Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Arvore De Letras

Coisas lidas,ouvidas,cantadas, declamadas,faladas,escritas

Arvore De Letras

Coisas lidas,ouvidas,cantadas, declamadas,faladas,escritas

17
Mar11

Romantismo tropical contemporâneo, conto por Hugo Gonçalves Parte II

AnnaTree

Coisas Lidas

Entrámos no mar, o meu corpo abandonado ao turbilhão das ondas, espuma na cara, uma perna raspando no fundo de areia, o ardor da ferida, a alegria de aparecer na superfície, depois de um mergulho, e olhar a praia - Ipanema, Leblon, morro Dois Irmãos, favela do Vidigal, tudo mais bonito por causa da película de luz, caipirinha, maconha e água salgada. Fiz carreirinhas. Thais pegou jacaré. Podíamos ser felizes na praia, com filhos hippies e dieta de fruta. Sempre fui romântico antes de tempo.(…) Era de noite quando ela me estendeu a mão: "Quer pegar um ônibus?" Foi a primeira vez que nos tocámos. Mais tarde escrevi no bloco como numa biografia: "Urca: onde tudo começou." Acrescentei: "Bom spot para encontros amorosos."(…) Tropecei nas havaianas e espalhei-me no meio da sala. Fred bateu palmas. Thais mandou-me um beijo. Levantei-me e fiz uma vénia. Um homem apaixonado não tem medo do ridículo(…) Porque a minha memória não me permite mais que caras desbotadas, revelo apenas que curti com Thais como um adolescente no sofá com os pais em viagem, que ela foi várias vezes à casa de banho com as amigas, que uma delas entornou um copo na minha braguilha e que acordei a olhar para o Cristo Redentor.

Na janela vi o verde da selva no morro e o sovaco do Senhor Jesus de braços abertos lá em cima. Não estava sozinho. Fred fazia colherzinha comigo. Dei-lhe um tabefe: "Deixa de ser bicha." Fred abriu os olhos desidratados e lamentou o regresso ao mundo dos atormentados pelo calor: "Puta que o pariu." Acendeu um cigarro e "Bora pequeno-almoçar?"(…) Fred disse: "Vamos curar a ressaca." Em menos de cinco minutos estávamos a dar mergulhos. No roteiro da recuperação seguiu-se água de coco e suco de melancia no Polis Sucos. Fred disse: "Vamos tomar um duche, tenho umas amigas que te querem conhecer." Fred, o manipulador: "Pagas o suco que eu vou carregar o telemóvel?"(…) Santa Teresa e samba na Lapa Saímos da praia com as amigas de Fred. Uma paulista advogada, sardenta e feroz tirou-me o telemóvel da mão e gravou o seu número: "Se passar em São Paulo pode ligar." Ela queria saber quem eu era, fez perguntas, encostou-me. Apresentei o show da minha cronologia pessoal(…)Thais estava outra vez aborrecida, mais interessada no iPhone que nas minhas mãos carentes. O namoradinho electrónico deu, por fim, notícias. Ela leu a mensagem e disse: "Tenho uns amigos almoçando no Espírito Santa, é aqui do lado." Fui atrás, esperançoso, palerma, canídeo. Fred ficou no Mineiro com as amigas, olhou para a paulista, para a Thais, avisou: "Estás a apostar no cavalo errado.” Thais passou de menina birrenta a diva adorada assim que entrou na varanda do restaurante.(…) Mas lá estavam as duas amigas de Thais, vigilantes e empenhadas em oferecer abracinhos, mãos dadas, vem cá Thais para te darmos um beijo. Escrevi no bloco: xôxo=estalinho, mulheres bi=gillette, noite louca=balada. Fred apareceu ao fim da tarde com as amigas (a paulista) e anunciou: "Vai rolar balada." Noite dentro pela Lapa: andar na rua com carros da polícia, putas, travestis na esquina sentados num banquinho como os plastificadores de documentos no Rossio, malta sem t-shirt, muita bebedeira, a inevitabilidade de mover o corpo assim que começa o samba num desses bares com sobre- aquecimento, roça roça e música ao vivo. Horas mais tarde, Thais abraçou-me a pedir colo, fraca nos joelhos e com as havaianas na mão: "Quero a minha cama." No táxi dormiu e respirou no meu pescoço. Em casa levei-a para o duche e lavei- -lhe os pés encardidos do samba descalço. Ela disse: "Não vai embora para Portugal amanhã, fica mais um tempo." Sobre o sexo em países tropicais, com ventilador no tecto e humidade nos lençóis, tenho a dizer: todos deveriam experimentar. Entrei em casa e Thais dedilhava o iPhone na sala. Demorou a perceber que estava ali um tipo à espera de qualquer coisa. "Tenho de me arrumar. Brunch com as minhas amigas no Jardim Botânico." O coração vadio parecia um bonequinho de peluche assustado. Ficou ainda mais mariquinhas quando ela avançou para o quarto e, sem olhar para trás, perguntou: "A que hora mesmo é o seu voo? Tem de sair uma hora antes pelo menos por causa do trânsito." Bye bye amor carioca. 20 minutos depois entrei no apartamento do Fred. Não estou aqui para enganar ninguém. Fiquei fodido, melancólico, um soco na barriga, o chão a fugir, vontade de partir para a bebedeira directa e para o flirt dos botecos com transa como bónus track.

