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Arvore De Letras

Coisas lidas,ouvidas,cantadas, declamadas,faladas,escritas

Arvore De Letras

Coisas lidas,ouvidas,cantadas, declamadas,faladas,escritas

27.02.14

Estas tão bonita ,Mae


AnnaTree

Hoje tirei um dia para mim, Mãe. Penso em todos os dias que tu quiseste tirar para ti e nós todos nunca permitimos, egoisticamente, nunca permitimos... dizias-me tantas vezes... preciso de estar sozinha ás vezes....e logo a seguir a campainha tocava e eram os miudos que vinham almoçar no intervalo da escola...e mal abrias a porta tocava ao telefone e era uma das tias para te prender ao telefone e que tu ouvias pacientemente e de vez em quando dizias pois...pois...com a tua empatia para lhes assinalares que estavas ali a ouvi -las....fazes me tanta falta...e continuo a ser egoista a pensar que me fazes tanta falta...embora estejas dentro de mim...

 


26.02.14

Pequena litania para um amor familiar Francisco Jose Viegas


AnnaTree

 

COISAS DECLAMADAS

Pequena litania para um amor familiar

sê devastador e violento como a tempestade

ao abrir as gavetas, ao depor sobre a mesa

nenhuma razão que outros conheçam. alimenta-te

de mim e de ti, guarda as fotografias em paredes

brancas onde nenhuma ave se demore,

 

abre-me as feridas, as mais recentes e as antigas.

 

sê brando e lento como as manhãs de dezembro

ao desfazerem-se em neve, esquece os recados,

os pequenos delitos escondidos em segredo.

os telhados abrigam-nos da maledicência, do azar,

daquilo que o tempo gasta em passar sobre nós.

 

leva-me assim, como um acidente entre os dedos.

 

sê luminoso e intenso, ó meu amor, retrato escondido,

colecciona os declives, ensina-me essa geografia,

sê inocente e puro, mesmo que a noite interrompa a vida

e a nossa pele estremeça. deixa que bebamos

apenas se o prazer magoar onde nasce a sede,

 

fala-me de mim e de ti, se nos sentarmos nas dunas.

 

Francisco José Viegas

22.02.14

Falar na cama Philip Larkin, trad. Vasco Graça Moura, ed. Quetzal.


AnnaTree

coisas declamadas

 

Falar na cama devia ser, de resto,
o mais fácil, deitados remonta tão atrás,
como emblema de um par a ser honesto.

Mas passa mudo o tempo em seus vagares.
Lá fora, o vento, não de todo lesto,
faz e dispersa nuvens pelos ares.

Ao longe, em seu negrume há as cidades. Não,
nada cuida de nós. Nada a mostrar
porque é tal a distância do isolamento são

ainda mais difíceis de encontrar
palavras doces e verdadeiras prestes,
ou não inverdadeiras nem agrestes.


20.02.14

Rosa Alice Branco, in 'Da Alma e Dos Espíritos Animais'


AnnaTree

COISAS DECLAMADAS


 

 

Hora de Ponta

 

Apanhar um lugar a esta hora é uma sorte, poder olhar 
pela janela e fingir que tenho imunidade diplomática, 
que estou de lá do vidro com o hálito das folhas, o sabor 
a hortelã e um ar fresco interrompido pela velha senhora 
a quem cedo o assento e um sorriso enquanto me agradece 
de nada, de ir agora em pé empurrada, de cá do vidro 
a apanhar uma overdose de realidade com o bafo quente 
do homem gordo na minha orelha, com a mão livre 
apertada contra o peito, contra o visco da hora apinhada 
na minha pele pública, na minha pele de todos. 
No banco em frente uma mulher afaga a neta com o sorriso 
doce e cansado, os olhos brilhantes, a candura intacta 
toma-me toda como se eu fosse um anjo 
descendo à terra com um corpo real para que a minha pele 
receba a dádiva da tua, aceite os cheiros de um dia de trabalho, 
o calor excessivo, a proximidade insustentável e leia no teu rosto 
cada mandamento nos solavancos que nos atiram uns para 
os outros. No teu rosto ã hora de ponta aprendo a compaixão 
até sair na próxima paragem com um suspiro de alívio. 

Rosa Alice Branco, in 'Da Alma e Dos Espíritos Animais'

18.02.14

Amizade – Carlos Queirós


AnnaTree

COISAS DECLAMADAS

 

De mais ninguém, senão de ti preciso:

Do teu sereno olhar, do teu sorriso,
Da tua mão pousada no meu ombro.
Ouvir-te murmurar: – «Espera e confia!»
E sentir converter-se em harmonia,
O que era, dantes, confusão e assombro.

 

ICarlos Queirós

in 366 poemas que falam de amor,
antologia organizada por Vasco da Graça Moura
Quetzal Editores

 

13.02.14

JOÃO PENHA (1838-1919) - JURA


AnnaTree

COISAS DECLAMADAS

 





Quando ao ver-te aborrecida,
Em teu sofá recostada,
Te propus, com voz magoada,
Consagrar-te a alma e a vida,

Uma proposta sentida,
Recebeste-a à gargalhada!
E logo eu disse: coitada!
Estás de todo perdida!

Como na boca do sapo
Se vai meter a doninha,
Hás-de cair-me no papo.

Não me escapas, avesinha:
Não me tenho por guapo,
Mas, que importa? Hás-de ser minha!

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