Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Arvore De Letras

Coisas lidas,ouvidas,cantadas, declamadas,faladas,escritas

Arvore De Letras

Coisas lidas,ouvidas,cantadas, declamadas,faladas,escritas

16
Set10

conto virgem por Fatima Marinho DNAparte I

AnnaTree

Coisas Lidas

 

CONTO VIRGEM

 (...)

Uma badalada, baptizado; duas badaladas, casamento; três badaladas, funeral; quatro badaladas incêndio; cinco? Seis? Sete? Oito? Mas quem está a tocar o sino?! Os dois velhos ergueram a cabeça para a torre, onde o sino bradava aos céus qualquer mensagem que eles não entendiam. Dali, a vista só alcançava a cruz branca, de braços abertos para o azul sem fundo e o sino que ia e vinha a toda a força, fazendo exigências a norte e a sul

As badaladas continuavam a soar ditadoras. O povo ouviu e obedeceu. Ao João e ao Teotónio que pensavam que corriam mas apenas se arrastavam um pouquinho mais depressa que nos outros dias, juntou-se um magote de homens de todas as idades, formas e feitios, mulheres havia duas já muito velhas e enegrecidas pela morte dos familiares. Crianças era só uma, um rapazinho, de mão dada com uma das velhas. Não pense que era a velha que levava o menino, pois não era, não senhor. Era o menino que puxava a velha, convencido de que o esperava festa de doces e balões. Desesperava-se assim com a lentidão da avó.

Não ensinaste as pernas a andar, Vó? Foi esta a única fala que se ouviu até o grupo chegar á porta da igreja. O sino falava mais alto. O badalar nervoso impunha respeito.

(...)

Hoje em dia comungavam falas como dantes, embora houvesse muito mais para dizer. A realidade era dura, de calar a língua, mas as irrealidades que lhe andavam a acontecer davam vontade de a soltar. Sabes, pá, eu vejo uma mulher a dançar no ar... tu também? Tens coragem de dizer com quem ela é parecida? Se calhar estamos todos a ficar loucos. Este desemprego esta a dar-nos a volta ao miolo.

(...)

Depois da grande porta da igreja passaram para o guarda-vento, onde haviam outras duas portas. Uma á direita, igualzinha á esquerda. Outra á esquerda igualzinha á direita.

(...)

E foram entrando para o interior dourado da igreja, uns pela direita, outros pela esquerda, conforme dava mais jeito a cada um. Ajoelhado em frente ao altar, o Padre benzia-se vezes sem conta Xavier Medina, lembrando-se que não se tinha ainda benzido, levou o dedo indicador á testa. Sem pressas, baixou o dedo para o peito e terminou com ele na boca, num beijo que alguém atento poderia chama de sensual. É preciso dizer que outros homens fizeram exactamente o mesmo. Exactamente quer dizer tal e qual. De onde se conclui que os outros homens também beijaram os seus dedos polegares com apurada sensualidade.

(continua)