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Arvore De Letras

Coisas lidas,ouvidas,cantadas, declamadas,faladas,escritas

Arvore De Letras

Coisas lidas,ouvidas,cantadas, declamadas,faladas,escritas

12
Set13

Do mal ou menos pedro paixão

AnnaTree

COISAS LIDAS

ORAÇÃO
Meu Deus, livra-me de mim. Pai, continua a ser o nosso pai. Faz com que a nossa vida seja o sinal de outra vida. Ajuda-nos a aceitar, na incerteza destes dias que parecendo ser tudo nada são, o que chega e o que vai. Não nos deixes desesperar mais do que necessário para continuarmos despertos e para que depois possamos descansar na tua paz. Continua a mostrar-te sem nunca te vermos porque não somos dignos da tua presença e enorme é a nossa aflição. Fizeste-nos à tua imagem e sem ti enlouquecemos. Quiseste que só te encontrássemos com a alma e perdemo-nos com os olhos da distracção. Acompanha o meu filho e o filho de todos os outros, por mais que se percam que te possam de novo encontrar. Perdoa-nos as palavras injustas, a insensatez dos nossos actos, a grande ignorância que se esconde na nossa vaidade. Ajuda-nos a ser fiéis ao que prometemos, assusta-nos quando levianamente trocamos o que importa pelo que não tem importância, castiga-nos quando julgamos que sozinhos conseguimos fazer o que quer que seja.
Somos feitos de ossos, pele e carne. E de uma parte divina que quer voltar a ti, nosso pai.

10
Set13

Do mal ou menos pedro paixão

AnnaTree

COISAS LIDAS

 

CURRICULUM VITAE

(….)

Na escola primária nunca deixou o quadro de honra, apesar da mãe sempre o avisar que o trimestre seguinte não seria tão fácil.

(…) aos catorze anos viu na televisão imagens das cinzas de Hiroshima e a ciência perdeu num instante a sua aura, forçando-a a julgar que mais valioso do que a verdade é o bem. Dicidiu ir estudar direito, esforçando-se em disciplinas que, não requerendo a ideal evidência das matemáticas, são irremediávelmente trabalhosas e ocupam muito a memória.

(…)

 Sendo a economia, em ultima instância, a determinante das relaçoes sociais.

(…)

Bruscamente decidiu ir para a Alemanha-escolheu uma cidade no mapa, ao acaso-trocando a rapariga pela ilusão do saber, que julgava mais consistente do que o amor, sem mesmo precisar de o conhecer.

Dormiu tres anos num quarto alugado que tinha a largura dos seus braços esticados. Nunca fechou a mala grande que o acompanhava porque necessitava de não esquecer o que é estar de passagem, e continuou a viver em bibliotecas fabulosas.

(…)

Morreu com trinta e dois anos num despiste de automovel a caminho de Sintra. O seu corpo encontra-se no cemitério que dá pelo nome mais que irónico dos prazeres.

03
Set13

Do mal ou menos pedro paixão

AnnaTree

COISAS LIDAS

ESTRANGEIRA

(…)

Sinto a falta do espelho do meu quarto para que ele me reconheça. Esvazio-me, és o único a poder salvar-me. Adormeces demasiado depressa  e acordas demasiado cedo. Não devia ter-te amado. Tu não gostas do amor. Tu não gostas senão do mesmo, do que se repete, do chá todos os dias no jardim da estrela, diante do lago onde habitam os cisnes, do prazer antes do sono, dos mesmos passeios, das mesmas pessoas desde sempre. Dos mesmos livros, dos mesmos quadros, da mesma passagem de Proust que me fazias ler em voz alta enquanto bebias o teu chá de limão no meio de hibiscus do jardim da estrela. Eras digno e miope como um senhor que não era da minha idade . As tuas antigas amantes são belas e infelizes. Nada parece ser deixado ao acaso na historia da tua vida.

Na praia montavas a cavalo como tinhas aprendido nos colegios ingleses – só de te ver sentia arrepios. Dir-se-ia teres lido tudo o que se deve ler: Musil, Kafka,Cervantes. Aos dezoito anos arriscaste a prisão com palavras vermelhas nas paredes, logo comunistas. Todos os teus amigos são homosexuais. Mostraste—me o liceu de onde nunca saiste do quadro de honra. Não parece haver falha na tua personagem, fissura por onde se entre. Ao ouvir-te a tua vida era vasta e densa. Não entento, por vezes, parecia-me que pelo menos uma parte de ti tinha ficado pelo caminho, morta algures ou pelo menos perdida , e que tambem para mim estavas morto e perdido. Tens medo dos sentimentos . Repetes as mesmas frases. Procuro-te por detrás da tua ausência.

(…)

Quando te conheci vivias como um monge. Levantavas-te cedo, engolias um ovo cru. Não te davas com quase ninguém.

(…)

Esta noite é demasiado vasta e perco-me em mim. Julgas que escrevo à maquina para te impedir de dormir. Tomas um indutor do sono. Olho a cidade , os carros buzinam na noite. Já não consigo falar-te , nem sei como te alcançar.

Dizias-me : «És a única pessoa que suporto ao meu lado. Não gosto das pessoas . Mas preciso de ti» mais tarde, quando tive essa doença , perguntates-me se ia morrer. Disse-te que não. Muito bem, disseste-me,  assim não precisamos de nos casar. Quase morta aceitar-me-ias.

«O que detesto em ti»também mo dizias, «é julgares que não gosto de ti»

(…)

Receio a tua cólera. Não suporto mais seguir-te no teu labirinto. Sinto-me tão pequena. Há uma mosca pousada no tecto. Sinto-me enlouquecer. Disseste-me ainda que as caricias não atravessam a pele. Sacrificas-me . deixei-te por duas vezes, voltei duas vezes. Estas em mim como uma ferida.

Não devia ter vindo. Não nos entendemos. O nosso desejo, o nosso prazer são dolorosos. Fazes-me mal e pedes-me para não gritar. Ainda ousas dizer que te pertenço. Desintegro-me nos teus braços, disformo-me. Bebo aguardentes que me queimam. Começo a odiar-te. Lisboa é uma cidade inútil. Há um polvo morto sobre o mármore da cozinha. Continuo ao mesmo tempo a amar-te desmedidamente.

 

Na floresta de Monsanto as prostitutas esperam à beira dos pinheiros mansos. Sinto com horror transformar-me numa pequena peça de um puzzle. Continuas a ouvir Ravel e Debussy no teu quarto. Decido voltar para o meu país e viver a vida dos mortais.

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