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Arvore De Letras

Coisas lidas,ouvidas,cantadas, declamadas,faladas,escritas

Arvore De Letras

Coisas lidas,ouvidas,cantadas, declamadas,faladas,escritas

20
Jul18

A biblioteca comunitária

AnnaTree

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Já criei duas bibliotecas comunitárias na minha rua:

* Distibui dez livros da minha biblioteca

* gastei 10€ na primeira mesa de cabeceira usada para servir de estante.

* a segunda mesa de cabeceira encontrei -a no lixo.

* perdi a conta das vezes que foi vandalizada.

* a primeira biblioteca foi roubada. Depois o ladrao arrependeu se ....ou alguém achou triste e pôs uma mesa que tinha em casa com o tampo de vidro todo partido. Tentou fazer o que eu havia feito colocando um ramo de flores e um livro.

* a segunda biblioteca foi vandalizada várias vezes, desde rasgarem livros, atirarem com a mesa de cabeceira para o campo. Também aconteceu várias vezes um milagre. Deixaram montes de livros infantis, puseram novas flores e novas jarras em cima, cuidaram da biblioteca. Os meus netos entretinham se iam lá buscar e deixar livros.

* ao fim de uma semana fora de casa, quando chego ,vejo a biblioteca desfeita à machadada no meio do campo.

* tudo isto fez -me pensar que não posso desistir. A minha rua precisa mais do que nunca de uma biblioteca, de cultura!

Agora Procura- se uma mesa de cabeceira ou uma prateleira  sem préstimo para voltar à carga. A minha rua precisa muito de uma biblioteca comunitária......

13
Jul18

Boas pessoas por Eduardo Sá

AnnaTree

Coisas lidas

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 O que é que distingue as boas das más pessoas, na forma como lidam… Com as pessoas? A sensibilidade ( com que se cuidam de todos os sentimentos), a inocência (como janela de sabedoria diante da vida ), o encantamento (com o que rejubilam com a intimidade e a comunhão) , a tranquilidade de quem é verdadeiro ( mesmo que, pelos seus gestos, o coração pareça "batendo parado" ) e a bondade (com que escutam alma com os olhos, antes — sempre antes — de ouvirem o que quer que tenham para dizer)  E as pessoas que não são boas nem más como havemos então de chamar? Não sei. Mas, assim, de repente, Acho que lhes faremos justiça se dissermos que são, de forma descolorida e caudelosa , os melhores amigos das más pessoas. 

Acredito que o futuro não aceitará boas pessoas. Estou profundamente convencido de que as vai estimular! O mundo, aliás, sempre foi composto por mudanças. Mas talvez não tenham sido os gesto geniais ou criativos, complexos ou técnicos que o transformaram num lugar melhor para crescer . Mas as boas pessoas.

 

 

 

12
Jul18

Cartas perdidas . N. M. 15 janeiro 2006 

AnnaTree

coisas lidas

 

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Carta a carta, foi -se afundando no imenso mar de vergonha de si próprio. Não se reconhecia hoje no fingidor que transparecia em algumas daquelas muitas frases. Sempre afirmara, com uma petulância que se assemelhava a soberba, que nunca magoaria ninguém. Ali estava um espólio epistolar que desmoronava essa imagem que de si construira .Tudo isto tinha muitos anos. Provinha dos tempos em que se escreviam cartas, em que o amor, o sofrimento, a alegria, exalavam de folhas de papel através de palavras pensadas, porventura choradas. Cartas que sobreviveram ao tempo e que naquele dia, ou em qualquer outro, revelavam o que fora e fizera ,na verdade mais crua e brutal. 

Não há tecnologia que consiga este resultado. Hoje a comunicação epistolar é uma relíquia da antiguidade. Não se usa. As pessoas falam-se mas não se escrevem. Quanto muito correspondem-se por SMS e e-mails encriptados, em linguagem de abreviatura. Ninguém aguarda o correio. Não se espera que, além de publicidade e contas traga notícias de alguém distante, novos de amores longínquos, encantamentos feitos com palavras. Não se seduz por carta . Aliás já não se seduz. Não se declara por carta. Aliás já ninguém se declara . Não se passam noites a fio compondo cuidadosamente uma redação na esperança que o destinatário a leia com enlevo e sentimento. Não há tempo pra essas loucuras. Além disso, o messager assegura o resultado imediato. Para quê tanto esforço despendido num romantismo “Fatela"? O amanhã é já hoje e o hoje é agora. Acresce ainda que o ato de escrever prevê conteúdos, vocabulários e fermento de imaginação. Nada disto cresce nas árvores e se apanha nas manhãs de primavera. Pressupõe leitura, alguma concentração e o despertar para a magia da palavra. E essa implica silêncio, isolamento e um pouco de trabalho. Por isso, daqui a 20 anos poderão recordar o passado de forma tão impressiva  e autêntica. As memórias dos nossos computadores nunca transformarão significado da palavra escrita pela mão de quem sofre ou de quem ama. Os homens e as mulheres que a escola e a sociedade de hoje aproveitando não terão sentimentos diferentes. Não deixarão de querer agarrar o infinito e de conquistar a felicidade. Mas não viveram a experiência inexcedível de tentar pela palavra tocar a alma ausente, transformando a ausência em presença viva e permanente. 

