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Arvore De Letras

Coisas lidas,ouvidas,cantadas, declamadas,faladas,escritas

Arvore De Letras

Coisas lidas,ouvidas,cantadas, declamadas,faladas,escritas

30.12.10

Na tal noite por Mia Couto


AnnaTree

Coisas Lidas

 

Vinte e cinco, natal. O quissimusse, como se diz aqui. Mariazinha, a porta, espera a anual visita de Sidónio vidas, o episódico esposo. Ei-lo agora, em aparatosa aparição, santificado seja ele e mais a sua vaidosa viatura. Ele nunca tanto chegara. Fazia como a chuva procede com as fontes secas: inundava após ausência.

Mariazinha parece viúva, alinhada com os seus dois filhos, na entrada da porta. Ela contempla o volumoso Sidónio, parecendo uma gelatina a ser deslocada do fundo da taça. Mariazinha atrapalhada, segreda aos miúdos:

- Já sabem: ao sinal combinado, vocês desaparecem das vistas!

Os filhos rabeiam o olho na mãe, irreconhecendo-a: vestido cheiroso, penteado de cabeleireiro, unhas de manicure. E receiam que, uma vez mais, seja mais desencontro que encontro. Havia sido assim desde o princípio: a noite sem núpcias, o esposo cadente, com juramento sem prazo de viabilidade.

Os miúdos já sabiam: o pai trabalhava longe em pais muitíssimo estrangeiro, a distância que só lhe dava  conveniência visitar a família na noite de vinte e cinco. Cada ano, o pai chegava com os seus carros sempre novos.

O remoto controlo accionado, num blip blip magico e, da bagageira, como em atrelado de trenó, saltavam os presentes, alegria aos molhos.

Neste natal, mais uma vez, muda o carro e toca mesmo. O pai faz abrir a mala do automóvel e de lá espreitam embrulhos e celofanes. São mais os enfeites que os conteúdos, mas não e assim mesmo a festa: feita de ilusão e brilhos maiores que as substancias? Os miúdos, algazurrando, precipitam-se sobre os presentes. E ali ficam, no quintal, entretidos com as lembranças.

Sidónio da entrada na sala em pose de governante. A esposa segue-o, diminuta, protocolar. O homem engrossa as vistas pela sala. Sobre o armário um improvisado presépio. Só as palhinhas do menino nascente são genuínas. O resto é invenção desenrascada, tampinha de coca-cola, arames e restos de lixos.

O marido senta-se a mesa, refastelado, dono. Vai desapertando a fivela do cinto para, em prevenção, se valer por dois. Mariazinha assoma a porta da rua e com um estalar de dedos, reafirma a ordem: os filhos que se mantenham longe. Aquele momento era exclusivo dos dois, a noite de todas as noites.

- Fritei um peixe, aquele que você morre pela boca

Sidónio estala os dentes na língua e faz passar as espinhas pelos beiços. A esposa comendo de pé, prato no apoio da mão, vai olhando o marido. Resplandecendo no pescoço, o fio de ouro, ambos cada vez mais gordos. O ouro parece autentico. Falsificado é o portador, sem marca de origem, nem garantia de proveniência. Sempre que vem, ele exibe acrescido fios e anéis, ornamentos duradoiros. Parta que Mariazinha não pense que ele foi cavalo e regressa burro.

- Cuidado marido, cuidado a espinha na goela.

- Goela tem o pobre - emenda sidónio

- Gente como eu tem garganta, esta a perceber?

Sidónio vidas arrota a marcar parágrafo na refeição. Mais calado que um deus, distante, confiante. Toca o telemóvel, altissonoro, ele grunhe silabas de nenhum idioma. E desliga como se desligasse não o aparelho, mas o interlocutor.

- Há sobremesa? Um docinho?

-estava com falta de açúcar, mas o vizinho, o Alves...

-pois e, açúcar com gentil cortesia do vizinho Alves. O tom e irónico, magoado, suspeitoso. O vizinho Alves estava se avizinhando de mais?

-Mariazinha, você me esta a ser fiel?

- Eu? Sidónio, eu.

Ela, desencontrada das palavras, derrama-se, chorosa. Podia ele, de humano direito, duvidar?

- Cale- se mulher. Não diga nada

Que aquela comoção lhe aflige a digestão sidónio vê se obedecido. Passa a mão pela barriga, com a mesma ternura com que as grávidas acariciam o vindouro.

- Não quero esse doce.

-mas, sidónio, fiz para si, com tanto carinho----

- Não me apetece, pronto.

Mariazinha recolhe o prato, junto com a lágrima. Na cozinha assoa se, olhando pelo quebrado vidro da janela a luxuosa viatura do marido. Quem vai a guerra da e leva, se diz. Mas ela tinha ido a paz e só tinha levado. Ali estava, o Mercedes, cheio de auto-suficiência. Em vez de inveja, porem, lhe vem um alegre preenchimento. Como se o automóvel fosse propriedade sua e ela, alguma vez, viesse a espampanar suas larguezas nos estofos.

