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Arvore De Letras

Coisas lidas,ouvidas,cantadas, declamadas,faladas,escritas

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Coisas lidas,ouvidas,cantadas, declamadas,faladas,escritas

02
Ago10

José e o Menino de Possidónio Cachapata

AnnaTree

 

Coisas lidas

 

 

 

O meu pai era carpinteiro. E franzia a testa nas tardes de trabalho em que o almoço pesado, de cozido ou de comidas com pão e peixes do rio, lhe ondulava o estômago, em azias. Havia na sua barraca um cheiro a serradura, um aroma de pó espesso, granulado, até! Que se metia pelas narinas nos entardeceres de verão. E era nessa estacão que ele mais se concentrava nos seus caixotes de madeira, que um dia seriam móveis e se pendurariam nas casas de outros operários

(…)

Raramente tinham cores; eram mais vernizes, de cheiros mais intensos que o do pó. Resmungava contrariado sempre lhe mandavam pintar as madeiras, porque lhe parecia isto um supremo ultraje á nobreza dos materiais. Percebia pouco de nobreza o meu pai. Vestia-se de pobre a maior parte do tempo. Excepto nos dias de feira, em que saia vestido de pobre com roupa nova. Mas achava que as madeiras tinham sido feitas para se exporem. Nuas só com um ligeiro simo vestido de verniz incolor. O meu pai assobiava todo o dia, quando trabalhava na sua barraca carpintaria. Musicas antigas que eu nunca tinha ouvido por outra boca que não fosse a sua. E, de vez em quando, cantava. Num registo que se lhe deveria ter inscrito quando tinha 16 anos e que ele tomara como aquele que queria guardar para a vida. Nunca consegui assobiar como ele. E houve um tempo em que tive pena. Era no tempo em que a sua bicicleta tinha rodas descomunais e ele era capaz de me levantar com um braço. O meu pai não conhecia o som da frase: «gosto de ti» preferi usar a expressão «só quero ajudar». E achava que isso chegava. Que nessa entrega; nessa devoção absoluta ia a imagem aberta do seu amor. Não ia. E a gente tinha pena, sem perceber porque. Porque tinha ele este coração utilitário de artifício. Viajamos um dia, os dois. Ele, na sua bicicleta de gigante. Eu, nas minhas duas rodinhas de cor azul. Atravessamos estradas de terra, coutadas de caça onde a sombra dos guardas pairava ameaçadora e levava o meu progenitor a grandes pensamentos sobre que historia contar se fossemos apanhados em território índio. Até que chegamos a uma lagoa minúscula, rodeada de arame farpado e de árvores espessas que estendiam os ramos nos reflexos líquidos. A areia era branca e brilhava ao sol, por baixo do manto aquoso. E fomos os dois, falando pouco, porque não sabíamos o que dizer. Como não sabem o que dizer aqueles que nunca falam entre si. Fingimos que pescámos. Eu fingi que podia nadar naquelas águas baixas. Os dois cuidadosos para que o lodo – que sabíamos existir debaixo das areias brancas se não levantasse turvando as águas claras e felizes.

Eram quase seis horas, naquele dia de verão, quando ele disse que regressássemos. Fê-lo com pena. E eu também. Assim recebi a notícia. Regressamos pelos campos, lavrados em tempos e ainda cobertos de sulcos, que se levantavam por debaixo das rodas. Ele puxou-me o guiador a maior parte do tempo, o que era tarefa difícil, porque implicava dobrar-se na minha direcção. E, com os seus braços fortes de touro, chegou mesmo a elevá-la, acima da cabeça e a deposita- la do outro lado de uma cerca de arame farpado, antes d e fazer o mesmo com o meu corpo frágil.

Nos entardeceres de verão, cheirava a madeiras exóticas, na barraca carpintaria do meu pai. E eu entretinha-me a seus pés, enquanto ele fazia cálculos sobre as dimensões de um móvel de cozinha.

In DNA