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Arvore De Letras

Coisas lidas,ouvidas,cantadas, declamadas,faladas,escritas

Arvore De Letras

Coisas lidas,ouvidas,cantadas, declamadas,faladas,escritas

31
Out13

Um poema de Manuel António Pina escolhido por Vasco Graça Moura para o livro 366 Poemas que Falam de Amor.

AnnaTree

 

coisas declamadas


Café do molhe

 

Perguntavas-me

(ou talvez não tenhas sido

tu, mas só a ti

naquele tempo eu ouvia) 

 

porquê a poesia,

e não outra coisa qualquer:

a filosofia, o futebol, alguma mulher?

Eu não sabia 

 

que a resposta estava

numa certa estrofe de

um certo poema de

Frei Luis de Léon que Poe 

 

(acho que era Poe)

conhecia de cor,

em castelhano e tudo.

Porém se o soubesse 
de pouco me teria

então servido, ou de nada.

Porque estavas inclinada

de um modo tão perfeito 

 

sobre a mesa

e o meu coração batia

tão infundadamente no teu peito

sob a tua blusa acesa


que tudo o que soubesse não o saberia.

Hoje sei: escrevo

contra aquilo de que me lembro,

essa tarde parada, por exemplo.

 


 

29
Out13

MUITO MEU AMOR Pedro Paixão

AnnaTree

COISAS LIDAS

 

são os meus vicios, os meus únicos vicíos : comer a realidade com os olhos e sentir o prazer a desfazer-se-me na boca

(…)

Todas as feridas serão material de poemas. Portanto não devem ser evitadas. De preferência mantê-las abertas, até por fim sararem. De outro modo não deixarão outra cicatriz que não seja umas linhas, uma página, no máximo. Era um recado, um aviso,uma premonição.

(…)

Do que tu gostas mais em mim é dos meus pecados, dos meus defeitos físicos, de tudo o que não consigo ser, onde falhei, onde não pára nunca de doer, é isso o que tu queres, o que queres ter perto de ti, queres aceitar e cuidar, só isso, e o resto só se vier com isso, porque é isso  que tu amas em mim. Será isso? Será assim? Será possível pela primeira vez? Pode ser, talvez seja disso feito o nosso amor. Pelo menos grande parte, meu querido, amor meu.

Não desesperes. É assim, simplesmente , porque o sentido das coisas não está nas coisas mas em ti. Só tu podes dar um sentido ao que acontece

(…)

Tudo isto foi há muito tempo e eu perdoei-te tudo e não quero esquecer

28
Out13

lou reed a sua musica preferida

AnnaTree

I'll be your mirror, reflect what you are

In case you don't know, I'll be the wind

The rain and the sunset

The light on your door to show that you're home

 

When you think the night has seen your mind

That inside you're twisted and unkind

Let me stand to show that you are blind

Please put down your hands 'cause I see you

 

I find it hard to believe

You don't know the beauty that you are

But if you don't let me be your eyes

A hand in your darkness, so you won't be afraid

 

When you think the night has seen your mind

That inside you're twisted and unkind

Let me stand to show that you are blind

Please put down your hands 'cause I see you

 

I'll be your mirror

25
Out13

MUITO MEU AMOR Pedro Paixão

AnnaTree

 

COISAS LIDAS


«gostava de saber porque te amo nesta forma estranha de te não ter amado nunca Virgilio Ferreira

(…)

E ele lembrava-se de como ela, de um momento para o outro, ela passava de fechada concha inviolável a flor aberta ao vento que a boca dele soprava para a acariciar. E ele lembrava-se , ele sentado aos pés dela a tocar ao de leve nas pétalas roseas das camélias, primeiro com as mãos, depois com a ponta dos lábios, como numa ferida, uma pequena ferida que é preciso ainda chupar.e ele lembrava-se dos olhos dela , mais do que tudo, dos olhos que se perdem lentamente , e depois cada vez mais, e d epois, de repente , começam a chorar. e ele lembrava –se de a agarrar com toda a força que tinha e de ela dizer: agarra-me.

(…)

Queres saber quem sou? Eu sou o que te olha e espia para te colher e depois guardar num lugar que é só meu. Para isso serve o papel. O resto não precisas de saber. Nem convém. Só te ia distrair,podes crer. Eu sou o que mergulha as mãos na tua vida para sentir a minha a voltar.

23
Out13

Do mal ou menos pedro paixão

AnnaTree

COISAS LIDAS

 

PRESCRIÇÃO

Fui ao médico e disse-lhe :«sofro de antecipação da morte» . O médico primeiro ficou calado e depois pediu-me que descrevesse. E eu disse-lhe assim:«doutor , pode ser a qualquer hora, onde quer que esteja , com quem quer que seja. Olho para uma coisa e, sem querer, começo a retirar-lhe uma a uma todas as ligações que ela tem com as outras coisas até ela acabar por se sumir.

(…)

« O que é que lhe aconteceu aos doze anos, lembra-se ?», perguntou .«perfeitamente,» respondi.«estava a jogar futebol no terraço da escola e de repente olhei para a bola e pensei: tudo isto que isto que está á minha volta e parece ser tão grande, pode caber dentro de uma bola que está a ser jogada num outro terraço maior e nós  sem sabermos. E senti uma tontura grande de que também não me esqueci. Encontrei mais tarde o mesmo em Shakespeare e em Leibniz , sabe? Se não eram loucos eu também não sou. Isso tem-me ajudado muito».

(…)

«estou a ver»,acedeu. O que poderá um médico aconselhar no meu caso?

(…)

o médico fixou-me nos olhos, virou-se para o lado, pegou numa caneta e num papel , no qual escreveu e que em seguida me entregou, levantando-se da cadeira e estendendo-me a mão direita em despedida. Dobrei-o em quatro, agradeci, e pu-lo na carteira .

li-o no metro a caminho de casa , parado numa estação qualquer. Tinha escrito:«tenha paciência. Eu também sou assim».

21
Out13

366 poemas que falam de amor», org. por Vasco Graça Moura,

AnnaTree

COISAS DECLAMADAS

 

Tenho um decote pousado no vestido e não sei se voltas,
mas as palavras estão prontas sobre os lábios como
segredos imperfeitos ou gomos de água guardados para o 
verão.
E, se de noite as repito em surdina, no silêncio
do quarto, antes de adormecer, é como se de repente
as aves tivessem chegado já ao sul e tu voltasses
em busca desses antigos recados levados pelo tempo:

 

Vamos para casa? O sol adormece nos telhados ao domingo
e há um intenso cheiro a linho derramado nas camas.
Podemos virar os sonhos do avesso, dormir dentro da tarde
e deixar que o tempo se ocupe dos gestos mais pequenos.

 

Vamos para casa. Deixei um livro partido ao meio no chão
do quarto, estão sozinhos na caixa os retratos antigos
do avô, havia as tuas mãos apertadas com força, aquela 
música que costumávamos ouvir no inverno. E eu quero rever
as nuvens recortadas nas janelas vermelhas do crepúsculo;
e quero ir outra vez para casa. Como das outras vezes.

 

Assim me faço ao sono, noite após noite, desfiando a lenta
meada dos dias para descontar a espera. E, quando as crias
afastarem finalmente as asas da quilha no seu primeiro voo, 
por certo estarei ainda aqui, mas poderei dizer que, pelo
menos uma ou outra vez, já mandei os recados, já da minha 
boca ouvi estas palavras, voltes ou não voltes.
 

 

in «366 poemas que falam de amor»,
Antol. org. por Vasco Graça Moura, 
Lisboa: Quetzal, 2003

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