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Arvore De Letras

Coisas lidas,ouvidas,cantadas, declamadas,faladas,escritas

Arvore De Letras

Coisas lidas,ouvidas,cantadas, declamadas,faladas,escritas

29
Jul10

A Gaivota e Eu

AnnaTree

coisas lidas

 

A gaivota continua parada e sozinha, á beira-mar na contemplação de qualquer ponto longínquo que me escapa.

Recosto-me na cadeira dura e desconjuntada e bebo um golo de cerveja amolecida e sem vida, de gosto duvidoso. Acumulo culpas em cada minuto que passa-a casa, o jantar, as crianças... – mas não me vou embora enquanto a gaivota continuar ali.

(...)

Já ninguém brinca na praia abandonada

(...)

A gaivota passeia agora, lenta, serena e magnífica e eu não consigo já distinguir a forma que se confunde com a imagem que a areia transformada em espelho, me dá.

 Do seu passeio solitário. Estamos sozinhas as duas, únicas habitantes de um mundo que durante o dia vibrou de movimento e ruídos, um mundo sem canção do mar, sem horizonte sem essa orla de espuma em que a gaivota e eu procuramos agora, atentas e insistentes, nem eu sei o que... E, de repente, torna-se imperioso e urgente que qualquer resposta surja, qualquer razão para que o dia que passou quente, barulhento, cansativo, para a noite que se aproxima em que se repetirão, como todas as noites, o mesmo jantar acompanhado das mesmas graças da véspera.

(...)

Se a gaivota não parte é que é ali que eu devo procurar a resposta á pergunta que ainda não fiz. Se a gaivota permanece é que alguma coisa está para acontecer e nesse universo líquido e negro que agora me rodeia, vai concerteza nascer, um ponto de luz, de que neste momento exacto, preciso desesperadamente. Por uns segundos apenas. É rápida e fugaz essa nossa necessidade do infinito e do imenso. Se espero, não é porque acredite que a gaivota me traga alguma resposta que eu não tenha já, ou que posso um dia vir a querer. Se continuo aqui não é pela gaivota, teimosa e irreal que me promete talvez, apenas com a permanência da sua presença um retorno ás origens de que eu já não preciso e que não aceito.

Se estou aqui, sozinha culpada e indecisa, é porque o imenso cansaço de ser quem sou e fazer o que devo me impede de partir antes que alguém, alguma coisa, o grande pássaro monótono e repetitivo, me dê boas razões para isso. Razões que eu esquecerei no momento seguinte, quando voltar a vestir a pele de todos os dias.

E que importa afinal?

O que conta realmente é este momento de solidão único e imenso em que, no cair da noite sobre a praia, eu e essa gaivota que já nem consigo ver, vivemos. Como uma gota de infinito na infinita pequenez dos nossos dias...

 

Mª Faria Blanc

 

27
Jul10

BREVE DICIONARIO DE VERÃO POR PEDRO ROLO DUARTE

AnnaTree

 

 

Coisas lidas

 

 (...)

As coisas não são o que têm de ser, são o que delas quisermos fazer. Enquanto estamos vivos só nos resta acreditar que nos encontramos, que podemos transformar as nossas vidas, é que tudo depende só de nós e da nossa vontade. Descansamos vezes de mais no conformismo de um fatalismo perigoso e hoje apetece-me fechar a noite a pensar, que os que não morrem se encontram – isto é, que tudo está em aberto enquanto estamos vivos. Quem fecha portas e abre janelas, na nossa vida sou eu. Pode não ser verdade, mas hoje quero acreditar que é só esta a verdade que interessava.

(...)
leio na imprensa que o festival das dunas de S. Jacinto se destina, pelo programa musical que apresenta, a um público mais velho, diante de outros festivais noutros tempos, e que quer eventualmente reviver essa juventude entretanto perdida. Parece que a primeira edição constituiu um êxito. Fico a pensar no conceito. Passaram vinte anos desde os tempos em que eu acharia vagamente graça á ideia de ir a um festival de música. Mas, se organizam um para a minha idade, pergunto: há copos de vidro. Há gelo em quantidade? Há «Jameson»? Os pregos são com bife de lombo? As cadeiras são cómodas? O pão das sanduíches é cozido em forno de lenha? As imperiais chegam ao copo a 6º de temperatura? Há limão na coca-cola? Têm ar condicionado nas tendas? E há chapéus-de-sol sem anúncios de cerveja? Um festival de música para a minha idade teria de ser assim, de preferência com relva e espreguiçadeiras....

