Quarta-feira, 31 de Outubro de 2018

Estilhacos de Júlio Machado Vaz

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Coisas lidas

 

Meu velho, 

cheguei do jantar com uma sensação estranha.Algo avinhado também, o que me preocupa. Não sei o que pensas disso, mas nos últimos tempos, sobretudo depois da morte do Carlos, acho que nos relacionamos com a garrafa de modo diferente. Bom, pelo menos eu. Dou comigo a escolher o vinho antes de decidir o que me apetece trincar , o Whisky já não é uma opção das noites longas de fim-de-semana, passou a sobremesa obrigatória depois do café. Não me impressiona a quantidade, mas a sofreguidão, os primeiros copos não bebo, engulo-os de um trago, como as pastilhas que tomo para combater o pânico de voar.

 


publicado por AnnaTree às 09:31
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Terça-feira, 30 de Outubro de 2018

Estilhaços de Júlio Machado Vaz

coisas lidas

 

(...)

 falou do seu homem como de um filho rebelde. Fiquei a saber que conhecia as maroteiras, apenas não pudera tomar conhecimento oficial delas porque não desejava partir. Nunca a julguei por isso, penso que pesou prós e contras e decidiu ficar, a minha profissão ensinou-me que os princípios mais rígidos podem ceder quando o outro nos aquece o coração. 

 

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publicado por AnnaTree às 09:40
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Segunda-feira, 29 de Outubro de 2018

Estilhaços de Júlio Machado Vaz

Coisas lidas

 

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Meu pai não teve sorte, os últimos dois anos foram terríveis. Quando me confidenciou, pela primeira e última vez, que estava muito fatigado, percebi que se despedia e poupei-nos a banalidade de mau gosto. Segura-lhe a mão, tarde e a más horas, com mais de 30 anos de atraso. Ainda e sempre desencontrados, apagou-se na minha ausência, poucos minutos antes de eu chegar. Essa pequena distância de espaço e tempo resumiu nossa vida. 

(...)

Oito meses volvidos , estamos juntos como nunca estivemos. O silêncio mantém-se, mas não a distância, levo-o ao colo dos neurónios para todo lado. O avô que ele, neto favorito, venerava, escreveu um dia que só quando a nossa mãe morre abandonamos verdadeiramente a infância .

Não deixarei morrer nada do que fui dentro de mim, preciso desesperadamente da memória para seguir em frente.

 

 

 


publicado por AnnaTree às 15:12
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Sexta-feira, 26 de Outubro de 2018

Estilhaços de Júlio Machado Vaz

Coisas lidas

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(...)

 o pai abomina a cadeira de rodas apesar da fissura óssea e sente-se humilhado pelos negássas da memória. Sobreviver à autonomia física e a uma agilidade mental que sempre constituiu o núcleo do seu amor próprio parece-lhe, creio, obsceno. Estou de acordo. 

(...)

aceito-lhe o pudor, o medo de ser recordado em tons  baços e não de sorriso aberto , cigarro e humor em riste, discurso florentino , histórias assegurando a lenda familiar. Compreendo- o, também não gostaria de sobreviver a mim próprio. 

(...)

A vida em abstrato não existe, “apenas” vidas humanas. E o respeito por essas, por nós, que delas somos garantes e fazedores, quem o deve decidir à revelia da nossa dignidade? Não basta garantir o controlo da dor física que atormenta alguém, muito menos rotular de sintoma psiquiátrico ou cobardia o que flui de lucidez diversa da nossa. Respeitar o outro, alguns dos outros, passa por aceitar que considerem a morte como parte integrante do seu projecto de vida e não a simples linha isoelétrica em visores de máquinas sem vontade própria, mas capazes de impedir o corpo de seguir alma. Esses, com razão ou sem ela aos nossos olhos, podem sentir um dia que chegou a hora de partir, antes de se tornarem caricaturas de quem foram. Discutir se a sociedade os deve ajudar em situação de impotência é seguramente necessário e angustiante, mas soterra-los sob a anátema de não respeitarem a vida que acarretam e construíram é de uma arrogância atroz. 

 

 


publicado por AnnaTree às 10:15
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Quarta-feira, 24 de Outubro de 2018

Estilhaços de Júlio Machado Vaz 

Coisas lidas

 

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(...)meus filhos (...) perante o meu horror invejoso atacaram o velho de imediato e sem repouso. Trepavam-lhe para o colo exigiam a sua presença em brincadeiras assassinas para as alcatifas, eu adivinhava a recusa amável mas firme do antigamente e ela não surgia, o pai reticente gerara o  Avô folgazão! E um ciúme envergonhado me invadia: Eis o que sonhara. Sem mim e 30 anos depois, mas o que sonhara. 

(..)

Rebusco a papelada e encontro páginas velhas de três anos, escrevo-as quando preciso de ver a alma ao espelho. 

