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Arvore De Letras

Coisas lidas,ouvidas,cantadas, declamadas,faladas,escritas

Arvore De Letras

Coisas lidas,ouvidas,cantadas, declamadas,faladas,escritas

10
Ago10

A FERRO E FOGO Escrito POR RITA FERRO

AnnaTree

 

Coisas lidas

[...]

Vou revelar te de uma vez por todas como ama uma mulher. Não é fácil ignorar tanta coisa para te explicar a essência, mas farei um esforço. É claro que há muitas de nós que não amam assim que há muitas para quem o amor não é um jogo de poder, mas uma cesta de rosas. Essas: a quem Cristo falou ao ouvido; mas a maioria das mulheres não passa de um resultado, de um reflexo de uma cicatriz infectada do sofrimento das mães. Ou da ultima vez que amaram.

Quando se tem confiança ancestral como a dos homens em si mesmos, então sim: pode amar-se sem restrições. Nós, infelizmente, não. Foram séculos demais a levar tareias a chorar para dentro. Gestos grandes, relações cerebrais e cautelosas. Ai tens: a primeira lição é que, para a maioria das mulheres, o amor é sim, um jogo de poder, um jogo de poder não para ganharmos, mas para não perdermos

[...]

Segunda lição: quando a mulher encontra «o homem da sua vida» a mulher já ama há que tempos; a mulher ama mais e com mais ardor porque o seu deficit é antigo, e ama qualquer coisa uma casa, um filho, um vestido, um homem porque tem necessidade de melhor ou pior, ir debelando o excedente, assim, para muitas, o amor não é mais do que fogo nem o homem mais do que lenha: mata ou capim arde tudo o que estiver ao lado.

Terceira lição: á retaliação, a essa retaliação inconsciente em nome das mães e de nós mesmas, chama o homem coquetaria, ou, admitindo que o português é de facto uma língua expressiva, cabritice

[...]

Fica a saber: no nosso coração o amor e o medo trabalham em equipa

Mas nós também não gostamos disto: viver simultaneamente a amar, a defender a pele e a ajustar contas é uma coisa cansativa, mas é assim que a gente tem de viver, compreendes? A despertar em vós, continuamente, o desejo de nos conservarem.

Quarta lição: a isto, a que tantos chamam perversidade, dever-se-ia em rigor chamar prudência não significa que a gente não vos ame mas que a coisa que mais desejaríamos no mundo era poder, tal como vocês, amar incondicionalmente e não perder com isso

Desculpa se te estou a maçar com isto se te estou a maçar, isso é mais uma prova de que posso ter razão; mas lembro-me sempre daquela mulher que se vendia por tuta e meia á frente do meu liceu e a quem uma vez não resisti a perguntar por que razão desistira pensas que se ralou? Respondeu-me muito simplesmente que desde os seis anos a observar o pai, já não ia em fantasias.

06
Ago10

O AMOR DOS ANIMAIS POR ANTÓNIO LOBO ANTUNES

AnnaTree

Coisas lidas

 

Mandaram-no á consulta do hospital Miguel Bombarda só porque ele gostava de animais. Tinha cinquenta anos, era reformado, vivia sozinho, e a família inquietava-se com aquele amor pelos bichos.

- O doutor acha normal que os meus irmãos se preocupem com isso? O doutor por exemplo, não aprecia cães?

Vestia fato completo, gravata, trazia uma pasta no sovaco, o cabelo com o traço da escova nas madeixas, pedia licença para fumar

- Cença

Tirava cigarros do estojo de plástico a fingir tartaruga, batia-os no verniz do polegar

- Eu gosto de animais e os meus irmãos de volta de mim, olha que tens de ir á consulta do Bombarda Fernando. Com franqueza diga-me cá: acha normal?

(...)

- Desde quando, senhores, é que ter afecto pelos animais é ser maluco?

(...)

E preparava-me para lhe dar razão quando ele, de cigarro no ar á procura de cinzeiro, me perguntou, já cúmplice, a sentir-me do seu lado, de olhinho a rasar a pálpebra sabida

- Aposto que o doutor é como eu aposto que ao doutor também lhe agrada conversar com tigres

Eu desenhava círculos distraído num bloco, longe dali, mas os tigres trouxeram-me um tudo nada de volta

- Tigres?

