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Arvore De Letras

Coisas lidas,ouvidas,cantadas, declamadas,faladas,escritas

Arvore De Letras

Coisas lidas,ouvidas,cantadas, declamadas,faladas,escritas

29
Fev12

O frio por Luís Januário lido Jornal í

AnnaTree

Coisas  lidas

 

Este inverno enfrentámos o frio de peito aberto. Nem lareira, nem aquecimento central. Como vivemos num antigo presbitério, o ar frio da serra entra pelas frinchas e varre os cantos. Da casa. Conheço-lhe as voltas. (…) O sítio mais protegido da casa é a cozinha. O fogão aquece o aposento e podemos comer, beber e conversar até recolher aos quartos. Já não há crianças pequenas. Mas nunca vi crianças a queixarem-se do frio. Como a densidade dos recetores do frio é maior na ponta do nariz, talvez as crianças não sejam especialmente sensíveis.

(…)

Nesses dias o burrinho James tem autorização para entrar e dormir na saleta. O burrinho james é o mais popular dos membros da nossa família. Quando vamos ao mercado da vila ele precede-nos. Como escolhemos sempre o mesmo, as vendedoras preparam os produtos á sua chegada. Só compramos queijo, leite e legumes que não se deem nas hortas dos vizinhos, onde as curgetes crescem particularmente bem.

(…)

Lavamo-nos aos pedaços. Agora acabaram-se os duches.

(…)

O frio é bom, revigorante. O frio faz-nos sentir vivos- dizem os mais velhos.

(…)

O frio para a decomposição dos corpos. Seca as gorduras, limpa o ar das poeiras e dos insetos. O frio é rigoroso. No frio as mulheres são mais altas, mais ásperas e os amantes mais esforçados e inventivos. As crianças crescem nos meses frios, concentram-se melhor, sobretudo longe do mar e das cidades marítimas. O frio repõe a ordem que o verão perturbara, põe fim á estouvada exuberância do verão, apaga os fogos, leva a agua às fontes e gela os lameiros.

O calor acelera a decomposição dos corpos. Os homens andam descalços, calções. Só o frio dá dignidade, gravitas, acutilância. Não há imobilidade com o frio. Aqui todos ajudamos: a dar comida aos animais, durante os cozinhados, a por a mesa, lavar a loiça e arrumar a cozinha, tirar as mantas dos armários. Se algum lê mais alto um excerto de livro fá-lo em movimento, da cozinha para a sala e da sala para a cozinha. E quase todos os acompanham ou, quando são muitos, balanceiam o corpo de um pé para o outro. Esta leitura acompanhada, peripatética, é o nosso maior divertimento, o calor do nosso serão. Descobrimos que em movimento se lê ouve e pensa melhor. É assim que os mais novos preparam os testes, os do meio as intervenções de maior responsabilidade e os mais velhos põem em comum as suas leituras.

(…)

Para mim a discussão acabara antes. Vi o mocho sentar-se na penumbra da sala. Pegar num caderno. E começar a escrever febrilmente. Não lhe distinguira a cara. Só as mãos, o caderno, o tronco. O Mocho tremia. De vez em quando um calafrio percorria-lhe o corpo e dissipava-se nas mãos. Ele parava de escrever até que o tremor o deixasse recomeçar. Aproximei-me, segurei-lhe as mãos geladas. Ele libertou-as para fechar o caderno – o Mocho escreve às escondidas.

- Em que estado estas, Mochinho.- Disse-lhe. – Vai – te deitar.

- É só frio, pai-respondeu – me.

27
Fev12

Manuel António Pina

AnnaTree

Coisas  Declamadas

 

Naquele tempo falavas muito de perfeição,
da prosa dos versos irregulares
onde cantam os sentimentos irregulares.
Envelhecemos todos, tu, eu e a discussão,

... agora lês saramagos & coisas assim
e eu já não fico a ouvir-te como antigamente
olhando as tuas pernas que subiam lentamente
até um sítio escuro dentro de mim.

O café agora é um banco, tu professora do liceu;
Bob Dylan encheu-se de dinheiro, o Che morreu.
Agora as tuas pernas são coisas úteis, andantes,
e não caminhos por andar como dantes.

23
Fev12

«A carta a um jovem poeta»?