Fred, o guru da auto-ajuda, disse: "Conheces a gaja há dois dias e já tens nomes para os filhos? Isto não é uma novela. Era suposto esta viagem fazer-te bem à cabeça. Relaxa e aperta aí um." Enrolei mas não fumei. Continuou: "Man, eu sou um pouco safajeste, mas, foda-se, a malta hoje quer tudo agora, mimados do cacete. Vivem na superfície das redes sociais e porque trocam um vídeo e gostam do mesmo filme já são Romeu e Julieta. Puta que o pariu mais à internet e ao Estado social e ao cabo e aos hiperactivos do sofá e aos sms eróticos. Toda a gente confunde emoções com sentimentos e quer viver com banda-sonora e filhos loiros. Escuta as palavras do mestre Zeca Pagodinho: deixa a vida te levar." Fred, filósofo contemporâneo de pacotilha, fumador de maconha antes do meio--dia, realinhou os genitais nos boxers e expeliu fumo para o tecto: "Vamos para a praia."

Os corações vadios têm um extraordinário poder de recuperação. Liguei à paulista: "Estou a pensar ir a São Paulo uns dias." No bloco de notas escrevi: sempre fui um romântico antes de tempo. Depois sublinhei a frase "Não foi amor. Foi tesão mesmo."

14
Mar11

Romantismo tropical contemporâneo, conto por Hugo GonçalvesParte I

AnnaTree

Coisas Lidas

 

Sexta-feira: praia Thais não era daquela praia. Thais não pertencia a lugar algum. Thais só disponibilizava a sua atenção - e a boca, o sono, as manobras de ancas - em períodos curtos. Menina moderninha com caprichos de estrela pop. Gostosa e gira para cacete. Mulher planeta que precisa de satélites em seu redor. E eu, com três dias para queimar no Rio de Janeiro e nada a perder, fui todo cortesias quando ela se sentou junto a mim (…) filha de mãe gringa e pai carioca, miúda high fucking maintenance, pronta a abandonar a sobrelotação das areias do Leblon - uma aristocracia de sunga e mamas turbinadas, herdeiros privilegiados do antigo sistema esclavagista com empregados para tudo e mais qualquer coisa, gente geneticamente apurada, nota 10 para a maioria dos corpos malhados no ginásio e abençoados pela sacanagem tropicalista. O Rio vai do erótico ao pornográfico em menos de uma tarde de praia seguida de chopp e cachaça.

Primeiro não foi amor. Foi tesão mesmo.

Thais foi-me apresentada por Fred, um português no Rio sem eira nem beira mas que tinha a habilidade dos malandros: seduzia, encantava, entretinha qualquer festa ou boteco às quatro da matina. E a mulherada achava aquele sotaque português, de génio adiado e biscateiro sobrevivente, uma gracinha.

(…)

Thais era mimada e de certeza tinha lido autores malditos antes dos 16. Falou como quem ordena: "Você seria destemido o suficiente para me acompanhar num passeio?" Talvez fosse da cerveja ou da cannabis erectus, mas quis beijá-la como se tivéssemos acabado de sobreviver a um naufrágio.

