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Arvore De Letras

Coisas lidas,ouvidas,cantadas, declamadas,faladas,escritas

Arvore De Letras

Coisas lidas,ouvidas,cantadas, declamadas,faladas,escritas

30.04.15

OS CROMOS DE RITA FERRO O FIDALGO PROVINCIANO


AnnaTree

COISAS LIDAS Como não embarca, nem morto, nas alienações típicas da sociedade comercial virada para os valores do dinheiro e da «performance» - não por os desprezar, mas por os desconhecer-, o fidalgo provinciano é, acima de tudo, um resistente, A noção de tempo (…) mede-se em gerações. Ao dinheiro, mesmo que o tenha, prefere a honra, e avalia o poder em termos morais e sociais e não em termos político-partidários. (E. reparem, não é que seja tonto: o que ele faz, nalguns casos até inconscientemente, é defender com unhas e dentes uma dimensão da vida que faz falta a todos nós): Hoje, por circunstâncias que podem variar de caso para caso e de região para região, a maioria encontra-se arruinada; mas, ao contrário do filho do pato-bravo, que esbanja com bestialidade o dinheiro do pai, o fidalgo provinciano não tem cheta porque foi vítima de uma geração singular que veio para a cidade pela primeira vez e sucumbiu ao jogo e às mulheres. Já não lhe chegou nada. No entanto, apesar de algumas falências merecidas e de umas tantas espoliações revolucionárias, é preciso que se diga que a nobreza provinciana tem sabido legar outras heranças. (…) A nobreza provinciana ocupa um papel insubstituível como vector de integração social daqueles valores que nos darão caracter e nos distinguem dos demais. (Quem se quiser rir desta ideia, tem primeiro que se rir do Eça, do Herculano, do Rodrigues Lobo e do Sardinha, para só citar os mais explícitos). E que não se julgue que o fidalgo provinciano regressou á ruralidade, não é disso que se trata; o que acontece é que precisamente a sua característica provinciana que o distingue da cultura de massas dominante – asséptica, estupida, superficial e embrutecedora – e que faz dele o melhor intérprete do «Portugal profundo» que tanto prezam. É talvez por isso que ele não esquece o compromisso que o liga á terra, razão por que tantas vezes tem adoptado atitudes de autoridade e radicalismo. Mas poucos como ele possuem o distanciamento necessário para assistir ao desfilar das modas e das ideologias sem perder a identidade; é talvez por isso que é ele, e não outro qualquer, a constituir o mais seguro e resguardado repositório do que temos de mais genuíno e português. Ah, é verdade: e para o imitarmos naquilo que tem de melhor, não basta envergar capote á alentejana ou chapéu com pena de faisão; da mesma maneira que, para o depreciarmos, não nos devemos limitar a observar o seu sotaque regional, as suas roupas anacrónicas, o seu desajuste mundano-profissional ou o seu discurso ultrapassado e sem brilho; é preciso que nos voltemos para nós mesmos para ver se debaixo de todo este verniz ainda nos resta alguma coisa de autêntico e rirmos primeiro de nós.

27.04.15

OS CROMOS O NANDINHO POR RITA FERRO


AnnaTree

O Nandinho tem vinte e seis anos e mora na vivenda iluminada á beira de uma qualquer estrada do país. O seu pai foi um trabalhador valoroso que tirou o pé do esterco com o suor do seu rosto, ao fim de uma vida inteira de trabalho insano á frente de negócios de têxteis ou de construção civil. Mas, ao contrário desses básicos edificantes, que mourejam até estoirar e conseguem singrar á custa de muita humilhação, o Nandinho não tem qualquer espécie de mérito: Não usa os braços para trabalhar, mas para fazer manguitos e meter quintas velocidades. E como, ao contrário do pai, o Nandinho nasceu na abundância, a ausência de valores vai determinar o seu futuro: dissipar sem contemplações a fortuna acumulada pelo pai. A singularidade do Nandinho não pode sequer ser aferida por parâmetros culturais: a única coisa que tem na cabeça é gel. Aos fins-de-semana, paga copos ao cortejo de amigos que o rodeiam e impressiona as moças da região ao volante do seu Ferrari. Toda a gente estala a rir com as suas chalaças não por ter qualquer espécie de graça, mas por dispor de dinheiro suficiente para arrotar. Alternar mulherame e dizer palavrões impunemente. (…) Nem nunca estudou, o Nandinho: limitou-se a dar ao pai a ideia de que é predestinado para deitar mãos ao seu dinheiro. Para ele, a fortuna paterna, dolorosa e laboriosamente conseguida, é um bem consumível para usufruto imediato. É ,a liás, graças a parvalhões como ele que, para desgraça de muitas regiões do país, as fortunas só duram duas gerações. E o Nandinho não faz a mínima ideia do que seja gerir. Quando se apropria finalmente dos negócios do seu «velho», adopta a estratégia mais «soft»: não paga impostos, não faz amortizações, fica a dever os salários em atraso, compra mais um Ferrari ou um apartamento em Tróia, pede dinheiro aos fundos comunitários, e, no fim do ano, se houver aperto, faz um empréstimo ao banco através de um amigo politico. Voilá! (…) Mas não é só por isso que o Nandinho se considera importante: convém não esquecer que é nas mãos de perdulários como ele que está o futuro das maiores empresas do país. (…) Como todos os predadores, o Nandinho é um animal territorial que só subsiste no ambiente que lhe é próprio: fora dele, definha por falta de corte, de aplauso, de popularidade. É mais por isso, aliás, do que por bairrismo, que raramente deixa a sua região. (…) A este respeito, muita gente se pergunta como é que este exemplar aviltante conseguiu sobreviver incólume á raiva da extrema-esquerda; pessoalmente, só encontro uma explicação: é que, de alarve e de Nandinho, todos temos um pedacinho.