 

 

 


publicado por AnnaTree às 09:56
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Segunda-feira, 22 de Outubro de 2018

Estilhaços de Júlio Machado Vaz

Coisas lidas

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( sobre o pai )

(...) só na adolescência me apercebi da barreira que nos separava, amar alguém não chega, é preciso que os estilos de oferecer carinho sejam compatíveis, ou a ternura chora, de tão clandestina. Fomos esse tipo de casal, mas o silêncio, embora longo e pesado, era cúmplice, percebíamos o afeto do outro, Esperávamos apenas que desabrochasse à nossa moda.

(...)Creio hoje que para ambos foi penoso, mas nesse tempo sentia-me prato baixo da balança e acreditava sinceramente que ele ditava as regras do jogo, a minha timidez não permitia que entrevisse a sua. 

(...) Amamo-nos assim, com punhos de renda e pinças. Como sempre acontece, o hábito acabou por nos invadir e a espera substituiu a chegada, nenhum de nós iniciou a viagem. Ficamos em terra. Ombro ombro sem abraços; naufrágio em doca seca .


publicado por AnnaTree às 09:22
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Domingo, 14 de Outubro de 2018

Antologia Poética de Castro Gil Um coração

Coisas lidas

 

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Um Coração 

 

Aquele coração que me deu o ser 

E tanta vez rezou por minha sorte, 

Para que eu visse o dia, antes da morte, 

E pudesse ser homem e viver. 

 

Aquele coração que, antes de eu o ver, 

Me via já no tamanho porte, 

E que encheu de venturas meu norte,

Quando pegou das mãos para me erguer;

 

Aquele coração onde o meu trago 

E cujo amor na vida eu jamais pago, 

Pois não pode pagar-se assim um bem

 

 Aquele coração onde o meu trago 

E cujo amor na vida eu jamais pago, 

Pois não pode pagar-se assim um bem: 

 

Aquele coração onde há lugar 

Para todo este sal do meu chorar: 

- É o coração de amor de minha mãe!… 


publicado por AnnaTree às 09:26
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Terça-feira, 9 de Outubro de 2018

Cafuné de Mário Zambujal

Coisas lidas 

 

 

(...)

 Desceu ao jardim, no propósito de continuar a tarefa da véspera. Arrancou ervas, aplanou a relva, observou a nespereira  e o diospireiro , a ver se entendia que Ramos cortar para a reclamada poda.

 Nesse intuito se esforçava quando ouviu passos no varandim e para lá deitou o olhar esperançado. Com razão. Era Dália , radiosa e e fresca como o fim da madrugada, logo atirando um “bom dia” adoçado pelo sorriso. 

Desceu a escada tão rápida como ele pediria se ousasse pedir e de novo apareceu com blusa larga e fina, decote mais amplo ainda do que do dia anterior. Estacara e Rodrigo pôde admirar como a brisa da manhã lhe empurrava a saia leve para o entrepernas, desenhando com nitidez as coxas magníficas.

Visão demasiado sugestiva para que se mantivesse calmo e indiferente. Quis não ver e dobrou-se a arrancar do relvado rebentos daninhos. Sacrifício inglórios. Dália puxou a saia acima dos joelhos e sentou-se, pertinho, pertinho. Outra vez a atração do decote revelador. Baixou a cabeça para não olhar o que tanto lhe chamavam os olhos. Moviam-se em silêncio e silêncio era sinal de que a intensidade dos sentidos impedia palavras desajustadas. 

 

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publicado por AnnaTree às 10:27
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Sábado, 6 de Outubro de 2018

Cafuné de Mário Zambujal

Coisas Lidas

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(..)

 Adozinda se chamava sua mãe, lavadeira no tanque da dona Décia. 

(…) Encontrá-la e saber de mais família tornou-se uma necessidade. A primeira esperança ruiu : "pais incógnitos", rezava o registo paroquial.

(…) Insone , escreveu no adiantado da noite: 

Quem avança por caminhos que não escolheu ignora lugar de onde partiu, estremece ao aperceber-se impedido do reencontro consigo próprio. Assim estou. Assoma uma presença vaga, se bem que luminosa, por ser o nome de mãe, mas sem rosto nem sítio onde viva, se viva. Perde-se o caminhante no desespero da mosca que quebra voos embatendo nas vidraças. Não deixará ela de tentar, persistirei eu em descobrir o que se encobre nos silêncios dos esquecimentos. 

 


publicado por AnnaTree às 10:17
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Sexta-feira, 5 de Outubro de 2018

Mário Zambujal . Cafune

Coisas Lidas

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(...)

  • E o bote, quem to deu? 
  • O rio. Apareceu aí, à deriva, sem nome nem remos. A custo o levei ao estaleiro de Cacilhas. Trabalham lá amigos do meu pai. Pedi remos , mastro e vela, tudo a pagar à medida que ia ganhando a carregar troncos na serração . 
  • Óptimo , mas que fizeste tu para encontrar o dono? 
  • Fiz o necessário para que o dono não o encontrasse. Pintei -o de preto. 
  • E porquê de preto?- quis saber o interlocutor disfarçando um sorriso .
  • Quando pesco é  de noite e os peixes nem percebem que anda ali um barco. 
  • Resulta? 
  • Quase sempre. Ontem rendeu e ao amanhecer estava em terra com um cabaz de peixes a saltar.

 


publicado por AnnaTree às 09:39
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