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Arvore De Letras

Coisas lidas,ouvidas,cantadas, declamadas,faladas,escritas

Arvore De Letras

Coisas lidas,ouvidas,cantadas, declamadas,faladas,escritas

31
Jan12

Anedota deputado ,paraiso e inferno

AnnaTree

Coisas Lidas

 

 

Um deputado está andando tranqüilamente quando é atropelado e morre.

A alma dele chega ao Paraíso e dá de cara com São Pedro na entrada.

-'Bem-vindo ao Paraíso!'; diz São Pedro

-'Antes que você entre, há um probleminha.

Raramente vemos parlamentares por aqui, sabe, então não sabemos bem o que  fazer com você.

-'Não vejo problema, é só me deixar entrar', diz o antigo  deputado.

-'Eu bem que gostaria, mas tenho ordens superiores. Vamos fazer o seguinte:

Você passa um dia no Inferno e um dia no Paraíso Aí, pode escolher onde quer passar a eternidade.

-'Não precisa, já resolvi. Quero ficar no Paraíso diz o deputado.

-'Desculpe, mas temos as nossas regras. '

Assim, São Pedro o acompanha até o elevador e ele desce, desce, desce até o  Inferno.

A porta se abre e ele se vê no meio de um lindo campo de golfe.

Ao fundo o clube onde estão todos os seus amigos e outros políticos com os  quais havia trabalhado.

Todos muito felizes em traje social.

Ele é cumprimentado, abraçado e eles começam a falar sobre os bons tempos em  que ficaram ricos às custas do povo.

Jogam uma partida descontraída e depois comem lagosta e caviar.

Quem também está presente é o diabo, um cara muito amigável que passa o tempo todo dançando e contando piadas.

Eles se divertem tanto que, antes que ele perceba, já é hora de ir embora.

Todos se despedem dele com abraços e acenam enquanto o elevador sobe.

Ele sobe, sobe, sobe e porta se abre outra vez. São Pedro está esperando por  ele..

Agora é a vez de visitar o Paraíso.

Ele passa 24 horas junto a um grupo de almas contentes que  andam de nuvem em  nuvem, tocando harpas e cantando.

Tudo vai muito bem e, antes que ele perceba, o dia se acaba e São Pedro retorna.

-' E aí ? Você passou um dia no Inferno e um dia no Paraíso.

Agora escolha a sua casa eterna.' Ele pensa um minuto e responde:

-'Olha, eu nunca pensei .. O Paraíso é muito bom, mas eu acho que vou ficar  melhor no Inferno.'

Então São Pedro o leva de volta ao elevador e ele desce, desce, desce até o  Inferno.

A porta abre e ele se vê no meio de um enorme terreno baldio cheio de lixo.

Ele vê todos os amigos com as roupas rasgadas e sujas catando o entulho e colocando em sacos pretos.

O diabo vai ao seu encontro e passa o braço pelo ombro do deputado.

-' Não estou entendendo', - gagueja o deputado - 'Ontem mesmo eu estive aqui  e havia um campo de golfe, um clube, lagosta, caviar, e nós dançamos e nos divertimos o tempo todo. Agora só vejo esse fim de mundo cheio de lixo e meus amigos arrasados!!!'

O diabo olha pra ele, sorri ironicamente e diz:




-'Ontem estávamos em campanha.
Agora, já conseguimos o seu voto...'

27
Jan12

Hino da 1ª carta aos coríntios

AnnaTree

Coisas Declamadas

 

 

O amor paciente, repleto de bondade,

O amor que desconhece a inveja e não ostenta orgulho,

O amor sem vaidade, que descura o próprio interesse,

E não se irrita e não suspeita mal,

O amor que não colhe alegria da injustiça

Mas se alegra com a verdade;

Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera,

Tudo suporta.


Ao Carlos :)

25
Jan12

Escalar-te lábio a lábio

AnnaTree

Coisas Declamadas





Escalar-te lábio a lábio/percorrer-te: eis a cintura
o lume breve entre as nádegas/e o ventre, o peito, o dorso
descer aos flancos, enterrar/os olhos na pedra fresca
dos teus olhos,/entregar-me poro a poro
ao furor da tua boca,/esquecer a mão errante
na festa ou na fresta/aberta à doce penetração
das águas duras,/respirar como quem tropeça
no escuro, gritar/às portas da alegria,
da solidão./Porque é terrível/subir assim às hastes da loucura,
do fogo descer à neve./Abandonar-me agora
nas ervas ao orvalho-/a glande leve.