Encontrou um pratinho de folha debaixo das receitas, limpou a brasa com a unha do mínimo, soprou o fumo em argolas que se metiam umas dentro das outras, proeza que eu adoraria saber fazer e nunca fui capaz: o melhor que consigo é engasgar-me de tosse.

- Tigres?

- Tigres. Aos domingos vou ao jardim zoológico conversar com eles. Anteontem quando eu ia a entrar na jaula puxaram-me á força para fora.

Como me ensinaram que o medico tem de ser paciente acabei o círculo do bloco, aperfeiçoei-o e comecei outro.

(...)

- Conversar com os tigres

A gravata empertigou-se-lhe de desdém

- Claro. Ou queria que eu conversasse com os hipopótamos que não têm interesse nenhum? Pessoalmente simpatizo com os hipopótamos como simpatizo com pessoas gordas estendidas de bruços numa piscina de crianças com um filho também gordo, já com cara de velho, ao lado. O círculo, é evidente, saiu-me tortíssimo.

- Adoro hipopótamos.

O amigo dos animais levantou-se ultrajado, de gravata a arder de indignação

- Você atreve-se a dizer que os hipopótamos são melhores que os tigres?

Tentei melhorar a bolinha: a esferográfica tremia, ficou péssimo. Como é que alguém se atreve a diminuir os hipopótamos á minha frente?

- Muito melhores

- Piores

- Muito melhores

Devíamos gritar ambos altíssimo dado que um enfermeiro entrou a correr no gabinete, a seguir um medico, outro enfermeiro depois a recomendar

- Calma, calma

Mais um sujeito de bata com uma seringa e uma camisola de forças. O dos tigres e eu estamos aqui internados há dois meses e odiamo-nos. Não sei o que lhe vão fazer mas a mim prometeram dar-me alta para a semana na condição de não exercer medicina.

Quero lá saber da medicina: o que eu quero é ir direitinho ao jardim zoológico com um molho de cenouras no braço, dirigir-me ao tanque e ficar ali dias seguidos, a falarmos da vida!

04
Ago10

O DESESPERO DA PIEDADE POR VINÍCIUS DE MORAES

AnnaTree

Coisas lidas

 

Meu Senhor, tende piedade dos que andam de bonde

E sonham no longo percurso com automóveis, apartamentos...

 

[...]

Não esqueçais também em vossa piedade os pobres que enriqueceram

E para quem o suicídio ainda é a mais doce solução

Mas tende realmente piedade dos ricos que empobreceram

E tornaram-se heróicos e á santa pobreza dão um ar de grandeza

 

[...]

 

Tende piedade dos homens públicos e em particular dos políticos

Pela sua fala fácil, olhar brilhante e segurança dos gestos de mão

Mas tende mais piedade, dos seus criados, próximos e parentes

Fazei, Senhor, com que deles não saiam políticos também.

 

E no longo capitulo das mulheres

Senhor, tende piedade das mulheres

Castigai minha alma, mas tende piedade das mulheres

Enlouquecei meu espírito, mas tende piedade das mulheres

Ulcerai minha carne, mas tende piedade das mulheres!

 

Tende piedade da moça feia que serve na vida

De casa, comida e roupa lavada de moça bonita

Mas tende mais piedade ainda da moça bonita

Que o homem molesta - que o homem não presta, meu Deus!

 

Tende piedade da mulher no instante do parto

Onde ela é como a água explodindo em convulsão

Onde ela é como a terra vomitando cólera

Onde ela é como a lua parindo a desilusão

 

Tende piedade das mulheres desquitadas

Porque nelas se refaz misteriosamente a virgindade

Mas tende piedade também das mulheres casadas

Que se sacrificam esse simplificam a troco de nada

 

Tende piedade, Senhor, das mulheres chamadas vagabundas

Que são desgraçadas e são exploradas e são infecundas

Mas que vendem barato muito instante de esquecimento

E em paga o homem mata com a navalha, com o fogo , com o veneno

 

[...]

