Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Arvore De Letras

Coisas lidas,ouvidas,cantadas, declamadas,faladas,escritas

Arvore De Letras

Coisas lidas,ouvidas,cantadas, declamadas,faladas,escritas

25
Fev11

ADÃO E EVA JOSÉ RÉGIO

AnnaTree

Coisas declamadas

 

Olhamo-nos um dia,

E cada um de nós sonhou que achara

O par que a alma e a carne lhe pedia

 

E cada um de nós sonhou que o achara...

 

E entre nós dois

Se deu, depois, o caso da maçã e da serpente,

...se deu, se dará continuamente:

[...]

e em que furor sagrado

os nossos corpos nus e desejosos

como serpentes brancas se enroscaram,

tentando ser um só!

 

Ó abraços que os braços apertaram,

Dedos que se misturaram!

 

Assim toda te deste,

E assim todo me dei:

 

E enquanto as nossas bocas se esmagavam,

E as doces curvas do teu corpo se ajustavam

ás linhas fortes do meu,

os nossos olhos muito perto, imensos

 

no desespero desse abraço mudo,

confessaram-se tudo!

... enquanto nós pairávamos, suspensos

entre a terra e o céu.

 

Assim as almas se entregaram,

Como os corpos se tinham entregado

Assim duas metades se amoldaram

 

E assim Adão e Eva se conheceram:

 

Tu conheceste a força dos meus pulsos

A miséria do meu ser,

Os recantos da minha humanidade

A grandeza do meu amor cruel,

 

Eu os teus nervos convulsos,

O teu poder

A tua fragilidade,

Os sinais da tua pele,

O gosto do teu sangue doce...

 

Depois....

 

Depois o quê amor? Depois mais nada,

- Que Jeová não sabe perdoar!

 

O Arcanjo entre nós dois abriria a longa espada...

Continuamos a ser dois,

E nunca nos pudemos penetrar!

 

23
Fev11

Geração Y

AnnaTree

Coisas Lidas

 

Geração Y, também chamada geração do milénio ou geração da Internet, é um conceito em Sociologia que se refere, segundo alguns autores, à corte dos nascidos após 1980 e, segundo outros, de meados da década de 1970 até meados da década de 1990, sendo sucedida pela geração Z

Essa geração desenvolveu-se numa época de grandes avanços tecnológicos e prosperidade económica. Os pais, não querendo repetir o abandono das gerações anteriores, encheram-nos de presentes, atenções e actividades, fomentando a auto-estima de seus filhos. Eles cresceram vivendo em acção, estimulados por actividades, fazendo tarefas múltiplas. Acostumados a conseguirem o que querem, não se sujeitam às tarefas subalternas de início de carreira e lutam por salários ambiciosos desde cedo. Uma de suas características actuais é a utilização de aparelhos de telefonia celular para muitas outras finalidades além de apenas fazer e receber ligações como é característico das gerações anteriores

Enquanto grupo crescente, tem se tornado o público-alvo das ofertas de novos serviços e na difusão de novas tecnologia . As empresas desses segmentos visam a atender essa nova geração de consumidores, que constitui um público exigente e ávido por inovações. Preocupados com o meio ambiente e as causas sociai , têm um ponto de vista diferente das gerações anteriores, que viveram épocas de guerras e desemprego. Com o mundo praticamente estável e mais favorável à liberdade de expressão, esses jovens conseguiram se preocupar com valores antes menos prioritários como vida pessoal, bem-estar e enriquecimento pessoal.

 

21
Fev11

Geração gemini

AnnaTree

 

Coisas cantadas

 

Sou da geração das fardas verdes

Da mais triste e negra mocidade

Professores de régua e palmatória

Deprimindo no berço a vontade

Mas há mais

Sou da geração corta o cabelo

Sou da geração do desemprego

Vão é trabalhar seus mandriões

São da geração da mulher que acordou

Da mulher com voz para falar

No meu tempo suas desenvergonhadas o lugar da mulher era no lar

Mas há mais

Sou da geração feita de ganga

Sou da geração João-ninguém

Que andou na guerra ouviu dizer

 A tropa só te vai é fazer bem

mas há mais sou da geração cocaína

uns drogados é o que eles são

Coca-cola e uma aspirina há que ter em conta a inflação

Sou da geração da mulher que aprendeu a lutar pela sua liberdade

Umas desgraçadas é o que elas são

Vão é praticar mais caridade

Mas há mais

Sou da geração que não tem medo

Sou da geração que faz amor

Como sempre todos o fizeram mas vem tentar falso pudor

Mas há mais

Podem por os rótulos que querem

nesta nossa velha geração

geração ….. não somos

nós somos a própria revolução

somos a geração feita de guerra

 

18
Fev11

Geração 'Parva"

AnnaTree

 

Coisas Lidas

Sou da geração sem remuneração
e não me incomoda esta condição.
Que parva que eu sou!
Porque isto está mal e vai continuar,
já é uma sorte eu poder estagiar.
...Que parva que eu sou!
E fico a pensar,
que mundo tão parvo
onde para ser escravo é preciso estudar.