21.04.15

OS CROMOS O INFELIZ POR RITA FERRO


AnnaTree

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COISAS LIDAS

Tentar ajudar um infeliz em poucas linhas é uma atitude tão ingénua que faz dó, tão melindrosa que pode fazer mais mal do que bem, e tão pretensiosa que pode inclusivamente prejudicar a minha carreira. (…) Desculpe, mas há coisas que têm que ser ditas á bruta!. E deixe lá a sua infância sossegada, homem! Se não teve afecto em pequeno, ou não arranja uma alma gémea que o ature, saia do seu egoísmo e comece hoje mesmo a reparar que toda a gente sente o mesmo- ou julgará você que lá porque os outros disfarçam melhor não sofrem pelas mesmas razões? (o que ainda não percebeu, desculpe lá, é que o amor dá trabalho!) Saiba, em primeiro lugar, que existem outras pessoas tão improdutivas como você, é verdade, que passam a vida a olhar para o umbigo ou a lastimar-se pelas questões mais banais, mas que, pelo menos, conseguem divertir-se com a vacuidade, gastando dinheiro em roupas ou em barcos, falando de novelas ou de politica, gostando da Carolina do Mónaco mais do que da própria mãe, e dando mais atenção ao tecido dos sofás da sala do que ao isolamento dos filhos, mas que, pelo menos não contagiam os outros com os dilemas existenciais, as suas lucubrações funéreas, os seus balanços deprimentes. (…) Isto tudo para lhe lembrar que mais vale sofrer do fígado do que do ego, e, ainda, que se pode encarar a vida de mil maneiras diferentes ou apenas duas, para simplificar: como uma ponte que se tem de atravessar até ao fim, custe o que custar. (…) onde o gozo será vencer todas as provas e ultrapassar todos os obstáculos, tal qual como no atletismo, mas com uma ligeira diferença: declinar, uma a uma, todas as medalhas. E perceba isto duma vez por todas: o grande gozo e a verdadeira vitória não é ganhar, mas manter-se em prova!

10.04.15

Á Avó Binda 1 Abril de 2015


AnnaTree

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Perdoe me as longas ausências.

As vezes queremos acudir a todos e a tudo e descuramos algumas pessoas que foram muito importantes nas nossas vidas… eu não fui excepção…descurei-te Avó…sempre dizia que ia no outro fim de semana…e não ia… e depois era no outro….sem me dar conta que depois de se virar o «cabo Bojador dos 100 anos» cada dia que passa é um milagre, um milagre que não aproveitei como devia.

Carrego assim esta culpa que me irá acompanhar até ao último dia.

Ensinaste o croché com que me entretenho sempre.

Ensinaste me o ponto pé de flor e o ponto cheio e a fazer rosinhas com a linha de bordar. Não me lembro de teres especial apetência para os cozinhados mas não podemos ser boas em todas as áreas.

De ti sei que sofreste com dignidade uma viuvez prematura aos quarenta anos.

Sei que ajudaste a criar os netos e que fazias peças para os enxovais dos bisnetos e para os enxovais das netas.

Sei de ti que te mantiveste até aos cem anos dormindo todos os dias a tua sesta e depois queixavas te de não teres sono a noite.

Sei de ti que foste uma parte muito ,muito importante da vida das tuas duas filhas e que mais uma vez, foste posta á prova com a perda delas… não consigo imaginar a dor que uma Mãe pode sentir ao saber que as filhas partiram à sua frente contrariando todo a ordem natural da vida…. Já para não falar da perda de um neto levado tão cedo.

Sei de ti também o mau feitio e as achegas que ias dando aqui e ali. Da última vez que estive contigo estavas já um pouco confusa, mas sempre tão bem tratada pelo anjo da família, a Xu; obrigada prima por cuidares tão bem Dela.

Fica de ti o exemplo de vida de como se pode sobreviver a grandes tragedias e ainda durar até aos 100 anos.

Fica de ti as flores que plantaste e que vão continuar a florir no teu jardim.

Até sempre

Da tua neta Ana

07.04.15

ENTREVISTA A GILBERTO GIL JUNHO/2003 DNA


AnnaTree

Gilberto Gil: Nada está pronto. Não há referencias que possam ser erigidas como definidoras do seu presente ou do seu futuro. Não há códigos. O que há sempre é flutuações do caos, efémera, passageira. Não há ordens perenes, permanentes. Nesse sentido, não há modelos. Há sempre mudança, mudança, mudança. Entrevistadora: mas há sempre uma coisa que é a memória… Gilberto Gil: É, mas ela muda muito. Porque as interpretações que fazemos do passado, dos factos, das vivências, daquilo que se gravou em forma de sentimento ou de pensamento, até as reinterpretações a cada instante são novos. Não há memória, nesse sentido de que a memória está aqui dessa forma. A memória é como a própria vida. Ela também é mudança.

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