Tende piedade, Senhor, de todas as mulheres

Que ninguém mais merece tanto amor e amizade

Que ninguém mais deseja tanto poesia e sinceridade

Que ninguém mais precisa tanto alegria e serenidade

 

Tende infinita piedade delas, Senhor que são puras

Que são crianças e são trágicas e são belas

Que caminham ao sopro dos ventos e que pecam

E que têm a única emoção da vida nelas

[...]

Tende piedade, Senhor, das santas mulheres

Dos meninos velhos, dos homens humilhados sede enfim

 

Piedoso com todos, que tudo merece piedade

E se piedade vos sobrar, Senhor, tende piedade de mim

 

02
Ago10

José e o Menino de Possidónio Cachapata

AnnaTree

 

Coisas lidas

 

 

 

O meu pai era carpinteiro. E franzia a testa nas tardes de trabalho em que o almoço pesado, de cozido ou de comidas com pão e peixes do rio, lhe ondulava o estômago, em azias. Havia na sua barraca um cheiro a serradura, um aroma de pó espesso, granulado, até! Que se metia pelas narinas nos entardeceres de verão. E era nessa estacão que ele mais se concentrava nos seus caixotes de madeira, que um dia seriam móveis e se pendurariam nas casas de outros operários

(…)

Raramente tinham cores; eram mais vernizes, de cheiros mais intensos que o do pó. Resmungava contrariado sempre lhe mandavam pintar as madeiras, porque lhe parecia isto um supremo ultraje á nobreza dos materiais. Percebia pouco de nobreza o meu pai. Vestia-se de pobre a maior parte do tempo. Excepto nos dias de feira, em que saia vestido de pobre com roupa nova. Mas achava que as madeiras tinham sido feitas para se exporem. Nuas só com um ligeiro simo vestido de verniz incolor. O meu pai assobiava todo o dia, quando trabalhava na sua barraca carpintaria. Musicas antigas que eu nunca tinha ouvido por outra boca que não fosse a sua. E, de vez em quando, cantava. Num registo que se lhe deveria ter inscrito quando tinha 16 anos e que ele tomara como aquele que queria guardar para a vida. Nunca consegui assobiar como ele. E houve um tempo em que tive pena. Era no tempo em que a sua bicicleta tinha rodas descomunais e ele era capaz de me levantar com um braço. O meu pai não conhecia o som da frase: «gosto de ti» preferi usar a expressão «só quero ajudar». E achava que isso chegava. Que nessa entrega; nessa devoção absoluta ia a imagem aberta do seu amor. Não ia. E a gente tinha pena, sem perceber porque. Porque tinha ele este coração utilitário de artifício. Viajamos um dia, os dois. Ele, na sua bicicleta de gigante. Eu, nas minhas duas rodinhas de cor azul. Atravessamos estradas de terra, coutadas de caça onde a sombra dos guardas pairava ameaçadora e levava o meu progenitor a grandes pensamentos sobre que historia contar se fossemos apanhados em território índio. Até que chegamos a uma lagoa minúscula, rodeada de arame farpado e de árvores espessas que estendiam os ramos nos reflexos líquidos. A areia era branca e brilhava ao sol, por baixo do manto aquoso. E fomos os dois, falando pouco, porque não sabíamos o que dizer. Como não sabem o que dizer aqueles que nunca falam entre si. Fingimos que pescámos. Eu fingi que podia nadar naquelas águas baixas. Os dois cuidadosos para que o lodo – que sabíamos existir debaixo das areias brancas se não levantasse turvando as águas claras e felizes.

Eram quase seis horas, naquele dia de verão, quando ele disse que regressássemos. Fê-lo com pena. E eu também. Assim recebi a notícia. Regressamos pelos campos, lavrados em tempos e ainda cobertos de sulcos, que se levantavam por debaixo das rodas. Ele puxou-me o guiador a maior parte do tempo, o que era tarefa difícil, porque implicava dobrar-se na minha direcção. E, com os seus braços fortes de touro, chegou mesmo a elevá-la, acima da cabeça e a deposita- la do outro lado de uma cerca de arame farpado, antes d e fazer o mesmo com o meu corpo frágil.

Nos entardeceres de verão, cheirava a madeiras exóticas, na barraca carpintaria do meu pai. E eu entretinha-me a seus pés, enquanto ele fazia cálculos sobre as dimensões de um móvel de cozinha.

In DNA

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