Quinta-feira, 29 de Julho de 2010

A Gaivota e Eu

coisas lidas

 

A gaivota continua parada e sozinha, á beira-mar na contemplação de qualquer ponto longínquo que me escapa.

Recosto-me na cadeira dura e desconjuntada e bebo um golo de cerveja amolecida e sem vida, de gosto duvidoso. Acumulo culpas em cada minuto que passa-a casa, o jantar, as crianças... – mas não me vou embora enquanto a gaivota continuar ali.

(...)

Já ninguém brinca na praia abandonada

(...)

A gaivota passeia agora, lenta, serena e magnífica e eu não consigo já distinguir a forma que se confunde com a imagem que a areia transformada em espelho, me dá.

 Do seu passeio solitário. Estamos sozinhas as duas, únicas habitantes de um mundo que durante o dia vibrou de movimento e ruídos, um mundo sem canção do mar, sem horizonte sem essa orla de espuma em que a gaivota e eu procuramos agora, atentas e insistentes, nem eu sei o que... E, de repente, torna-se imperioso e urgente que qualquer resposta surja, qualquer razão para que o dia que passou quente, barulhento, cansativo, para a noite que se aproxima em que se repetirão, como todas as noites, o mesmo jantar acompanhado das mesmas graças da véspera.

(...)

Se a gaivota não parte é que é ali que eu devo procurar a resposta á pergunta que ainda não fiz. Se a gaivota permanece é que alguma coisa está para acontecer e nesse universo líquido e negro que agora me rodeia, vai concerteza nascer, um ponto de luz, de que neste momento exacto, preciso desesperadamente. Por uns segundos apenas. É rápida e fugaz essa nossa necessidade do infinito e do imenso. Se espero, não é porque acredite que a gaivota me traga alguma resposta que eu não tenha já, ou que posso um dia vir a querer. Se continuo aqui não é pela gaivota, teimosa e irreal que me promete talvez, apenas com a permanência da sua presença um retorno ás origens de que eu já não preciso e que não aceito.

Se estou aqui, sozinha culpada e indecisa, é porque o imenso cansaço de ser quem sou e fazer o que devo me impede de partir antes que alguém, alguma coisa, o grande pássaro monótono e repetitivo, me dê boas razões para isso. Razões que eu esquecerei no momento seguinte, quando voltar a vestir a pele de todos os dias.

E que importa afinal?

O que conta realmente é este momento de solidão único e imenso em que, no cair da noite sobre a praia, eu e essa gaivota que já nem consigo ver, vivemos. Como uma gota de infinito na infinita pequenez dos nossos dias...

 

Mª Faria Blanc

 


publicado por AnnaTree às 11:36
link do post | comentar | favorito

.mais sobre mim


. ver perfil

. seguir perfil

. 39 seguidores

.pesquisar

 

.Junho 2019

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
10
11
12
13
14
15

16
17
18
20
22

23
24
25
26
27
28
29

30


.Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

.posts recentes

. Nem as mulheres são tão c...

. As mulheres são tão comp...

. nem-as-mulheres-sao-tao-c...

. nem-as-mulheres-sao-tao-c...

. How very little we learn ...

. https://arvoredeletras.bl...

. Nem as mulheres são tão c...

. Nem-as-mulheres-sao-tao-c...

. Nem as mulheres são tão c...

. Nem as mulheres são tão c...

.arquivos

. Junho 2019

. Maio 2019

. Abril 2019

. Março 2019

. Janeiro 2019

. Dezembro 2018

. Novembro 2018

. Outubro 2018

. Setembro 2018

. Julho 2018

. Junho 2018

. Maio 2018

. Janeiro 2018

. Novembro 2017

. Outubro 2017

. Agosto 2017

. Abril 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Novembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Agosto 2016

. Julho 2016

. Maio 2016

. Abril 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

SAPO Blogs

.subscrever feeds