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Arvore De Letras

Coisas lidas,ouvidas,cantadas, declamadas,faladas,escritas

Arvore De Letras

Coisas lidas,ouvidas,cantadas, declamadas,faladas,escritas

29
Jul11

Um homem Inteligente Falando das Mulheres Luiz Fernando Veríssimo

AnnaTree

Coisas Lidas

 

 

O desrespeito à natureza tem afectado a sobrevivência de vários seres e entre os mais ameaçados está a fêmea da espécie humana.

Tenho apenas um exemplar em casa, que mantenho com muito zelo e dedicação, mas na verdade acredito que é ela quem me mantém. Portanto, por uma questão de auto-sobrevivência, lanço a campanha 'Salvem as Mulheres!'

Tomem aqui os meus poucos conhecimentos em fisiologia da feminilidade a fim de que preservemos os raros e preciosos exemplares que ainda restam:

Habitat

Mulher não pode ser mantida em cativeiro. Se for engaiolada, fugirá ou morrerá por dentro. Não há corrente que as prenda e as que se submetem à jaula perdem o seu DNA. Você jamais terá a posse de uma mulher, o que vai prendê-la a você é uma linha frágil que precisa ser reforçada diariamente.

Alimentação correcta

Ninguém vive de vento. Mulher vive de carinho. Dê-lhe em abundância. É coisa de homem, sim, e se ela não receber de você vai pegar de outro. Beijos matinais e um 'eu te amo’ no café da manhã as mantém viçosas e perfumadas durante todo o dia. Um abraço diário é como a água para as samambaias. Não a deixe desidratar. Pelo menos uma vez por mês é necessário, senão obrigatório, servir um prato especial.  

Flores

Também fazem parte de seu cardápio – mulher que não recebe flores murcha rapidamente e adquire traços masculinos como rispidez e brutalidade.  

Respeite a natureza

Você não suporta TPM? Case-se com um homem. Mulheres menstruam, choram por nada, gostam de falar do próprio dia, discutir a relação? Se quiser viver com uma mulher, prepare-se para isso.  

Não tolha a sua vaidade

É da mulher hidratar as mechas, pintar as unhas, passar batom, gastar o dia inteiro no salão de beleza, coleccionar brincos, comprar muitos sapatos, ficar horas escolhendo roupas no shopping.  Entenda tudo isso e apoie.  

Cérebro feminino não é um mito

Por insegurança, a maioria dos homens prefere não acreditar na existência do cérebro feminino. Por isso, procuram aquelas que fingem não possuí-lo (e algumas realmente o aposentaram!). Então,  aguente mais essa: mulher sem cérebro não é mulher, mas um mero objecto de decoração. Se você se cansou de coleccionar bibelôs, tente se relacionar com uma mulher. Algumas vão lhe mostrar que têm mais massa cinzenta do que você. Não fuja dessas, aprenda com elas e cresça. E não se preocupe, ao contrário do que ocorre com os homens, a inteligência não funciona como repelente para as mulheres.  

Não faça sombra sobre ela

Se você quiser ser um grande homem tenha uma mulher ao seu lado, nunca atrás. Assim, quando ela brilhar, você vai pegar um bronzeado. Porém, se ela estiver atrás, você vai levar um pé-na-bunda.  

Aceite:  mulheres também têm luz própria e não dependem de nós para brilhar. O homem sábio alimenta os potenciais da parceira e os utiliza para motivar os próprios. Ele sabe que, preservando e cultivando a mulher, ele estará salvando a si mesmo.  

É, meu amigo, se você acha que mulher é caro demais, vire gay.  

Só tem mulher quem pode!  

27
Jul11

É UM ESTADO IMAGINARIO POR EDSON ATHAYDE

AnnaTree

Coisas Lidas

Leio com frequência  posts no facebook de gente que se diz feliz e a desejar a felicidade dos outros. Não me leve a mal, nada tenho contra isso. Apenas me pergunto: é possível ser normal e feliz ao mesmo tempo? Ou será verdade que só os loucos são felizes?

