Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Arvore De Letras

Coisas lidas,ouvidas,cantadas, declamadas,faladas,escritas

Arvore De Letras

Coisas lidas,ouvidas,cantadas, declamadas,faladas,escritas

29
Jul10

A Gaivota e Eu

AnnaTree

coisas lidas

 

A gaivota continua parada e sozinha, á beira-mar na contemplação de qualquer ponto longínquo que me escapa.

Recosto-me na cadeira dura e desconjuntada e bebo um golo de cerveja amolecida e sem vida, de gosto duvidoso. Acumulo culpas em cada minuto que passa-a casa, o jantar, as crianças... – mas não me vou embora enquanto a gaivota continuar ali.

(...)

Já ninguém brinca na praia abandonada

(...)

A gaivota passeia agora, lenta, serena e magnífica e eu não consigo já distinguir a forma que se confunde com a imagem que a areia transformada em espelho, me dá.

 Do seu passeio solitário. Estamos sozinhas as duas, únicas habitantes de um mundo que durante o dia vibrou de movimento e ruídos, um mundo sem canção do mar, sem horizonte sem essa orla de espuma em que a gaivota e eu procuramos agora, atentas e insistentes, nem eu sei o que... E, de repente, torna-se imperioso e urgente que qualquer resposta surja, qualquer razão para que o dia que passou quente, barulhento, cansativo, para a noite que se aproxima em que se repetirão, como todas as noites, o mesmo jantar acompanhado das mesmas graças da véspera.

(...)

Se a gaivota não parte é que é ali que eu devo procurar a resposta á pergunta que ainda não fiz. Se a gaivota permanece é que alguma coisa está para acontecer e nesse universo líquido e negro que agora me rodeia, vai concerteza nascer, um ponto de luz, de que neste momento exacto, preciso desesperadamente. Por uns segundos apenas. É rápida e fugaz essa nossa necessidade do infinito e do imenso. Se espero, não é porque acredite que a gaivota me traga alguma resposta que eu não tenha já, ou que posso um dia vir a querer. Se continuo aqui não é pela gaivota, teimosa e irreal que me promete talvez, apenas com a permanência da sua presença um retorno ás origens de que eu já não preciso e que não aceito.

Se estou aqui, sozinha culpada e indecisa, é porque o imenso cansaço de ser quem sou e fazer o que devo me impede de partir antes que alguém, alguma coisa, o grande pássaro monótono e repetitivo, me dê boas razões para isso. Razões que eu esquecerei no momento seguinte, quando voltar a vestir a pele de todos os dias.

E que importa afinal?

O que conta realmente é este momento de solidão único e imenso em que, no cair da noite sobre a praia, eu e essa gaivota que já nem consigo ver, vivemos. Como uma gota de infinito na infinita pequenez dos nossos dias...

 

Mª Faria Blanc