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Arvore De Letras

Coisas lidas,ouvidas,cantadas, declamadas,faladas,escritas

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Coisas lidas,ouvidas,cantadas, declamadas,faladas,escritas

28.11.13

POEMA DE JOAO APOLINARIO


AnnaTree

COISAS DECLAMADAS

 É preciso avisar toda a gente,

dar notícia informar prevenir
que por cada flor estrangulada
há milhões de sementes a florir.

É preciso avisar toda a gente
segredar a palavra e a senha
engrossando a verdade corrente
duma força que nada detenha.

É preciso avisar toda a gente
que há fogo no meio da floresta
e que os mortos apontam em frente
o caminho da esperança que resta.

É preciso avisar toda a gente
transmitindo este morse de dores.
É preciso imperioso e urgente
mais flores mais flores mais flores.


25.11.13

Jose Carlos Ary dos Santos


AnnaTree

COISAS DECLAMADAS

 

Meu amor     meu amor

meu corpo em movimento

minha voz à procura

do seu próprio lamento.

 

 

 

Meu limão de amargura     meu punhal a escrever

nós parámos o tempo     não sabemos morrer

e nascemos     nascemos

do nosso entristecer.

 

 

 

Meu amor     meu amor

meu pássaro cinzento,

a chorar lonjura,

do nosso afastamento.

 

 

 

Meu amor     meu amor

meu nó de sofrimento

minha mó de ternura

minha nau de tormento

este mar não tem cura      este céu não tem ar

nós parámos o vento     não sabemos nadar

e morremos     morremos

devagar      devagar.

 

 

 

 

 

in «366 poemas que falam de amor»

Antologia organizada por Vasco Graça Moura,

Lisboa: Quetzal, 

15.11.13

in «366 poemas que falam de amor», Antol. org. por Vasco Graça Moura, Lisboa: Quetzal, 2003


AnnaTree

COISAS DECLAMADAS

 

Tenho um decote pousado no vestido e não sei se voltas,

mas as palavras estão prontas sobre os lábios como

segredos imperfeitos ou gomos de água guardados para o

verão.

E, se de noite as repito em surdina, no silêncio

do quarto, antes de adormecer, é como se de repente

as aves tivessem chegado já ao sul e tu voltasses

em busca desses antigos recados levados pelo tempo:

 

 

 

Vamos para casa? O sol adormece nos telhados ao domingo

e há um intenso cheiro a linho derramado nas camas.

Podemos virar os sonhos do avesso, dormir dentro da tarde

e deixar que o tempo se ocupe dos gestos mais pequenos.

 

 

 

Vamos para casa. Deixei um livro partido ao meio no chão

do quarto, estão sozinhos na caixa os retratos antigos

do avô, havia as tuas mãos apertadas com força, aquela

música que costumávamos ouvir no inverno. E eu quero rever

as nuvens recortadas nas janelas vermelhas do crepúsculo;

e quero ir outra vez para casa. Como das outras vezes.

 

 

 

Assim me faço ao sono, noite após noite, desfiando a lenta

meada dos dias para descontar a espera. E, quando as crias

afastarem finalmente as asas da quilha no seu primeiro voo,

por certo estarei ainda aqui, mas poderei dizer que, pelo

menos uma ou outra vez, já mandei os recados, já da minha

boca ouvi estas palavras, voltes ou não voltes.

 

 

 

12.11.13

morena Guerra Junqueiro, in 'A Musa em Férias'


AnnaTree

 

COISAS DECLAMADAS

 

MorenaNão negues, confessa 
Que tens certa pena 
Que as mais raparigas 
Te chamem morena. 

Pois eu não gostava, 
Parece-me a mim, 
De ver o teu rosto 
Da cor do jasmim. 

Eu não... mas enfim 
É fraca a razão, 
Pois pouco te importa 
Que eu goste ou que não. 

Mas olha as violetas 
Que, sendo umas pretas, 
O cheiro que têm! 
Vê lá que seria, 
Se Deus as fizesse 
Morenas também! 

Tu és a mais rara 
De todas as rosas; 
E as coisas mais raras 
São mais preciosas. 

Há rosas dobradas 
E há-as singelas; 
Mas são todas elas 
Azuis, amarelas, 
De cor de açucenas, 
De muita outra cor; 
Mas rosas morenas, 
Só tu, linda flor. 

E olha que foram 
Morenas e bem 
As moças mais lindas 
De Jerusalém. 
E a Virgem Maria 
Não sei... mas seria 
Morena também. 

Moreno era Cristo. 
Vê lá depois disto 
Se ainda tens pena 
Que as mais raparigas 
Te chamem morena! 

Guerra Junqueiro, in 'A Musa em Férias'

fotografia Frank Horvat

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