(…)

Preocupado com o tema, fui conversar com o meu tio Olavo. O velho, ajudado pela sua infinita colecção de achismos e citações, deu-me as seguintes respostas: «Tio Olavo o que é a felicidade?» «felicidade é ter família grande, amorosa, cuidadosa, que se preocupa consigo e está bem unida, só que em outra cidade» «só isso?» «bem, a felicidade estás nas pequenas coisas: um pequeno iate, um pequeno Rolex, uma pequena mansão, uma pequena fortuna…» «é uma questão de dinheiro, portanto» «para falar a verdade, nem tanto. Devo admitir que há coisas mais importantes na vida do que ter um pouco de dinheiro. Ter muito dinheiro, por exemplo.» «A idade traz a felicidade?» «as vezes. A felicidade é, no fundo, uma questão de ter boa saúde e péssima memoria» «teve uma vida feliz?» «acho que sim. Se eu tivesse de viver a minha vida outra vez, cometeria os mesmos erros, só que mais cedo. Alias, não leve a vida tão a sério: ela não é permanente» «que conselhos daria para quem deseja uma vida mais feliz?» «escreva diariamente o seu próprio horóscopo. Pare de se achar o centro do universo. Principalmente porque, quando você morrer, o sucesso do seu funeral vai depender apenas do tempo que fizer. Diariamente, sorria e diga “olá” a pelo menos cinco estranhos que encontrar na rua. Esqueça todos os rancores, perdoe todos os inimigos. Se conseguir fazer isso, diga-me como»


25
Jul11

O baile por Cláudia Clemente é realizadora e escritora publicou o livro Caderno Negro

AnnaTree

Coisas lidas

Estavas mesmo satisfeito com a tua decisão de alugar um apartamento durante aquelas duas semanas. Parecia-te muito melhor opção do que limitares te a ficar fechado num hotel, sem qualquer contacto com o mundo exterior a não ser os outros assistentes do congresso. E ali estavas tu. Era o teu quinto dia em Veneza e decidiste sair cedo.

Normalmente descias às oito em ponto e cruzavas-te com a porteira, que vinha recolher a correspondência. Era uma mulher gorducha, com uma idade difícil de precisar. Cumprimentava-te cada manhã com um largo e sincero sorriso. Nesse dia chegaste á porta da rua antes dela e deitaste um olhar mecânico á caixa de correio. Não tinhas dado a tua morada a ninguém. E, no entanto, algo te fez pegar no sobrescrito dourado onde estava o teu endereço. Não tinha o nome do destinatário, nem remetente. Apenas aquela morada, escrita á mão numa caligrafia bem desenhada. O envelope não tinha sido selado e não resististes a abri-lo. Lá dentro estava o convite para uma festa. Ouviste os passos da porteira a descer as escadas e meteste-o no bolso mesmo antes do sorriso bonacheirão te saudar. Bom dia, signore. Bom dia, Fiorella, respondeste, tentando não te sentires culpado. A mulher dirigiu-se á caixa do correio e pareceu desiludida por encontrá-la vazia. Já a caminho da primeira conferência, sentado no vaporetto, olhaste com atenção para o convite. Era para o baile de máscaras, e especificava que deverias ir vestido de unicórnio branco. Unicornio branco? repetiste alto, algo incrédulo. Onde é que vou arranjar uma fantasia destas? Encolheste os ombros. Sempre estavas em Veneza, e embora fosse ainda um pouco cedo para o Carnaval, não deveria ter sido difícil. Faltavam apenas dois dias para a festa, mas tiveste tempo de sobra para encontrar o que buscavas. E assim, na data marcada, tentando não te cruzar com a porteira para não teres de dar explicações, lá saíste de casa mascarado, para a noite veneziana.

