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Arvore De Letras

Coisas lidas,ouvidas,cantadas, declamadas,faladas,escritas

Arvore De Letras

Coisas lidas,ouvidas,cantadas, declamadas,faladas,escritas

26
Nov15

COMO ÁGUA PARA CHOCOLATE DE LAURA ESQUIVEL

AnnaTree

COMO ÁGUA PARA CHOCOLATE DE LAURA ESQUIVEL

(…)

Para a mesa e para a cama uma só vez se chama

(…)

Dizem que um surdo não ouve mas compõe

(…)

Foi nessa altura que Pedro lhe confessou o seu amor

- Menina Tita, gostaria de aproveitar a oportunidade de poder falar consigo a sós para lhe dizer que estou profundamente apaixonado por si(…) só lhe peço que me diga se posso aspirar ao seu amor…

- não sei o que hei-de responder-lhe, dê-me tempo para pensar

- não, não posso, preciso de uma resposta neste momento; o amor não se pensa; sente-se ou não se sente

(…)

E assim abraçados, ficaram a chorar até que Tita já não tinha mais lagrimas nos olhos. Então , chorou em seco e dizem que isso dói mais, como um parto em seco

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11
Nov15

Do amor de Stendhal

AnnaTree

COISAS LIDAS

Do amor de Stendhal

(…)

Existem quatro tipos de amor diferentes:

1º O amor paixão, o da religiosa portuguesa, o de Heloísa por Abelardo, o do capitão Vesel e o do grande gendarme de cento.

2º a amor gosto, que dominava em Paris em 1760 e que se encontra em memorias e romances dessa época, em Crébillon, Lauzun, Duclos, Marmontel, Chamford, madame Dépinay, etc, etc

É um quadro onde tudo, até as próprias sombras devem ser cor-de-rosa, onde nada de desagradável deve entrar sob que pretexto for e sob pena de falta de bom-tom, de delicadeza, de gosto…

Um homem bem-nascido sabe antecipadamente todos os processos que teve de usar e que serão consigo usados nas diversas fases desse amor; não havendo nele uma paixão ou um imprevisto, possui muitas vezes mais delicadeza do que o verdadeiro amor pois tem sempre muito espirito: é uma miniatura fria e linda comparada com um quadro de Carrache; e enquanto amor-paixão nos leva para além de todos os nossos interesses, o amor-gosto sabe sempre conformar-se com eles. É verdade que se se retirar a vaidade a este pobre amor, bem pouca coisa resta; uma vez privado de vaidade, torna-se um convalescente enfraquecido que mal se pode arrastar.

3º O amor – físico. Andar á caça e encontrar uma bela e fresca camponesa fugindo pelos bosques. Toda a gente conhece o amor baseado neste género de prazeres; por seco e infeliz que o caracter seja, é por aí que se começa aos dezasseis anos.

4º O amor-vaidade. A imensa maioria dos homens, sobretudo em França, deseja uma mulher á moda, como se tem um lindo cavalo, como coisa indispensável ao luxo de um jovem. A vaidade mais ou menos lisonjeada, mais ou menos espicaçada, dá lugar a vivos sentimentos.

Algumas vezes existe amor físico, mas nem sempre há prazer físico. Uma duquesa nunca tem mais de trinta anos para um burguês, dizia a Duquesa de Chaulnes; e os frequentadores da corte daquele homem justo que era o rei Luís da Holanda ainda recordam alegremente uma linda mulher de Haia que não conseguia decidir-se a não achar encantador um homem que fosse duque ou príncipe. Mas fiel ao principio monárquico, quando um príncipe chegava á corte, mandava-se embora o duque; ela era como a decoração do corpo diplomático.

O caso mais feliz desta relação vulgar é aquele em que o prazer físico aumenta com o hábito. As recordações fazem-na então assemelhar-se um pouco ao amor; há o amor-próprio espicaçado e a tristeza de se ser abandonado; e como as ideias dos romances produzem uma cruel ansiedade julga-se estar apaixonado e melancólico, pois a vaidade aspira a julgar-se uma grande paixão. O que é certo é que, seja qual for o género de amor a que se deva o prazer, se houver exaltação da alma ele é intenso e a sua recordação arrebatadora; e nesta paixão ao contrário da maior parte das outras, a recordação do que se perdeu parece sempre superior ao que se pode esperar do futuro. Algumas vezes, no amor-vaidade, o hábito ou o desespero de encontrar melhor, produz uma espécie de amizade, a menos amável de todas pois gaba-se da sua segurança, etc.

O prazer físico, fazendo parte da natureza, é de todos conhecido mas tem um lugar secundário aos olhos das almas sensíveis e apaixonadas. Assim, se estas são ridículas nos salões, se muitas vezes os mundanos com as suas intrigas as tornam infelizes, elas conhecem em compensação prazeres nunca acessíveis aos corações que só palpitam por vaidade ou por dinheiro.

Algumas mulheres virtuosas e sensíveis quase não têm ideia dos prazeres físicos; raramente se expuseram a eles, se assim se pode dizer o mesmo então os entusiasmos do amor-paixão quase fizeram  esquecer os prazeres do corpo.

Existem homens vítimas e instrumentos de um orgulho infernal de um orgulho á Alfieri. Estas pessoas que são talvez cruéis porque, como Nero, estão sempre tremendo e julgam todos. Os homens segundo o seu próprio coração, estas pessoas- dizia eu - , só podem atingir o prazer físico se ele for acompanhado da maior fruição de orgulho possível, isto é, exercendo crueldades sobre a sua companheira de prazer. Daí os horrores de Justine. Estes homens não experimentam de outro modo o sentimento de segurança.

De resto, em vez de distinguir quatro amores diferentes, pode-se muitíssimo bem admitir oito ou dez variantes. Há talvez tantas maneiras da sentir entre os homens como maneiras de ver, mas estas diferenças na nomenclatura nada modificam as deduções que se seguem. Todos os amores que se podem encontrar neste mundo nascem, vivem e morrem ou elevam –se á imortalidade segundo as mesmas leis.

04
Nov15

A menina é filha de quem? De Rita ferro

AnnaTree

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COISAS LIDAS

(…)

As reguadas ferviam durante as aulas, sobretudo nas de aritmética, em que a Dona Celeste tinha a mão leve e não se ensaiava de nos dar tantas quantas as vezes que falhávamos o 7x9, que, não sei porquê, continua a ser a multiplicação mais difícil para as crianças, talvez por ser a menos musical das redondilhas.

Quem não viveu nesse tempo não sabe, não pode saber, a dor aguda causada por uma reguada desferida com força e pontaria: é semelhante á de uma violenta pancada nas costas com a agravante do enxovalho público. Apesar disso, fui, já adulta visitar várias vezes a Dona Celeste- agora chamar-lhe-ia Síndrome de Estocolmo. A verdade é que naquele tempo ninguém questionava um mestre: dizia-se é exigente num tom edificado, como se a brutalidade e a humilhação fossem, alguma vez, sinais de pedagogia.