Sou da geração ‘casinha dos pais’,
se já tenho tudo, pra quê querer mais?
Que parva que eu sou
Filhos, maridos, estou sempre a adiar
e ainda me falta o carro pagar
Que parva que eu sou!
E fico a pensar,
que mundo tão parvo
onde para ser escravo é preciso estudar.

Sou da geração ‘vou queixar-me pra quê?’
Há alguém bem pior do que eu na TV.
Que parva que eu sou!
Sou da geração ‘eu já não posso mais!’
que esta situação dura há tempo demais
E parva não sou!
E fico a pensar,
que mundo tão parvo
onde para ser escravo é preciso estudar.

 

16
Fev11

OS OLHOS MORTOS por mia couto o fio das missangas(parte II)

AnnaTree

Coisas Lidas

 

A semana passada foi quando o raspão se deu. Venâncio ficou furioso quando descobriu, em estilhaços, a emoldurada fotografia na nossa sala. Era um retrato antigo, parecia estar ali mesmo antes de haver uma parede. Nele figurava Venâncio, ainda magro e moço, posando na nossa varanda. Pelo olhar se via que sempre fora dono e patrão. Surjo atrás, desfocada, esquecida. Sem pertença nem presença.

Ao ver a moldura quebrada e os vidros ainda espalhados no chão, Venâncio me golpeou com inusitada força, pontapés cruzaram o escuro do quarto entre gritos meus:

- Na barriga não, na barriga não!

Depois, quando ele amainou, irrompi-lhe o choro e me soaram serenas e doces as palavras:

- Vê o sangue, Venâncio? Eu estava grávida….

- Grávida, você?! Com uma idade dessas?

Arrumei umas poucas roupas e fui a a pé, para o posto de socorro. Era manhã, fazia chuva e caia o sol. Algures, por um aí, deveria fantasiar um arco-íris. Mas eu estava cega para fantasias. Meu filho, esse primeiro que haveria de nascer, estava morto dentro de mim. As minhas mãos, ingénuas, ainda amparavam o ventre como se ele continuasse lá, enroscado grão de futuro. No passeio público, privadamente tombei. Antes que beijasse o chão já eu perdera as luzes e deixara de sentir a chuva no meu corpo.

Desmaiada, me espreitaram os dentros: gravidez não havia. Mais uma vez era falsa esperança. Esse vazio de mim, essa poeira de fonte seca, o não poder dar descendência a Venâncio, isso doía mais que perder um filho. Eu estava mais estilhaçada que o retrato da sala.

Quando despertei, me acreditei já morta, transferida para outro mundo. Morrer não me bastava: nesse depois ainda Venâncio me castigaria. Eu necessitava um outro jamais. Adivinhei as minhas fúnebres cerimónias: Venâncio e mais uns tantos, entre vizinhos e parentes. Se o meu homem me chorasse, nessa ida, seria para melhor me esquecer. A lágrima lava a sofrencia. Os outros chamariam a isso de amor, saudade. Mas não era a viuvez que atormentaria Venâncio. Viúvo estava ele há muito. O que o poderia atormentar era a feiura desta minha morte. Se de mim alguma vez se recordasse, seria para melhor me ausentar, mais desfocada que o retrato da sala.

Venâncio não foi visitar-me ao hospital. O que eu fizera, ao dirigir-me por meu pé ao hospital; foi uma ofensa sem perdão. Ate ali eu fechara as minhas feridas no escuro intimo do lar. Que é onde a mulher deve cicatrizar. Mas, desta vez, eu ousara fazer de Cristo, exibir a cruz e a chaga pelas vistas alheias.

Ao regressar a casa, faço contas às dores. Por certo, Venâncio me espera para me fazer pagar. Por isso, me demoro na varanda como se esperasse um sinal para entrar. E ali permaneço, calada, como fazem as mulheres que, de encontro ao tempo, rezam para nunca envelhecerem.

Quando entro em casa, os estilhaços do retrato rebrilham no chão da sala. O fotografado olhar de Venâncio pousa sobre mim, assegurando os seus direitos de proprietário. Distraída, a minha mão recolhe um vidro. Na cama de casal, meu marido está enroscado, em fundo sono. Deito-me ao seu lado e revejo a minha vida. Se errei, foi deus que pecou por mim. Eu semeei, sim, mas para decepar. Se recolhi os grãos, foi para os deitar no moinho. Há quem chame isto de amor. Eu chamo a cruel dança do tempo. Nessa dança, quem bate o tambor é a mão da morte.

Lição que aprendi: vida é tão cheia de luz, que olhar é demasiado e ver é pouco. É por isso que fecham os olhos aos mortos. E é o que faço ao meu marido. Lhe fecho os olhos, agora que o seu sangue se espalha, avermelhando os lençóis.

 

Pág. 1/2