Enquanto percorrias a pé o caminho que te separava do local do baile, recordas com um certo orgulho o trabalho que tinhas tido para encontrar aquela fantasia. Por fim, num local meio perdido no outro lado da cidade, lá tinhas dado com ela. O dono da loja, um velhinho simpático, tinha posto um ar desconfiado ao ouvir o teu pedido. Mas acabara por ir desenterrar algures aquele fato imaculado que agora envergavas, e mostrara-to com alguma hesitação. Há vários anos que ninguém me pedia este, justificara-se ao entregar-to. Atravessaste a ponte do Rialto e paraste por momentos a contemplar o Grande Canal. Bolas, disseste para ti mesmo, apertado dentro da fantasia, o que eu não dava agora por poder fumar um cigarro. Com um suspiro continuaste, passaste pelo Palazzo Grassi e viraste á direita, tentando não te perder. Era curiosa a sensação que aquela cidade te produzia. Era como se nunca conseguisses fazer duas vezes o mesmo percurso, como se as ruas e os canais mudassem de sítio da noite para o dia. Em Veneza os mapas pareciam-te de muito pouca utilidade. Chegaste por fim ao campo san fantin. O número 1950 era numa casa mesmo ao lado do teatro La fenice. Ergueste os olhos para o belo edifício antes de entrar, um unicórnio branco algo envergonhado, mas de costas direitas e convite em punho. A festa estava no auge. O esplendor dos disfarces era indescritível, e só comparável ao magnífico Palazzo onde o baile decorria. Nunca tinhas visto tal profusão de cristais, candelabros, telas e cortinados de veludo – pelo menos fora de um ecrã. As fantasias iam desde a pastorinha até ao clássico arlequim, mas apenas uma te prendeu a atenção. O outro unicórnio branco destacava-se no meio da multidão colorida. Atravessou o salão e avançou na tua direcção com um passo determinado. Sentiste um arrepio quando a sua voz rouca se fez ouvir. Ainda bem que vieste, disse ela. Sentiste a sua mão fria a agarrar-te, delicada mas firme, e deixaste-te conduzir por entre os pares que dançavam, a s taças de champanhe e os criados fardados a rigor, também eles com caras cobertas por mascaras. Seguiste-a através de salas e corredores, de escadarias

, De escadarias de pedra e painéis deslizantes, dois unicórnios brancos de mãos dadas a atravessarem o imenso edifício, ate pararem por fim no que parecia ser uma biblioteca. Estavas um pouco ofegante, em parte pela correria, mas também pela sensação de seres ali um intruso. A desconhecida com a bela voz rouca pediu então: mostra-me a tua cara. Abanaste a cabeça, apavorado. Ela soltou uma pequena gargalhada. Primeiro eu, então. Os seus braços esguios soergueram devagar a cabeça do unicórnio. Ela sacudiu a cabeça loira e deixou a descoberto um rosto de uma beleza invulgar. Com um sorriso, a mulher sussurrou: agora é a tua vez. Não tiveste forma de recusar. Quando acordaste, ela dormia ainda nos teus braços. Soltaste-te docemente, tentando não a despertar.

Fica, pediu baixinho. Não posso, respondeste. Prometes voltar? Prometo. Ela fechou de novo os olhos. Vestiste o fato branco e saíste sem fazer barulho. A festa decorria ainda, embora tivesse esmorecido um pouco. O dia começava a nascer. Dirigiste-te sem pressa a casa. Deviam ser oito da manhã quando chegaste á Calle dei Cinque. Ao ver-te entrar, Fiorella empalideceu. Onde esteve, signore? Num baile, disseste, encolhido na tua fantasia branca, com a cabeça de unicornio debaixo do braço. A mulher nem pestanejou ao perguntar: num Palazzo ao lado da Fenice? Assentiste com a cabeça, sem ousar olhar para ela. Pareceu-te que abafava algo semelhante a um soluço. Ainda bem que está de volta, limitou-se a dizer. Subiste as escadas devagar, sentindo que o olhar da porteira te acompanhava. Paraste, voltaste para trás. Fiorella, diga-me o que se passa. Com um suspiro, a mulher deixou se cair pesadamente sobre um dos degraus. Sentaste-te ao seu lado. Ele era um homem muito fiel, disse. Tinha tudo para o ser. Esta casa, dinheiro, uma noiva maravilhosa. Ele quem? arriscaste. O senhorio, o dono deste prédio. O que acontecei? Fizeste as malas apressadamente. Faltavam uns dias para terminar o congresso, mas não tinhas qualquer vontade de permanecer em Veneza. Não foi difícil mudares a tua passagem. E depois, ali no aeroporto, diante dos ecrãs luminosos com os anúncios das próximas partidas, enquanto esperavas pela hora do teu voo, tiveste tempo para recordar. A cara dela, o cabelo loiro, o seu corpo nu na penumbra, a fantasia atirada para o chão, a pele dela tão suave, e tiveste vontade de chorar. Porque a essa recordação vinha juntar se outra, a da facada negra da casa ao lado do resplandecente La fenice, quando incrédulo a tinhas tentado voltar a visitar. Os vidros das janelas partidos, o ar de abandono, o telhado desfeito, a fachada carcomida, o que restava do antigo esplendor destruído. Lembraste-te da voz monocórdica de Fiorella a tentar explicar-te o sucedido. Nos anos 90, a grande festa de mascaras a antecipar o carnaval, o incêndio que deflagrara no teatro sem que ninguém estivesse á espera e que se tinha propagado ao edifício contíguo. O teu senhorio que estava a trabalhar fora da cidade e só soubera do sucedido de manhã, que correra para o local para já só encontrar uma máscara de unicórnio queimada. O mesmo senhorio que partira de Veneza e nunca quisera voltar. O convite que todos os anos continuava a chegar, sem que ninguém soubesse como. Os inquilinos que nos anos precedentes o tinham recebido, saído de casa fantasiados e nunca tinham regressado. O terror de Fiorella, que passara a interceptar o envelope dourado antes que mais alguém pudesse desaparecer num baile de mascaras do velho Palazzo. E pareceu te ouvir, ao mesmo tempo que chamavam os passageiros do teu voo para embarcar, as ultimas palavras da velha porteira. Quem sabe, signore. Talvez agora por fim, o outro unicórnio branco possa descansar.

