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Arvore De Letras

Coisas lidas,ouvidas,cantadas, declamadas,faladas,escritas

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16
Nov10

16 de Maio de 1828 Os acontecimentos JOAQUIM JOSÉ DE QUEIRÓS URDE A REVOLUÇÃO VI

AnnaTree

Coisas da minha família

 

ERGUEM-SE PATÍBULOS, TRABALHAM OS CARRASCOS

À moderação do General Póvoas, no Porto, respondeu o Governo criando os tribunais especiais por todo o Reino: inquisição política para descobrir e julgar os crimes de apostasia ou de tibieza na religião ardente do absolutismo apostólico. Para o Norte foi uma Alçada bem escolhida, de magistrados que não mentiriam, como o General mentira, aos desejos sanguinários da rainha e dos seus sequazes — escreve Oliveira Martins. «Famosa alçada — acrescenta luz Soriano — composta dos desembargadores mais sanguinários do partido miguelista» que — elucida ainda o autorizado historiador — «teve todas as faculdades especiais para inquirir dos supostos crimes e julgar logo, / p. 8 / em última instância, breve e sumariamente, todos os culpados».

Como é óbvio, desde esse momento «nunca mais pôde haver repouso nem sossego entre as famílias. Por toda a parte do reino apareceram logo devassas em que se admitiam, como denunciantes, homens depravados, miseráveis agentes da confidência de outros que tais indivíduos» — acrescenta ainda Soriano, que foi também um valoroso combatente da Liberdade.

Cerca de uma dezena de milhar de portugueses viu-se enredada nas malhas de pronúncias! No Porto, doze subiram aos patíbulos e, entre eles, seis aveirenses: Francisco Manuel Gravito da Veiga e Lima, Francisco Silvério de Carvalho Magalhães Serrão, Clemente de Melo Soares de Freitas, Manuel Luís Nogueira, enforcados em 7 de Maio de 1829, e Clemente de Morais Sarmento e João Henriques Ferreira, em 9 de Outubro do mesmo ano.

; Sobre Gravito, que fora apenas uma espécie de conselheiro nos trabalhos preparatórios da Revolução, caiu — desconhecem-se ainda hoje as razões, se é que razões havia... — o ódio de Carlota Joaquina e, por tabela, o da Alçada... Havendo entrado nas cadeias em 10 de Agosto de 28,em 18 de Fevereiro seguinte concederam-se-Ihe cinco dias para dizer de facto e de direito. Por fim, a condenação à morte!

Vale a pena transcrever algumas linhas de Marques Gomes sobre o drama patético do infortunado desembargador.

«A sentença, principalmente na parte que diz respeito a Gravito, é uma iniquidade sem igual; por mais que os julgadores se esforçassem para lhe encontrarem criminalidade, não o conseguiram e as provas por que o condenaram são irrisórias.

Gravito foi condenado à morte porque assim o impôs a rainha D. Carlota Joaquina. Afirmou-no-Io uma e muitas vezes um antigo magistrado e amigo dedicado de Gravito e partidário não menos dedicado de D. Miguel, a quem acompanhou até Évora, e que até à morte conservou intemerata a sua fé partidária, o pai de quem escreve estas linhas, Dr. Francisco Tomé Marques Gomes, e amigo de José Estêvão.

É fora de dúvida que o governo de D. Miguel influiu nas deliberações da Alçada, isto tanto nas sentenças como na decisão dos embargos. Mas não eram só os ministros que actuavam no ânimo dos julgadores; algumas vezes a rainha D. Carlota Joaquina impôs-lhes também a sua vontade e uma delas foi quando se tratou do julgamento de Gravito.»

Da maneira escandalosa como decorreu a sessão da Alçada foi dado conhecimento ao Governo de D. Miguel que, em face do escândalo suscitado, se viu compelido a ceder nalguns pontos. A dois dos três então condenados à morte — Francisco António de Abreu e Lima e Luís Lusano — comutou-se-Ihes a pena. Para um terceiro — Gravito — não houve qualquer benignidade, a mínima das mínimas comiserações. A História diz que D. Carlota — tão genialmente retratada num — quadro de Goya — se opôs aos propósitos manifestados pelo próprio filho, que se inclinava por uma comutação...

No oratório, o infelicitado Desembargador, de coração alanceado mas inabalável na sua fé, escreveria à filha — D. Maria Emília Teixeira Gravito — uma carta, que se publica em «hors-texte» e é, por altíssimo documento humano, das mais extraordinárias redigidas na nossa língua.

Mas, como dissemos, no dia 7 subiu aos patíbulos da Praça Nova a primeira fornada. (Fornada) não é bem... Na cidade indómita que, após o Cerco, mereceu ser cognominada de Invicta, não foram calcinados, como anteriormente em Lisboa, os pobres cadáveres...

O autor do «Portugal Contemporâneo» descreve assim o lúgubre, o tétrico, o confrangedor espectáculo:

«Subiam as escadas; a meia altura, o carrasco tapava a cabeça ao desgraçado vestindo-lhe o capuz branco, pendente nas costas, atava-lhe os dois pés... Rápido! Breve! Passa-lhe o nó na garganta, enrolada a corda na trave da forca, e sobre o vulto branco, sem forma viva, nem vida talvez, erguia a perna, montava nas saliências já moles dos ombros, com o pé afastava-se da escada A figura singular do homúnculo a cavalo num fardo branco, baloiçava-se no ar, sem um ruído, placidamente. Não era mister que os tambores rufassem, porque os clérigos rufavam o seu cantochão — De profundis clamavi ad te, Domine... e a plebe na rua e as senhoras na janelas soltavam aclamações.»

Consoante a sentença determinava, as cabeças dos supliciados foram distribuídas pelas regiões onde germinara a semente da Liberdade. A Aveiro, a fim de serem espetadas, edificantemente, em postes, couberam as de Gravito, Silvério, Nogueira e, mais tarde, a de Clemente de Morais.

«As autoridades — elucida Marques Gomes — a quem tocava dar cumprimento a esta ordem, viram-se porém em sérios embaraços, pela dificuldade de encontrar quem fornecesse os postes necessários e os colocasse nos mencionados locais.

/ p. 10 / Gastou-se todo o dia nestas diligências, até que no dia seguinte o juiz de fora fez prender diferentes lavradores do lugar de Azurva, a quem obrigou a trazer os pinheiros necessários, e alguns carpinteiros que violentadíssimos os ergueram nos locais designados, depois do algoz ter colocado em cada um deles uma das cabeças segura por um grande prego.»

Se janelas e portas de muitas cosas da cidade se fecharam — corajosamente — em sinal de luto, mal correra a nova arrepiante da chegada dos despojos, Aveiro, sempre «heróica e livre», deu, de tal modo, mais uma vez mostra iniludível dos seus nobilíssimos sentimentos, da sua sensibilidade, da sua dor.

Diante de alguns estremecidos filhos mortos e com muitos outros na amargura do exílio e no inferno das prisões, que esperar dela? Depois, Aveiro foi, é e será eternamente uma devota fiel da tolerância, uma adversária irreductível da violência — ou não ame a Liberdade!

 JOÃO SARABANDO

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