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Arvore De Letras

Coisas lidas,ouvidas,cantadas, declamadas,faladas,escritas

Arvore De Letras

Coisas lidas,ouvidas,cantadas, declamadas,faladas,escritas

11
Fev11

OS OLHOS MORTOS por mia couto o fio das missangas

AnnaTree

Coisas Lidas

 

Estou tão feliz que nem me rio. Deito-me com desleixo, bastando-me: eu e eu. O regressar de meu marido mediu, até hoje, todas as minhas esperas. O perdoar a meu homem foi medida do desespero. Durante tempos, só tive piedade de mim. Hoje não, eu me desmesuro, pronta a crianceiras e desatinos. Minha alegria, assim tanta, só pode ser errada.

Desculpa-me, Cristo: esplendoroso é o que sucede, não o que se espera. E eu, durante anos, tive vergonha da alegria. Estar-se contente, ainda vá. Que isso é passageiro. Mas ser-se alegre é excessivo como pecado mortalicio.

É de noite e falta-me apenas um quase para estar sozinha no quarto. Ou, no rigor: o quarto está sozinho comigo. Nesta mesma cama sonhei tantas vezes que o meu amor vinha pela rua, eu escutava os seus passos, cheia de ânsia. E antes que ele chegasse, corria a fechar a porta. Fosse esse gesto, o de trancar a fechadura, o meu fingido valimento. Eu fechava a porta para que, depois, o simples abrir dos trincos tivesse o brilho de um milagre. Para que ele, mais uma vez, casasse comigo. E o mundo se abrisse, casa, cama e sonho.

Durante anos, porém, os passos de meu marido ecoaram como a mais sombria ameaça. Eu queria fechar a porta, mas era por pânico. Meu homem chegava do bar, mais sequioso do que quando fora. Cumpria o fel de seu querer: me vergastava com socos e chutos. No final, quem chorava era ele para que eu sentisse pena das suas mágoas. Eu era culpada por suas culpas. Com o tempo, já não me custavam as dores. Somos feitos assim de espaçadas costelas, entremeados de vãos e entrâncias para que o coração seja exposto e ferivel.

Venâncio estava na violência como quem não sai do seu idioma. Eu estava no pranto como quem sustenta a sua própria raiz. Chorando sem direito a soluço; rindo sem acesso a gargalhada. O cão se habitua a comer sobras. Como eu me habituei a restos de vida.

Autora Blog:(por ser pesada a leitura continua nas proximas postagens)

 

07
Fev11

O ADIADO AVÔ Mia Couto o fio das missangas

AnnaTree

 

 

 

Coisas lidas

 

Nossa irmã Gloria pariu e foi motivo de contentamentos familiares. Todos festejaram, excepto o nosso velho, Zedmundo Constantino Constante, que recusou ir ao hospital ver a criança. No isolamento de seu quarto hospitalar, Gloria chorou babas e aranhas. Todo o dia seus olhos patrulharam a porta do quarto. A presença do nosso pai seria a bênção, tão esperada quanto o seu próprio recém-nascido.

- Ele há-de vir, há-de vir.

Não veio. Foi preciso trazerem o miúdo a nossa casa para que o avo lhe passasse os olhos. Mas foi como um olhar para nada. Ali no berço não estava ninguém. Glória reincidiu no choro. Para ela, era como sofrer as dores de um aborto póstumo. Suplicou a sua mãe dona Amadalena. Ela que falasse com o pai para que este não mais a castigasse. Falasse era fraqueza de expressão a mãe era muda, a sua voz esquecera de nascer.

(…)

Contrariava a alegria geral.

(…)

O neto cumpriu o primeiro aniversário. Nesse mesmo dia, deu os primeiros passos. Houve palmas, risos, copos erguidos. Todos poliram jubilo menos Zedmundo, encostado em seu próprio corpo.

- Não quero aqui essa gatinhagem, ainda me parte qualquer coisa. Levem-no, levem-no …

(…)

A mulher puxou-o para o quarto. Ali, no côncavo de suas intimidades, o velho Zedmundo se explicou. Afinal, ele sempre dissera: não queria netos. Os filhos não despejassem ali os frutos do seu sangue.

- Não quero cá disso., eu não sou avô. Eu sou eu, Zedmundo Constante.

Agora, ele queria gozar o merecido direito: ser velho.

A gente morre ainda com tanta vida!

- Você não entende, mulher, mas os netos foram inventados para, mais uma vez, nos roubarem a regalia de sermos nós.

E ainda mais se explicou: primeiro, não fomos nós porque éramos filhos. Depois, adiamos o ser porque fomos pais. Agora, querem-nos substituir pelo sermos avós.

A avó ameaçou, estava farta, cansada. Desta vez, dada a quentura do assunto, Amadalena preferiu escrevinhar num papel. Em letra gorda, ela decretou: ou o marido se abrandava ou tudo terminava entre eles. Ele que saísse, procurasse outro lugar. Ou era ela mesma que se retirava. O velho Zedmundo Constante respondeu, sereno:

-Amadalena, teu nome cabe na palma do meu coração. Mas eu não vou mudar. Se o meu tempo é pouco, então vou gastá-lo com proveito.

