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Arvore De Letras

Coisas lidas,ouvidas,cantadas, declamadas,faladas,escritas

Arvore De Letras

Coisas lidas,ouvidas,cantadas, declamadas,faladas,escritas

25
Mar15

OS CROMOS A MÃE POR RITA FERRO

AnnaTree

Por vezes, sinto-me ligeiramente desconfortada com as considerações demasiado poéticas que se tecem a respeito das mães em geral, como se uma mãe não fosse uma transgressora como outra qualquer, e, sobretudo, como se esse estatuto tantas vezes involuntário bastasse para nos absolver de todas as faltas e quase santificar. Vamos com calma. Definitivamente, uma mãe não é a desesperada da enfermaria seis que expulsa aos berros uma massa ensanguentada (essa ainda não é mãe, mas candidata), nem tão pouco a indigitada que vigia o sono, dá o peito a beber, muda as fraldas do recém-nascido incontinente (qualquer ama é capaz de fazer isso por derriço ou por dinheiro). Uma mãe, para além da sua condição de hospedeira acidental, programada, imposta, resignada, relutante ou babada de um futuro ser pensante, é alguém que vai tendo, ou não, direito a essa designação, pela sua contribuição anónima para a harmonia do mundo e serviços prestados á humanidade! Quantas vezes me tenho perguntado por que razão nunca ninguém se lembrou de atribuir o Nobel da Paz a uma mãe de 13 filhos (ou apenas dois) empenhada em fazer deles Gente? Nesse sentido, poderá haver algo mais simbólico, alegórico e universal do que uma mãe vulgar de Lineu que investe a fundo perdido em desconhecidos, que poderão mais tarde vir a nega-la, traí-la, esquecê-la, roubá-la, sová-la, abandona-la ou mesmo interna-la num «lar de velhos»? (…) E, por isso, não nos iludamos: as mães tanto podem ser as mais generosas, abnegadas e altruístas personagens desta Vida, como as mais déspotas, perversas e castrantes criaturas do Universo. Mas, enfim: desde que vamos sabendo que o exercício da maternidade começa só depois daqueles nove meses de enjoo e lágrima fácil, e que não se restringe ao acto de dar á luz naquela hora pequenina, mas durante toda a vida de um filho- ou de cada um, melhor dizendo-, é possível que um dia aprendamos a controlar melhor o nosso instinto de lobas para podermos criá-los de uma forma cada vez mais imaginativa e ajustada. Para merecer, então, talvez, todas essas qualidades fantásticas que os miúdos nos dedicam em verso ou em prosa em cartões com laços e corações comprados em cima da hora nos centros comerciais, e que, por enquanto, só servem para embaraçar as mais honestas.

16
Mar15

OS CROMOS O BEBÉ POR RITA FERRO

AnnaTree

Sempre achei que o bebé, essa bola de carne tenra e macia, que fita os dedos entornando os olhos e dá arrotos sem dizer «com licença», essa vida tão frágil e aflitivamente dependente da nossa, que cai se a largarmos e morre no primeiro segundo em que nos distraímos, esse óvulo que fecundamos por distracção, fraqueza, incúria, prazer e raramente amor exactamente por ele, esse feto que cresce no útero e morre no limbo, esse anjo também obrigado a viver no inferno, no nosso, esse inocente condenado a expiar os pecados de uma coquete qualquer de cabelos ruivos, ou de um marujo esganado por despejar em alguém, essa coisa, esse ser, essa essência, esse fruto, esse ente cuja única coisa que exige de nós é colo, ternura, calor e leite, como se não fosse nada e como se não fosse tudo o que também nós, ainda nós, continuamos a querer em adultos, sempre achei, dizia eu, que tem sido inexplicavelmente negligenciado pelos artistas. Vá-se lá saber porquê. Talvez porque os bebés não sejam cultura (já nada me espanta), talvez porque não tenham cultura (só nos faltava essa), talvez até porque tendo eles moleirinha em vez de crânio acabado, não têm, não podem ter, nunca terão a força, o carisma ou a consistência de personagens literárias. Não vou á literatura por que não me apetece, não vou á História porque não vem a prepósito, não vou á Musica de que só gosto de ouvir, mas vou ao cinema de que já sinto saudades. E aqui vai. Visconti, «O Intruso»: um recém-nascido de posto na neve (de prepósito) para morrer gelado. Plansky «A semente do Diabo»: uma mulher possuída e fecundada pelo demónio em pessoa. Peter Greenaway,«o bebe de Macôn»: uma mãe que gera um déspota de fraldas com poder absoluto para assassinar todo um povo. E isto irrita-me, sabem? E nem sequer é pelo facto de ser católica. Mas, tanto quanto me lembro, o novo testamento é a única historia que faz do bebe personagem principal e logo com tanta força que não só o torna imortal como nos eterniza também. Não admira. Aquilo é que se pode dizer mesmo que é obra do Criador