 

Calçadão Por nós passavam os atletas da corrida e das bicicletas e dos skates e dos patins em linha.(…) Tanta pele, suor e exercício físico deixaram-me ainda mais inquieto junto de Thais - ela cheirava a creme, a mar, a feromonas magnéticas. Estava cada vez mais apanhado (…) Sentámo-nos na esplanada do Azul-marinho e pedimos caipirinhas. Estávamos em cima da praia e o sol começava a baixar e havia ondas para fazer carreirinhas. Peguei no bloco de notas e escrevi: carreirinhas=pegar jacaré.

Thais: "Está escrevendo poemas de amor?"

Eu: "Poesia é coisa de viado." Escrevi: viado=paneleiro.

Thais: "Lista de supermercado?"

Eu: "Estou a fazer uma lista de palavras que são diferentes aqui e em Portugal."

Thais chupou a cachaça e o sumo de lima pela palhinha, olhou por cima dos óculos escuros que escorregavam para a ponta do nariz: "Diz umas para mim, vai."

Eu: "Nós dizemos palhinha, vocês canudinho."

Thais: "Mais." Enquanto eu lia do meu bloco de notas, ela passou do sorriso para a gargalhada. Atacador=cadarço, retrete=vaso, lixívia=água sanitária, estendal=varal, cuecas de mulher=calcinha, imperial=chopp, charro=baseado, broche=boquete, alfarrabista=sebo.

Thais: "Vamos cair na água?"

11
Mar11

poema de José Miguel Silva

AnnaTree

Dizias que gostavas de poemas

escrevi-te, numa tarde, mais de cinco

são muito bonitos, disseste,

Hei-de mostrá-los ao meu namorado

nunca mais confiei nos versos

nem no gosto feminil.

 

José Miguel Silva

 

09
Mar11

A VERDADE E OS OUTROS POR PAULO COELHO

AnnaTree

Coisas Lidas

 

«Quando olhar para os seus companheiros procure ver-se a si mesmo», disse o mestre japonês Okakura Kakuso.

«Mas isso não é egoísmo?»

«Nós vemos a maldade nos outros, porque conhecemos a maldade através do nosso comportamento. Nós nunca perdoamos aqueles que nos ferem, porque achamos que jamais seriamos perdoados. Nós dizemos a verdade dolorosa ao próximo, porque queremos esconde-la de nós mesmos. Refugiamo-nos no orgulho, para que ninguém possa ver a nossa fragilidade. Por isso, sempre que estiver a julgar o seu irmão, tenha consciência de que é você quem está no tribunal.»

Lido na revista caras

07
Mar11

O macaco e a macaca discutem por Paulo Coelho

AnnaTree

Coisas Lidas

 

Sentados num galho de árvore, o macaco e a macaca contemplavam o pôr-do-sol. Em determinado momento, ela perguntou:

“O que faz com que o céu mude de cor, na hora que o sol atinge o horizonte?”

“Se quisermos explicar tudo, deixamos de viver”, respondeu o macaco. “Fique quieta, vamos deixar o nosso coração alegre com este entardecer romântico”.

A macaca enfureceu-se.

“Você é primitivo e supersticioso. Já não dá mais atenção à lógica, e só quer saber é de aproveitar a vida”.

Neste momento, passava uma centopéia.

“Centopéia!”, gritou o macaco. “Como é que você faz para mover tantas patas em perfeita harmonia?”

“Nunca pensei nisso!”, foi a resposta.

“Então pense! Minha mulher gostaria de uma explicação!”

A centopéia olhou para suas patas, e começou:

“Bem.. eu flexiono este músculo…não, não é bem isso, eu tenho que jogar o meu corpo por aqui…”

Durante meia-hora, tentou explicar como movia suas patas, e, à medida que tentava, ia confundindo-se cada vez mais. Quando quis continuar seu caminho, já não podia mais andar.

“Está vendo o que você fez?”, gritou desesperada. “Na ânsia de descobrir como funciono, perdi os movimentos!”

“Está vendo o que acontece com quem deseja explicar tudo?”, disse o macaco, voltando a assistir o pôr-do-sol em silêncio.