Não saiu ele, nem ela. Quem se mudou foi Gloria.

 

(…)

Não passaram semanas, nos chegou a noticia o genro falecera na capital. Nossa irmã, nossa Glorinha perdera o juízo com a viuvez. Internaram-na, desvalida como mulher, descalificada como mãe. E o menino, mais neto agora, chegava no primeiro machimbombo.

O menino entrou e meu pai saiu. Enquanto se retirava, já meio oculto no escuro ainda disse:

- Tudo o que você não falou, está certo, Amadalena, mas eu não aguento.

O nosso pai saiu para onde? Ainda nos oferecemos para o procurar. Mas a mãe negou que fossemos. O velho Zedmundo nunca tivera nem rumo certo nem destino duradouro. O homem era mais falso que um tecto. Voltou dias depois, dizendo-se agredido por bicho feio, quem sabe hiena, quem sabe um bicho sobrenatural? Surgiu na porta, ficou especado. Ali naquela, moldura feita só de luz se confirmava: porta fez-se é para homem sair e mulher estreitar o tempo da espera. Meu velho emagrecera abaixo do tutano, e em seus olhos rebrilhavam as mais gordas lágrimas. Amadalena se assustou: Zedmundo estreava-se em choro. Seu marido perdera realmente o fio de aprumo, sua alma se havia assim tanto desossado?

Depois, toda ela se adoçou, maternalmente. E se aproximou do marido, acatando-o no peito. E sentiu que já não era apenas o espreitar da lágrima. O seu homem se desatava num pranto. Vendo-o assim, babado, e minguado, minha mãe entendia que o velho, seu velho homem, queria, afinal, ser sua única atenção.

Conduzindo-o pela mão, minha mãe o fez entrar e lhe mostrou o neto já dormindo. Pela primeira vez, meu pai contemplou o menino como se ele acabasse de nascer. Ou como se ambos fossem recém-nascidos. Com desajeitadas mãos, o velho Zedmundo levantou o bebe e o beijou longamente. Assim demorou como se saboreasse o seu cheiro. Minha mãe corrigiu aquele excesso e fez com que o miúdo voltasse ao quente do colchão. Depois o meu pai se enroscou no desbotado sofá e minha mãe colocou-se por detrás dele a jeito de o embalar em seus braços até que ele adormecesse.

Na manha seguinte, ainda cedo, encontrei os dois ainda dormidos: meu velho no sofá e, a seu lado, o adiado neto. Minha mãe já tinha saído. Dela restara um bilhete rabiscado por sua mão. Não resisti e espreitei o papel. Era um recado para o meu pai. Assim:

Meu Zedmundo: durma comprido. E trate desse menino, enquanto vou a cidade.»

Entre rabiscos, emendas e gatafunhos, o bilhete era mais de ser adivinhado que lido. Dizia que meu pai ainda estava em tempo de ser filho. Culpa era dela, que já se tinha esquecido: afinal, meu pai nunca antes fora filho de ninguém. Por isso, não sabia ser avo. Mas agora, ele podia, sem medo, voltar a ser seu filho.

«Seja meu filho, Zedmundo, me deixe ser sua mãe. E vai ver que esse nosso neto nos vai fazer sermos nós, menos nós, mais avós.»

Dobrei o bilhete e o deixei no tampo da mesa. Esperei na varanda que minha mãe chegasse. Eu sabia que ela tinha ido buscar minha irmã Gloria.antes, eu jurara contar esta história a minha irmã. Mas agora, lembro as palavras de meu pai sobre o aprender a calar. E decido que nunca, contarei isto a ninguém. Minha mãe, que é muda, que conte.

 

 

 

 

03
Fev11

HISTORIAZINHA TRISTE... FERNANDA DE CASTRO

AnnaTree

 

 

 

Coisas Declamadas

 

Feiazinha sempre foi,

Sempre teve a pele baça

Não sabem como isto dói!

Calada, triste, sem graça...

 

Feiazinha sempre foi

 

As irmãs têm vestidos

Com rendas, fitas e folhos,

Fartos cabelos compridos

Em que lhe ficam os olhos

 

As irmãs têm vestidos

 

Ao domingo vão ao baile...

Em casa só fica ela

Fica, embrulhada num xaile,

A ver quem passa á janela

 

As irmãs vão ao baile

 

Altas horas da manhã,

Voltam, sonhando em voz alta

Não se lembraram da irmã,

A irmã não lhes fez falta

 

Altas horas da manhã

 

Como quem atira um osso

A um cão faminto e assustado,

Certo dia certo moço

Beijou-lhe o rosto magoado,

 

Como quem atira um osso

 

Beijou-lhe depois a boca

Só para ver como era

Chamaram-lhe as outras louca

Mas ela ficou á espera

 

Quando ele lhe beijou a boca

 

Uma vez abriu-lhe a porta

(já lhe abrira o coração)

chamam-lhe doida...que importa,

não soube dizer que não

 

e uma noite abriu-lhe a porta

 

ele, porém, não voltou,

apesar da porta aberta;

e ela mais feia ficou

na rua ainda mais deserta.

 

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