09
Mar15

OS CROMOS O MATADOR POR RITA FERRO

AnnaTree

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(…) Grande parte do sucesso do matador se deve não propriamente a uma panóplia de atributos, mas á segurança com que entra nas salas gingando o corpo, alisando a franja, agitando a gravata, cofiando o bigode, galando as mulheres. É ridículo, mas como é convencido e, logo, superior a chacota, não sofre tanto como deveria. Acha-se irresistível como homem e insuperável como amante, e é essa a convicção, mais do que qualquer outro atractivo, que as repta primeiro e as desgraças depois. (…) Tem o seu quê de misógino porque, uma vez embeiçadas não sabe o que fazer com elas a não ser torna-las completamente infelizes. (…) É o pior marido de todos, porque morre sem distinguir a legitima e passa a vida a trocar-lhe o nome. (…) Sexualmente, deixa a desejar. É tão cheio de si, tão especializado em desempenho e competência, que nunca lhe ocorreu que o sexo possa ser mais mental que mecânico. Um único objectivo o persegue: consumar. (…) Mas tem de haver algo mais serio nesta atracção fatal desencadeada por cromagnons que, como o nome indica, têm das mulheres uma visão lascada. (…) A nostalgia que ainda nos desperta um corpo que já caminha com a espinha direita, mas que ainda não aprendeu a utilizar o cérebro

05
Mar15

OS CROMOS O GORDO POR RITA FERRO

AnnaTree

Encontrado em blog.artron.net.jpg

Redacção: eu gosto muito de gordos porque os gordos me comovem. A sua tristeza é funda e interior. Á superfície, apenas a tentativa pungente de indemnizar os outros pela exposição dos seus corpos infelizes. É verdade: o humor não é neles um talento inato, mas um recurso de compensação explorado com desespero. Um gordo acha-se anormal e é por isso que investe na alegria: para se justificar. E, para se mostrar mais leve do que parece, desafia o ridículo dançando nas festas num processo de autoflagelação descontrolada. Mas a sua euforia é forjada. A nostalgia da silhueta perdida consome-lhes os dias e assombra-lhe a existência. O gordo leva um terço da vida a comer, e outro a lamentar tê-lo feito. A restante fracção passa-a a dormir com os seus fantasmas: a troça dos garotos da rua, o espanto dos outros, o fecho éclair. A melancolia dos gordos agrava-se com o passar dos anos e o sedimentar das calorias. Ao mesmo tempo que ele, gordo, se vai transformando num animal sensual capaz de amar com mais fervor do que qualquer outro ser vivo, o seu desgosto é a sua força. Mesmo assim, não troca a comida por nada nem por ninguém- nem pelo objecto amado seria capaz de renunciar a um sarrabulho. (…) A ideia que o gordo faz do paraíso é a de uma ilha onde é possível comer de tudo conservando um corpo adónico. No entanto, melhor do que ninguém ele sabe que um dia não aguentará o balanço de uma vida repleta de oportunidades perdidas por causa de uma fraqueza histérica. É este encontro marcado que o apavora e mortifica. É, aliás, para o afastar da sua mente doentia que o gordo devora pastéis e enfarda leitões, ao mesmo tempo que lastima a adulteração do seu corpo as vinte e quatro horas do dia: quando se estende na banheira, avança para o mar, entra nas salas, despe a camisa em público. (…) Era capaz de trocar todo o seu dinheiro por uma magreza pálida. E a balança é, simultaneamente, a sua musa e o seu carrasco. Se abate dois quilos, encena na casa de banho bailados de grande riqueza cénica que ninguém, infelizmente, testemunha. É nestas alturas que o contentamento do gordo se transforma em pura poesia. Ou que a sua tristeza nos despedaça o coração. Mas á frente de uma chanfana não hesita em comprometer vida e carreira desbaratando meses e meses de dietas e privações. (…) E quem é o gordo, exactamente? No fundo, no fundo, o gordo é aquele animal que vive em nós e que se diverte a escarnecer da nossa veleidade metafisica.

02
Mar15

OS CROMOS A CRIANÇA POR RITA FERRO

AnnaTree

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Céus, como amo esse índio baixote, desajeitado e bruto, que esconde quando parte e cora quando mente, com medo do escuro e do lobo mau, desse ser que fomos e que já perdemos, o que nos mataram e o que matamos nós, num dia de sol ou de nevoeiro, juntamente com a primeira murraça e a primeira traição, com tudo o que tínhamos de bom, de grande, de tosco, de gago, de puro, de verdadeiro e sobretudo de errado, amigos, porque é essa a definição da criança: a definição de nós, idiotas, a ideia de um ser imperfeito com um balão nas mãos a babar a gola, iludido a respeito de tudo e entornando o leite por cima da mesa, a saque de violadores e traficantes com a cabeça na lua a atar os sapatos, a disparar pelo vidro da frente dos nossos automóveis com a cara suja de sangue e de gelado, de um ser incompleto sem conversa para nós, de um ruido agudo que faz tantas perguntas, de uma presença incómoda, escorraçada das salas e omissa nas obras dos grandes clássicos, ignorante de tudo e exasperante por isso, a levar estalos na cara pelos nossos pecados, “toma, anormal, toma, palerma, toma imbecil que sais ao teu pai!», lúcido, mas sem gabarito para falar connosco, e só porque alguém, ou alguma coisa, decretou e espalhou, que, afinal, calculem vocês, que depois deste ódio, que depois desta inveja, que depois disto tudo somos nós os deuses. Que bom que é falar desse amigo de infância que nos viu crescer e nos viu perder, ao mesmo tempo alegre e nostálgico, que habita em nós com os punhos atados e mordaça nos dentes, reu e refém, que de vez em quando estrebucha para levar mais estalos e que apesar da vida, da morte e das rugas continua enganado: não por acreditar no capuchinho vermelho, na avozinha e no lobo mau, mas por não perceber que o mau não é