menos esperamos. Por vezes sopram com violência de um furacão, outras vezes mal os sentimos no rosto. Mas os ventos não podem ser negados, trazendo como muitas vezes trazem um futuro impossível de ignorar. Tu, minha querida, és o vento que eu não antecipei, a rajada que soprou com mais força do que eu alguma vez imaginara possível. Tu és o meu destino
(...)
Tal como um homem que olha apenas para trás numa viagem através do país, eu ignorei o que estava a minha frente. Perdi a beleza de um nascer do sol que estava para vir, o encanto da antecipação que faz a vida valer a pena!
(...)
Agora, porém, com os meus olhos postos no futuro, vejo o teu rosto e oiço a tua voz, certo de que esse é o caminho que devo seguir. É o meu mais profundo desejo que tudo me dês mais uma oportunidade.
(...)
Durante os primeiros dias depois de teres partido, quis acreditar que poderia continuar a viver como sempre tinha vivido até então. Mas não posso. Sempre que assistia a um por do sol, pensava em ti. Sempre que passava pelo telefone, ansiava telefonar-te.
(...)
Sabia no meu coração que a minha vida nunca mais seria a mesma. Queria-te de volta, mais do que imaginara possível.
(...)
Quando acordei, sentia-me vazio e só. O sonho não me trouxe alivio. Pelo contrário, fez-me doer por dentro por causa do que eu tinha feito a nossa relação e comecei a chorar. Quando finalmente me recompus, sabia o que tinha a fazer.

10
Fev10

Poesia Sophia Mello Bryner

AnnaTree

Coisas declamadas


Era o tempo
Era o tempo das amizades visionárias
Entregues á sombra á luz á penumbra
E ao rumor mais secreto das ramagens
Era o tempo extático das luas
Quando a noite se azulava fabulosa e lenta
Era o tempo do múltiplo desejo e da paixão
Os dias como harpas ressoavam
Era o tempo de oiro das praias luzidias
Quando a fome de tudo se acendia

 

 

08
Fev10

Obesidade mental

AnnaTree

Coisas Mailadas
(Enviado por Joana salgado Obrigada )
Foi em 2010 que o prof. Andrew Oitke publicou o seu polémico livro Mental Obesity, que revolucionou os campos da educação, jornalismo e relações sociais em geral. Nessa obra, o catedrático de Antropologia em Harvard introduziu o conceito em epígrafe para descrever o que considerava o pior problema da sociedade moderna. «Há apenas algumas décadas, a Humanidade tomou consciência dos perigos do excesso de gordura física por uma alimentação desregrada. Está na altura de se notar que os nossos abusos no campo da informação e conhecimento estão a criar problemas tão ou mais sérios que esses.» Segundo o autor, «a nossa sociedade está mais atafulhada de preconceitos que de proteínas, mais intoxicada de lugares-comuns que de hidratos de carbono. As pessoas viciaram-se em estereótipos, juízos apressados, pensamentos tacanhos, condenações precipitadas. Todos têm opinião sobre tudo, mas não conhecem nada. Os cozinheiros desta magna fast food intelectual são os jornalistas e comentadores, os editores da informação e filósofos, os romancistas e realizadores de cinema. Os telejornais e telenovelas são os hamburgers do espírito, as revistas e romances são os donuts da imaginação.»
O problema central está na família e na escola. «Qualquer pai responsável sabe que os seus filhos ficarão doentes se comerem apenas doces e chocolate. Não se entende, então, como é que tantos educadores aceitam que a dieta mental das crianças seja composta por desenhos animados, videojogos e telenovelas. Com uma "alimentação intelectual" tão carregada de adrenalina, romance, violência e emoção, é normal que esses jovens nunca consigam depois uma vida saudável e equilibrada.»

04
Fev10

O FILHO DA MORTE

AnnaTree

Coisas Lidas e que deixaram marca a vermelho


(no campo de refugiados)