 

 

 

 

 

23
Jul10

Carta ao Vaticano por Hugo Gonçalves jornal i

AnnaTree

Coisas Lidas

 

 

Conseguiram agora vossas excelências que a ordenação de mulheres é uma das ofensas mais graves e que merece excomunhão. No documento enviado a todos os bispos incluem a mulher ordenada na mesma lista de criminosos que o padre pedófilo. Ter uma vagina enquanto se dá a missa torna-se tão condenável como violentar crianças. Bem sabemos que vossas excelências embirraram com a mulher desde o inicio – a costeleta do macho, a mordedura da fruta com o bicho da curiosidade, a instigadora da desgraça masculina. Daí em diante a mulher ou é santa ou é para a fogueira. Esse vosso medinho das fêmeas, essa repressão nas virilhas, essa pulsão para controlar e proibir, tudo isso corrompe mais que um trio debochado numa cama de água. Vossas excelências deviam sair mais de casa. Conheçam mulheres, falem com elas, observem como os gestos prosaicos se tornam imensos na beleza e na bondade. Olhem para o cabelo de morango ruivo da Rita Hayworth, para a graciosidade de um pulso, para as mãos das vossas mães, que, embora amachucadas pela velhice, são ainda a vossa casa. Oiçam a viciosa Billie Holiday, cobicem o sorriso menor de idade de Mariel Hemingway no filme «Manhattan», admirem a mulher que passa na rua com espanto e gratidão, jamais com pedras, baba ou amargura. Esqueçam os medos, a mordaça e o bairro de nuvens celestiais e vida eterna, porque aquilo que teremos de mais próximo está numa só frase, numa mecha de cabelo, num ataque de cócegas, no lençol branco lançado sobre a cama, no mais importante mistério da fé: elas.

21
Jul10

pão de nozes receita Mom

AnnaTree

 

 

 

Coisas  “Receitadas”

 

Misturar:2chávema de( chá) farinha trigo, 1 chávena de (chá) de leite, 1 chávena de (chá) de açúcar, 1 chávena de (Chá) de miolo de nozes aos bocados, 1 ovo, 1 colher (chá) de fermento em pó.

Levar ao forno. Depois de cozido deixar arrefecer e cortar fatias fininhas (com faca eléctrica se tiver)e barrar com manteiga(de verdade)

Bom apetite{#emotions_dlg.tongue}

 

19
Jul10

OS POBREZINHOS POR ANTÓNIO LOBO ANTUNES

AnnaTree

 

Coisas  Lidas

 

 

Na minha família os animais domésticos não eram cães nem gatos nem pássaros. Na minha família os animais domésticos eram os pobres. Cada uma das minhas tias tinha o seu pobre pessoal e intransmissível, que vinha a casa dos meus avós uma vez por semana, buscar com um sorriso agradecido a ração de roupa e comida. Os pobres, para além de serem obviamente pobres[...]deviam possuir outras características imprescindíveis: irem á missa, baptizarem os filhos, não andarem bêbados e sobretudo manterem-se orgulhosamente fiéis á tia a quem pertenciam parece que ainda estou a ver um homem de sumptuosos farrapos, parecido com o Tolstoi até na barba, responder ofendido e soberbo a uma prima distraída que insistia em oferecer-lhe uma camisola que nenhum de nós queria.

- eu não sou o seu pobre eu sou o pobre da menina Teresinha.

[...]

o pobre da minha tia Carlota, por exemplo, foi proibido de entrar em casa dos meus avós porque quando ela lhe meteu dez tostões na palma , recomendando, maternal, preocupada com a saúde do seu animal domestico.

- agora veja lá não gaste tudo em vinho o atrevido lhe respondeu malcriadissimo

- não minha senhora vou comprar um Alfa Romeo

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