Regressa a sala e matem se encostada ao armário. O móvel abana e tombam os bonequinhos. Cristo desaba do berço. Sidónio, pela primeira vez, concede olhar a esposa. E confirma o ditado: que o homem é tão velho quanto a sua idade e a mulher e tão velha quanto parece. Olha as mãos dela, nota o verniz. Mariazinha esgazeia, as pressas recolhendo aquela vaidade.

- Pintei hoje de manha, pedi a vizinha uma tintinha emprestada.

- Sou capaz de ter que rever essa mesada.

- Ah, a mesada, já a dez meses que você não.

- Tenho prioridades, Mariazinha.

Finda a refeição, descalçados os sapatos, sidónio escomprida se na cadeira e fecha os olhos, todo atento aos seus próprios interiores. Sucede então, o imprevisto. A mulher subitamente dengosa, se debruça sobre ele, aumentando a visão das suas carnes.

- Me esta a apetecer dançar.

- Não quer ligar essa musiquinha, marido?

- Qual musica?

 

- Essa do seu telemóvel.

 Sidónio levanta se, arrastado. Os olhos dela ainda rebrilham esperançosos. Mas não e para ela que ele se ergue. São horas, esta de abalada. A porta ele ainda requer em sussurro:

- Para o ano você volta?

- Não sei, mulher, não sei, você sabe, a coisa não esta fácil...

- Mas você pode trazer os seus outros... Os irmãos dos seus filhos. E pode trazer. Ela também, Eu não me importo, sidónio.

Mas o homem já não esta na conversa. Chama os filhos para a despedida e ruma para o carro. Enquanto ele se espreme para entrar na viatura Mariazinha comenta para os miúdos:

- Aquele e um homem bom que ainda há nesse mundo.

E o mais novo, apertando a mão da mãe:

- O pai e aquele que chamam de pai natal?

 Riso triste vai esvanecendo no rosto da mãe, enquanto sidónio desaparece no fundo escuro da estrada. Mãe e filhos ficam contemplando a noite, como que esquecidos que havia casa para entrar. De súbito o mais velho sacode a saia da mãe e aponta:

_ Veja mãe, esta a chegar o vizinho, o Sr. Alves.

Mariazinha apressadamente, compõe o vestido e sorriso e murmura:

- Já sabem meninos: ao sinal combinado, vocês desaparecem das vistas.

28.12.10

Cão como nós De Manuel alegre


AnnaTree

COISAS LIDAS

(o melro está outra vez na praça João rio onde costumas passear, deitaram abaixo o salgueiro onde ele fazia o ninho, não só o dele, mas todos os outros que estavam no passeio, alguns moradores queixaram-se do pólen que lhes caia sobre os carros, é gente que dobra o pijaminha, não gosta de árvores, nem de melros, nem de cães, a propósito, escusas de baixar o pescoço para eu te pôr a trela, não vou descer contigo ao jardim levando pela mão uma trela sem nada ou, pelo menos, com um cão que só eu pressinto)

24.12.10

bom natal 2010


AnnaTree

Poesia de natal

O amor é uma dança de alegria,

Uma elevada celebração de vida.

Uma palavra de bondade, é como uma.

Gota de água que atravessada por um

Raio de sol.

Nós, somos as pedras de uma mesma jóia.

Cada homem é um dia de festa!

Dê aquilo que gostaria de receber, e.

O espírito da natureza enche-lo-á de

Oferendas, em cada dia da sua vida!

Feliz natal

 

22.12.10

ALVORECER


AnnaTree

 

...QUE AO FIM DA JORNADA O VOSSO CANSAÇO

SEJA AMOR EM LAÇOS QUE A VIDA TEÇA

QUE A MADRUGADA INVEJE O VOSSO ABRAÇO

E NESSE ABRAÇO A CHAMA PERMANEÇA.

 

Ana Briz

20.12.10

coisas da minha neta carolinaIV


AnnaTree

 

Coisas da minha família

 

Esta aconteceu á dias. O João foi almoçar com a Carolina ao Mc Donalds. Ela queria beber sumo de laranja mas o João disse-lhe que o Sr. Doutor disse que não podia (porque a Carolina é muito achacada a ter infecções urinárias e a laranja piora muito). Ela lá se conformou e foi para a mesa com o pai. Ao lado estava um casal de velhinhos que observavam atentamente a carolina. Nisto a Carolina pedinchou ao pai se ele a deixava beber mais um bocadinho de sumo de laranja e o João condescendeu. Até que perante o exagero dela lhe disse: «pára. Já chega. Depois faz-te doer o pipi». E ela continuou a beber o sumo dela. Como o João estivesse a bebericar o sumo de laranja ela olhou para ele e disse-lhe:» Olha que vais ficar com dores na pilinha!»Os velhinhos ficaram a olhar para o Joao a sorrirem e ele riu também bem embaraçado

(2010)

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