A mulher estava morta, em puro e total falecimento. Seu ventre inchado recortava o inteiro azul. O cadáver, adiantado, não tinha salvação. A sua volta, zunzunavam as moscas, devotas carpideiras.
Daquele corpo não se esperava senão o ultimo pudor: ele que se cobrisse, em deferência á vida. Convidasse a poeira, invocasse a noite, fizesse o que entendesse mas poupasse o olhar dos viventes. Porque, naquele lugar, já não havia força para enterrar ninguém. Os defuntos se extinguissem as suas custas. Os outros, únicos residentes, estavam demasiado ocupados em sobrevivências.
Refugiados, ali restavam, sem fazerem favor a morte. Por que não cediam, noivos que estavam ausência? Seria a recordação da esperança, saudade de um antigamente?
Talvez, por isso, eles se tiravam da visão da defunta. Os refugiados se doseavam, nas aplicações da tristeza. Estarem vivos era seu resguardado segredo. Estivessem eles no território da vida e teriam seguido a tradição: levavam a grávida á cova e, antes de a sepultarem. Lhe abriam o ventre. Nem que fosse para ganharem certeza sobre o sexo do feto. Mas agora não, todos se faziam ninguém.
E assim a morta teimava em sua solidão. Parecia assunto apenas capaz de esquecimento quando do corpo começou a emergir uma levíssima respiração. Parecia as costelas regressavam á sua imperceptível dança. O que seria?
- É inchaço de gases, digestão dos falecidos.
Os presentes se aproximaram, atraídos os pelo lampejo daquela luz luzia. Espreitaram, debicaram com os olhos. Foi quando, de entre as coxas da falecida, se viu o desfolhar de um pequeno corpo.
Os olhos se alargaram de espanto ao espanto. A coisa carnuda progredia, excrescendo como um desembrulho, ventre afora. A morta estava, creia-se, em obras de parto. A vida, em seu corpo, fazia horas extraordinárias.
Ninguém mexeu, nenhuma mão se baixou. Fosse a criança filha da vida e as todas mulheres se anunciariam tias, incontáveis seriam os peitos de amamentar. Mas aquele menino nascera da foz para a fonte, em avessa e agoirenta execução.
Nem valesse o recém-nascido declarar uma choradeira, beicinho a convidar compaixão. Os presentes já davam costas ao sucedido e se afastavam em arrastados passos. Parecia aos pés deles eram pertença antecipada do chão, ambos em recíproco afecto.
Foi quando Tazarina se desapinhou da multidão. Ela tinha um ar de a si mesmo se faltar. Se conhecia por ser cabistonta, esquizofrénica, mazelenta e tão magra que, mesmo sem roupa, sua nudez não se notava. Nunca se lhe ouvira palavra, vogalzinha que fosse. Faltava-lhe o cabelo, restando duas magras tranças caídas sobre a testa. Tazarina sempre toda tremia, sequer suas mãos ela segurava. Bamboleava de varias bandas, parecendo ter mais joelhos que pernas, um número impar e infinito de tornozelos.
Sua única ocupação era apanhar cigarras. Junto das acácias ela chamava os bichos, imitando-lhes o canto. Segurava-lhes mas orelhas, a servirem de brincos vivos e sonoros. As cigarras, diziam-se, eram elas que lhe tinham comido o cabelo.
Pois foi esta definhosa, maleijadissima mulher que se achegou ao nascido e dele se ocupou. Levantou o orfãozito por um braço, erguendo-lhe acima da cabeça. Em seu desajeito devia de magoar o pequeno. Contudo, mesmo em tal desconforto, o menino parou de chorar. E quando Tazarina lhe ofereceu o regaço, o menino procurou o seio dela, sem recheio. Á medida que dava a mama, Tazarina se ia perfilando mais e mais segura, capaz de exercer ternuras. Seu corpo ensaiava mesmo a graça de ser mulher.
Foi então: os refugiados assistiram ao que nem davam credito. Pois a pobre mulher começou a cantar. Já não se servia rouquejos. Antes debitava doces embalos. Aos poucos ela se ia enchendo de corpo, os seios se avolumavam, os olhos se maternizavam, seus cabelos se preenchiam, capazes de pentes e penteados.
O menino se saciou e encostou no colo de Tazarina o seu primeiro sorriso. De longe, alguém atirou um pano que Tazarina apanhou e usou para cobrir a criança.
Depois, ela se afastou em caminhar sereno, altiva como se houvesse estrada e o destino fosse sua exclusiva posse. A um momento, Tazarina se voltou para encarar a multidão. Nunca se viu, dizem, mãe em tanta compostura. O rosto dela merecia toda a luz. De cada lado, pendia a fulgencia de ouro. As cigarras, seus antigos brincos, se haviam convertido em metal, com sonoras cintilancias.
Refaçam-se agora as contas da humanidade habitável. Pois cada menino nascido faz nascer uma mãe de uma respectiva mulher. Assim, cada novo ser triplica o número de viventes. Um filho, afinal, é que dá luz a mãe.