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Arvore De Letras

Coisas lidas,ouvidas,cantadas, declamadas,faladas,escritas

Arvore De Letras

Coisas lidas,ouvidas,cantadas, declamadas,faladas,escritas

30.11.11

A Malinche de Laura Esquivel III


AnnaTree

 

 

Coisas Lidas

 

O interesse que os espanhóis, e Cortês em particular, revelavam pelo ouro, não lhe parecia correcto. Se na verdade fossem deuses, preocupar – se-iam com a terra, com a sementeira, preocupar-se-iam em garantir o alimento dos homens e isso não acontecia. Em nenhuma ocasião os vira interessados nos milheirais, apenas em comer.

(...)

Não o preocupava que os homens deixassem de semear o milho? Então? Não saberiam os homens, acaso, que se deixassem um dia de semear o milho, o milho morreria?

(...)

Que não há possibilidade de o milho viver sem os homens nem os homens sem o milho?

(...)

Não saberiam que nós somos a terra, que da terra nascemos, que a terra nos come e que, quando a terra chegar ao seu termo, quando se der o fim da terra, quando a terra se tiver cansado, quando o milho deixar de nascer, quando a mãe terra deixar de abrir o seu coração, será também o nosso fim? Nesse caso, de que serviria ter ouro acumulado sem milho? Como era possível que a primeira palavra que Cortês se interessou em aprender em náuatle fosse precisamente «ouro» em vez de «milho»?

 

 

 

28.11.11

A Malinche de Laura Esquivel II


AnnaTree

 

Coisas Lidas

 

 

 

(...)

 

Depressa aprendeu que aquele que administra a informação, os significados, adquire poder, e descobriu que, ao traduzir, ela dominava a situação; e não só isso, descobriu que a palavra podia ser uma arma. A melhor das armas.

 

(...)

 

A palavra era um guerreiro, um guerreiro sagrado, um cavaleiro águia ou um simples mercenários. No caso de ter um carácter divino, a palavra transformava o espaço vazio da boca no centro da criação e repetia nela o mesmo acto com que o universo se originara ao unir o princípio feminino e o masculino num só

 

Malinali achava que, para a vida surgir, para que estes dois princípios se mantivessem unidos, devia instalar-se dentro de um espaço circular que os resguardasse, que os abrigasse, uma vez que, ao envolver o que fora criado, as formas redondas eram as que melhor o protegiam. As formas pontiagudas, pelo contrário, abrem, separam. A boca, como princípio feminino, como espaço vazio, como cavidade, era o melhor lugar para que as palavras se gerassem, e a língua, princípio masculino, pontiaguda, afiada, fálica, era a mais indicada para introduzir a palavra criada, esse universo de informação, noutros espíritos, para que aí fecundasse.

 

 

 

 

25.11.11

A Malinche de Laura Esquivel


AnnaTree

 

 

 

 

Coisas Lidas

 

 

 

(...)

 

A mesma coisa parecia passar-se com Cortês, que não conseguia faze-la entender certos conceitos da sua religião. No diaem que Malinaliperguntou qual era o nome da mulher do seu Deus, Cortês respondeu:

 

- Deus não tem mulher.

 

- Não pode ser

 

- Porque não?

 

- Porque sem ventre, sem escuridão, não pode surgir luz, a vida. É nas profundezas que a mãe terra produz as pedras preciosas e é na escuridão do ventre que tomam forma os homens e os deuses. Sem ventre não há Deus.

 

(...)

 

- O que podes tu saber de Deus! Se os teus Deuses exigem todo o sangue do mundo para existir, a nós, pelo contrário, Deus entrega-nos o seu sangue em cada comunhão. Nós bebemos o seu sangue.

 

Malinali não conseguiu entender as palavras que Cortês acabara de pronunciar. O que ela queria ouvir e que o seu cérebro queria interpretar era que o Deus dos espanhóis era um Deus líquido, pois era no sangue, no segredo da carne, no segredo do amor, que estava contida a eternidade do universo e ela queria acreditar numa divindade assim.

 

- Nesse caso o teu Deus é líquido? – Perguntou Malinali, entusiasmada.

 

- Liquido?

 

- Sim, não dizes que está no sangue que vos dá?

 

- Claro que sim, mulher! Mas agora responde-me tu: os teus deuses entregam-te o seu sangue?

 

- Não.

 

- Ah! Nesse caso, trata de não acreditar neles

 

(...)

 

- Eu não creio que seja necessário entregar o sangue. Creio no teu Deus líquido, agrada-me que seja um deus sempre derramado e que se manifeste ate nas minhas lágrimas. Agrada-me que seja severo, rígido, justo. Que a sua ira possa extinguir ou criar o universo num dia. Mas não o pode fazer sem água e sem ventre. Para que a flor e o canto existam, é precisa água, nela surgem as palavras e a matéria toma forma. Há vida que nasce sem, ventre mas não permanece muito tempo sobre a terra. O que é gerado na escuridão, pelo contrário, na profundidade das grutas, como as pedras preciosos e o ouro, dura mais.

 

 

21.11.11

RELAÇÕES E SOLIDÃO AFORISMOS VI ARTHUR SCHNITZLER


AnnaTree

 

 

 

 

Coisas Lidas

 

OBSERVACAO DO HOMEM

Quando te encontras na base de um importante maciço montanhoso , estas longe de conhecer toda a sua diversidade, não tens nenhuma ideia das alturas que se erguem por trás do seu cimo ou por trás daquele que te parece o cimo, não suspeitas nem o perigo dos abismos nem os confortáveis assentos ocultos entre os rochedos. É apenas se sobes e se persegues o teu caminho que se revelam pouco a pouco a teus olhos os segredos da montanha, alguns que esperavas, outros que te surpreendem, uns essenciais , outros insignificantes, tudo isso sempre e unicamente em função da direcccao que tomares; e nunca se te revelarão todas

 

O mesmo acontece quando te encontras diante de uma alma humana. Aquilo que se te oferece ao primeiro olhar , por mais perto que estejas , esta longe de ser a verdade e certamente nunca ´é toda a verdade. É apenas no decurso do caminho, quando os teus olhos se tornam penetrantes e nenhuma bruma perturba o teu olhar , que a natureza intima dessa alma se revela pouco a pouco e sempre por fragmentos.

 

 

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