AnnaTree

Coisas  lidas

 

Conhece «A carta a um jovem poeta»? É um diálogo entre Rilke e um jovem poeta que lhe tinha entregue uns poemas. O Rilke simpaticamente disse que tinha gostado de alguns, a que o jovem terá aduzido esperançado: “acha então que devo continuar a escrever? “Tendo Rilke respondido de pronto: “Ó homem, se pode parar de escrever, aproveite.» Eu acho até que é um dever cívico. Lido jornal i fev. /2012

20
Fev12

Lenda do beija flor e do leão

AnnaTree

 

Coisas  lidas

 

 

Havia um grande incêndio da floresta

E o beija-flor levava no bico
Uma gotinha de água para ajudar
A eliminar o sinistro.
Tanto fez isso, que o leão impacientou-se
Disse ao pássaro:
- Beija-flor, você acha que com essa gotinha
Vai apagar o incêndio?
- Não - respondeu o beija-flor-
Estou, apenas fazendo a minha parte...

16
Fev12

SE VIR O LA FONTAINE POR AÍ…. PROVE-LHE QUE VALE MAIS SER CIGARRA DO QUE FORMIGA Tiago Matos Fernmandes Vocesa@åcj.pt

AnnaTree

 

 

 

 Coisas Lidas 

 

O leitor é frequentemente visitado por aquele sonho em que herda a fortuna do seu tio do Brasil, desaparece um escondido algures na Polinésia Francesa e deixa de trabalhar para o resto dos seus dias? É, não é? Claro que sim! Mas permita-me uma observação: seria alguma vez capaz de largar a sua bem-sucedida carreira profissional e aquela sensação de orgulho mal disfarçado pelas 16 horas de trabalho diário a que estoicamente se sujeita, para se meter numa aventura sem desafios, sem conquistas, sem história? Não, pois não? Claro que não!

Apesar de ter mudado radicalmente de opinião num espaço de apenas dois parágrafos, 460 caracteres e 10 segundos, o meu amigo sabe perfeitamente o que quer: trabalhar, sentir-se útil, desenvolver as suas capacidades. Por isso, está longe de aceitar a tese de que «o trabalho está na origem de toda a degenerescência intelectual e de toda a deformação orgânica», como afiançava o caduco Paul Lafargue.

Apesar de tudo isto, continua a sonhar com a sua Pina colada e um por do sol no pacífico sul, certo? Claro que sim! (eu bem dizia que o meu amigo era de ideias fixas…)

Pois é, o que você precisa desesperadamente é de preguiçar. Se não puder ser em Vanuatu, que seja no seu local de trabalho: estenda as pernas em cima da sua secretaria, passe languidamente os olhos por uma revista cor-de-rosa e esqueça o seu negócio, pelo menos, por umas horas….

E faça também o favor de esquecer o velho Cícero, que tinha a ousadia de dizer que «ócio é incompatível com negócio» bem se vê que esse senhor era um pobre infeliz que nunca soube o que era um cartão de crédito ilimitado, férias pagas ou um automóvel oferecido pela empresa!

E last but not the least: não seja você a formiguinha da versão moderna da fábula da cigarra e da formiga. Não me diga que não conhece…

Era uma vez uma formiga que trabalhava de sol a sol para preparar o inverno que se avizinhava. A muito esforço, passava os dias a carregar pesados grãos de acusar para dentro da sua casa. Pelo contrário, a cigarra passava as noites a embriagar-se e a cantar nas discotecas da cidade, onde estoirava irresponsavelmente todo o dinheiro que tinha, negligenciando a preparação dos rigores de Dezembro.

Chegada a estacão do inverno, a formiga tinha a casa atulhada de alimentos. E a preguiçosa da cigarra nem um miserável grão de açúcar para bicar….

Quando a formiga se preparava para refastelar-se no sofá e dormir uma soneca merecida, alguém a chamou. Abriu a porta de casa e nem queria acreditar no que via: a cigarra vestida com um lustroso vison, recostada no banco traseiro de um Bentley conduzido por um chauffeur!

- Olá amiga! disse-lhe a cigarra

- Peço-lhe um favor: toma conta da minha casa até á primavera?

- Até a estacão da primavera?

Estranhou a sua vizinha formiga.

-não sabe? Um agente famoso ouviu me cantar e contratou-me para ir para Paris gravar um disco. Já agora, quer alguma coisa de paris?

- Quero, respondeu a inconsolável formiga, contendo a revolta.

«Se vir por lá um tal de La Fontaine, diga-lhe que vá para o raio que o parta!»

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