 

 

 

 

04
Jul18

Uma candeia de Adolfo Casais Monteiro

AnnaTree

Coisas Declamadas

 

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 Eu tinha 

Muito guardada 

Num cofre sete chaves

Uma candeia 

 

E pobre ingénuo julgava 

Ó infantil ilusão 

Ser a luz forte entre todas,

A luz que alumia a vida! 

 

Um dia a luz apagou-se 

E vi 

pasmado! 

Que a luz dessa candeia tapava a luz verdadeira… 

E  descobri então a vida. 

03
Jul18

Libertar a sexualidade (carta enviada ao jornal por Palucha Hipolito Perdigão)

AnnaTree

Coisas lidas 

Apesar de estarmos no século XXI e de se falar "ao pontapé” de sexo, a maioria das portuguesas, sobretudo acima dos 50 anos e especialmente no interior do país nem sabe o significado da palavra orgasmo, nem como este lhes pode ser útil . Muitas perderam os poucos espasmos após o parto e conformaram-se. Masturbação e fantasias sexuais, muito menos. Para elas, o ato não passa de uma obrigação perante o marido. O problema vai muito lá atrás, quando um orgasmo feminino nem “existia” nem era sequer permitido. A nossa mente não muda como se troca a decoração da sala. Pode levar a séculos a mudar. Amadurece-la é muito mais difícil do que parece. Por mais modernos que nos consideremos, somos muito castrados sexualmente e não só… 

(...)

Uma boa sexualidade é um aprendizado de anos, sintoma de saúde, união com o parceiro e sobretudo da nossa cabeça com o nosso corpo, do intelecto com o nosso instinto, de fazer amor e ter filhos. Filhos. Sim, a gravidez, o parto, o amamentar, desenvolvem a libido também. Tudo está interligado somos fruto do amor e não do pecado, nem de fazer sexo por fazer .

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02
Jul18

Maitê Proença livro de crónicas

AnnaTree

Coisas Lidas

 

 

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O amor da minha vida eu encontrei, tem nome, é de carne e osso, e me ama também. Agora falta encontrar alguém com quem possa me relacionar. É que o homem da minha vida não cabe em mim e eu não caibo nele. 

(...)

Tenho consciência de que um dia foi melhor do que hoje - quando eu era mais simples. A vida foi-se sofisticando, me deixando esperta e mais apta para o jogo social. Tive ganhos com isso mas perdi algo de genuíno que me diferenciava

(...)

Nesse mundo há dois tipos de gente, os retilíneos que observam o tempo passar da janela, e os  contraditórios, que agarram a vida pelos colarinhos. Aos tropeços e carimbada de hematomas mas, admito, sou do segundo team.

 

 

01
Jul18

A dois e dois arrastando-me José Mário Silva revista DN

AnnaTree

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Coisas lidas

A dois e dois arrastando-me
Nunca nada assim tão forte, como naquela manhã os teus olhos, os teus olhos, como dizer os teus olhos naquela manhã, sob luz de julho, as pupilas abertas, um brilho inexplicável a puxar-me para dentro de ti, como se me engolisses de repente, e eu e as coisas à minha volta suspensas no ar - o cigarro, o fumo que saíra um segundo antes das minhas narinas, a bicicleta amarela veios vermelhos (ferrugem) encostada à parede, a mala de couro, o jornal saindo do bolso esquerdo da gabardina- e depois tudo isso, eu e as coisas à minha volta suspensas no ar, caindo dentro das pupilas abertas dos teus olhos, através do brilho inexplicável dos teus olhos. Não me peças rigor, não me peças nitidez, Não me peças nada. Havia ali perto um jardim, este jardim. Árvores de copa larga, o relvado com cães à solta, um retângulo de areia grossa com escorregas pintados de azul (…) Havia um jardim que era igual a todos os jardins: com os mesmos bancos de madeira, os mesmos velhos imóveis a vislumbrar sítios que já não existem a não ser nas suas vacilantes memórias, as mesmas mães conduzindo os mesmos carrinhos com bebés amorosos lá dentro. Havia um jardim que nós atravessávamos, a tua mão guiando-me, e quando o atravessamos ele encheu-se de sombras, sombras crescendo atrás de nós, de cada um dos nossos passos, como se o mundo não fizesse sentido depois de ti. E não fazia.
O chiar do baloiço mal oleado perseguía-nos como uma ameaça, o jardim cheio de sombras preparava a sua vingança e nós trazíamos atada aos pulsos a inocência, como Adão e Eva expulsos do Éden. A cidade era uma coisa vaga, cheio de esconderijos. Pensões baratas, quartos minúsculos, arrecadações. Nós ficávamos uma noite ou meia hora, acesos e furtivos, perplexos com o milagre de haver dois corpos capazes de se encaixar nos ângulos obscuros das casas.
O tempo estilhaçou-se . Cacos por todo lado. Arestas e golpes.
(…)
Nunca saberemos quando é que o espelho se partiu. Cacos por todo lado.
(...)
Um dia, acordei lúcido. Tu não estavas junto a mim e as coisas tinham a respiração serena da normalidade. À minha volta, a tua ausência ocupava espaço visível. Era um uma concavidade, um vento frio a rasgar o dia com força bruta, uma navalha absurda. As pessoas impunham-me respeito e comiseração, fingindo não reconhecer nos meus gestos os sinais da loucura.
Em suma, desapareceste. E eu não voltei a olhar para outros olhos, neste jardim agora obscenamente iluminado.
José Mário Silva revista DN

 José Mário Silva revista DN