22
Jul11

A QUALIDADE DOS SENTIMENTOS DE WILLY PASSINNI parte XIII

AnnaTree

 

Coisas Lidas

A palavra (domínio) remete-nos para o mundo interior, (controlo) para o exterior. A primeira envia-nos para a autodeterminação, a segunda para a heterodireção. A confiança nos nossos próprios meios provém apenas do domínio, atitude que não implica um poder autoritário, mas sim competência. De um bom musico diz-se, de facto, que domina o seu próprio instrumento e não que o controla, por sua vez, muitas vezes limita-se a pôr uma tampa na panela das suas próprias emoções. As pessoas «controladas» são geralmente frias, distantes, desconfiadas, asseadas, bem vestidas, civilizadas, mas sem a intensidade de quem está verdadeiramente em contacto com o seu próprio ser.

 

Quem exerce controlo sobre si próprio às vezes actua sobre os seus próprios sentimentos, muitas vezes sobre o seu próprio corpo. As pessoas deste tipo são minuciosas, meticulosas, mais analíticas do que sintéticas se sofrem do estomago tornam-se especialistas em dietas, e podem conversar horas a fio com o medico ou com o conjugue sobre as suas próprias funções intestinais. Outros dedicam-se á ginástica ou ao jogging. Alguns tornam-se vegetarianos. A ambição é sempre a mesma: controlar o corpo com a vontade.

20
Jul11

A QUALIDADE DOS SENTIMENTOS DE WILLY PASSINNI parte XII

AnnaTree

Coisas Lidas

Há pessoas que só nos transmitem agitação, juntamente com a desagradável sensação de terem de fazer tudo á pressa. Escravas da urgência, muitas vezes caminham no vazio, e quando conseguem um posto de poder, tornam-se facilmente tiranos do tempo dos outros. Outras pessoas vivem a urgência como expressão do seu mundo interior.

(...) há pacientes que somatizam a sua urgência e por isso pertencem á vasta área dos doentes psicossomáticos.

F... Por exemplo, não consegue adiar nada: tem de resolver depressa todos os problemas. A sua ansiedade de terminar o ficou em suspenso provoca-lhe com freqüência inclusivamente dores de estômago. Escravo de uma educação rígida que lhe ensinou que não é bom deixar para amanhã o que se pode fazer hoje, F... Impõe o seu activismo a si próprio e aos outros, quer no emprego quer no emprego quer na família, e as tensões somatizam-se assim que a necessidade de agir não pode ser concretizada.

(...) as patologias psicossomáticas que surgem da incapacidade de adiar as acções, por causa da especificidade que em cada caso determina a escolha do órgão e da sintomalogia.

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