Eugénio de Andrade

20
Jan12

UM SILENCIO REFULGENTE ANTONIO LOBO ANTUNES

AnnaTree

Coisas Lidas



Acho que a coisa mais importante que me aconteceu na vida foi uma viagem de cerca de um mês a Itália, com o meu avô. O meu avô guiava e eu sentado ao lado dele, com um volante de plástico, fingia que guiava também.

(…)

De vez em quando o meu avô fazia-me uma festa no pescoço. É engraçado mas ainda sinto os dedos dele.

(…)

As paixões demoravam a passar nessa época em que tudo era lento. Dias compridíssimos, dentes que demoravam séculos a nascer. O meu padrinho dava-me dinheiro pelos dentes de leite. Se eu fosse jacaré estava rico

(…)

A torre Eiffel parece-me uma coisa por acabar, que julgava só existir dentro de um pisa papeis. Voltava-se ao contrário e um redemoinho de palhetas douradas esvoaçavam ao redor daquilo. Talvez o meu avo tivesse força para voltar a Paris mas por um motivo qualquer que me escapa não o fez, e portanto não houve palhetas douradas nenhumas. Ainda pensei em pedir-lhe. Respeitei o seu desinteresse pelo pisa-papéis e, dececionado, afastei o pescoço quando os dedos vieram. Logo a seguir, claro, arrependi-me. Se calhar o meu avo ia voltar-me, a mim, ao contrário, e eu cercado de palhetas douradas. Voltando a Portugal o oferecia-me ao marido da costureira e teria ficado lindamente em cima do rádio. Como me diziam sempre:

-tão bonito, tão loiro

(…)

E a seguir voltávamos, e a seguir o tal tempo lento pôs-se a andar cada vez mais depressa. Até hoje. Eu fiz dezoito anos e o meu avo morreu. Desde a sua morte não me aconteceu nada de importante. Queria dizer-lhe não tive filhos, avo, tive filhas: juro que não foi por mal. E escrevo, facto que tanto o alarmava chamou me ao escritório, perguntou-me no seu poder de síntese de oficial de cavalaria:

-és invertido, por acaso?

Eu não sabia o que era invertido. Pela sua cara tratava-se de uma palavra horrível e garanti-lhe logo que não. Olhou-me desconfiado, a murmurar, perguntei-lhe

- O que é que disse?

E ele a murmurar

- Nada, pode ir-se embora

Espiei-o da porta: continuava a murmurar. Depois de algumas investigações no dicionário e horas de reflexão atarantada, conclui que invertido tinha que ver com pisa-papéis ao contrário e tudo cheio de palhetas douradas a brilharem. Estou a escrever isto de paris. Da janela vejo a torre Eiffel

A grande invertida

E fechei logo a persiana. Não quero que o meu avo pense mal de mim. Nem me aproximo dela. Fujo, evito-a. Não consinto que me levem lá. Pode ser que desta maneira me perdoe o pecado de escrever. Entretanto, para lhe acalmar as suspeitas, recuso-me a fazer o pino. Aqui estou eu como um fuso, direito, de pés no tapete. Se na televisão um intelectual fala da inversão de valores, desligo logo o aparelho não vá isso pegar-se e eu acabar pisa papéis do marido da costureira

 

18
Jan12

carpediem horatio

AnnaTree

Coisas Declamadas



"Colhe o dia, confia o mínimo no amanhã

Não perguntes, saber é proibido, o fim que os deuses

darão a mim ou a você, Leuconoe, com os adivinhos da Babilônia

não brinque. É melhor apenas lidar com o que se cruza no seu caminho

Se muitos invernos Júpiter te dará ou se este é o último,

que agora bate nas rochas da praia com as ondas do mar

Tirreno: seja sábio, beba o seu vinho e para o curto prazo

reescale as suas esperanças. Mesmo enquanto falamos, o tempo ciumento

está fugindo de nós. Colhe o dia, confia o mínimo no amanhã.

 

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