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Arvore De Letras

Coisas lidas,ouvidas,cantadas, declamadas,faladas,escritas

Arvore De Letras

Coisas lidas,ouvidas,cantadas, declamadas,faladas,escritas

12.01.16

A menina é filha de quem? De Rita Ferro


AnnaTree

COISAS LIDAS

 

Não disse nada em casa. Tive medo que os meus pais dissessem «coitado» e não «coitada». Na infância, as pessoas são muito sozinhas, mais sozinhas do que nunca. Porque ninguém as percebe, porque ninguém compreende até que ponto sofrem por coisas que os outros acham que ainda não têm idade para sofrer. Porque já são grandes e percebem tudo e os outros continuam a achar que ainda são pequenas e não percebem nada. E é mentira: agora percebo menos as coisas do que percebia naqueles anos, nem se compara. Com sete anos sofria o golpe mais rude da minha curta vida, mas o facto de ser curta não atenua nem consola (…) tinha sete anos como eu, e, em adultos, não nos deixam amar crianças de sete anos, pois não? Conheci –o porque antes dele conhecera a irmã.

Marquei um encontro com a Isabel e lanchámos juntas. (…) e eu , com cinquenta no dia em que reencontrei a Isabel, não podia dizer-lhe que era viúva de um menino de sete anos.

(…)

O Pedro não me escreveu só aquele bilhete que transcrevi atrás (…) escreveu –me mais um bilhete (….)o segundo bilhete só o li depois de ter morrido. Foi a Isabel que mo levou nesse dia que lanchámos:

Mando-te este bilhete pela minha irmã para te dizer que não posso ir á escola porque estou doente. Mas só penso no teu beijo. Vai ser o meu primeiro beijo. Já beijaste alguém?

Não. Pedro, não beijei. Ou melhor: todos os beijos que dei, depois de ti, foi a ti que dei. Mas tem-me feito falta a tua pele. Dar beijos assim, no ar, não sabe tão bem

07.01.16

Lispector, Clarice. “Aprendendo a viver.”


AnnaTree

COISAS LIDAS 

“Aprendendo a viver.” “Um domingo de tarde sozinha em casa dobrei-me em dois para a frente – como em dores de parto – e vi que a menina em mim estava morrendo. Nunca esquecerei esse domingo. Para cicatrizar levou dias. E eis-me aqui. Dura, silenciosa e heroica. Sem menina dentro de mim.”

(….)

“O mais difícil é não fazer nada: ficar só diante do cosmos. Trabalhar é um atordoamento. Ficar sem fazer nada é a nudez final. Há uns que não aguentam. Então vão se divertir. Estou escrevendo de madrugada. Talvez porque não queira ficar só diante do mundo. Mas de algum modo estou acompanhada. Não sei explicar. É bom.”

(…)

“EM BUSCA DO OUTRO
Não é à toa que entendo os que buscam caminho. Como busquei arduamente o meu! E como hoje busco com sofreguidão e aspereza o meu melhor modo de ser, o meu atalho, já que não ouso mais falar em caminho. Eu que tinha querido. O Caminho, com letra maiúscula, hoje me agarro ferozmente à procura de um modo de andar, de um passo certo. Mas o atalho com sombras”“refrescantes e reflexo de luz entre as árvores, o atalho onde eu seja finalmente eu, isso não encontrei. Mas sei de uma coisa: meu caminho não sou eu, é outro, é os outros. Quando eu puder sentir plenamente o outro estarei salva e pensarei: eis o meu porto de chegada.”

(…)

Desculpem eu ser eu. Quero ficar só! grita a alma do tímido que só se liberta na solidão. Contraditoriamente quer o quente aconchego das pessoas.”

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04.01.16

NUA E CRUA MARTA GAUTIER


AnnaTree

COISAS LIDAS

NUA E CRUA MARTA GAUTIER

(…)

Fiz três testes de gravidez. Quando os testes sossegavam os meus receios, na altura, sem entender, sentia-me vazia como se não houvesse motivo para terem pena de mim, para me consolarem, para poder gritar com autoridade. Era como se os outros tivessem culpa de tudo o que acontecia dentro da minha cabeça, e eu procurasse os acontecimentos menos felizes para os castigar, para ser uma vitima. E que confortável me sentia nesse papel!

 

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