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Arvore De Letras

Coisas lidas,ouvidas,cantadas, declamadas,faladas,escritas

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Coisas lidas,ouvidas,cantadas, declamadas,faladas,escritas

21
Out11

Francisco Moita Flores A Fúria das Vinhas

AnnaTree

 

 

 

 

coisas lidas

 

O António Bernardo não ama esta terra. Perdeu o sentido do amor por frequentar tanto bordel

(…)

A felicidade é uma pontuação, não é uma frase

(…)

Que haveria de chegar o dia em que não haveria necessidade de Deus. Que lessem Rénan, ao menos passassem os olhos por Reinach. Para não falar de Marx.

(…)

Quanto á Viúva Negra, o caso era diferente. Filha de um caseiro da quinta das nogueiras, quando chegou o tempo dos apetites da carne empolgou-se numa paixão obsessiva por Francisco silva torres. Perseguia-o, vigiava-o, surgia-lhe nos sítios mais invulgares. Francisco era mais velho do que o pai da rapariga e administrador dos ferreira. Um dia chamou-a para lhe pregar uma descompostura, mas ela não quis saber. A obsessão demente que a dominava continuou. Nem depois dos castigos que o pai lhe impôs, quando Silva Torres, cansado dos disparates da cachopa, se lhe queixou, diminuíram a fome que não encontrava sentido noutro homem (…) quando dona Antónia chegou de Londres casada com o administrador, mergulhou em doença profunda que nem medico nem mezinha arrancavam do torpor que a prostou. Salvou-a o morto vivo com uma encomendação que, segundo explicou á família, se não fosse feita com todo o cuidado a poderia levar á morte. Mandou vir areia de dois rios, misturou-a no chão do quarto da rapariga, enquanto fazia uma oração numa língua estranha, aspergiu a areia por três vezes com água benta e colocou um Cristo ao contrário com três velas em redor. Pediu á mãe que por três dias ninguém mexesse em nada do que ele fizera a não ser que as velas se apagassem, pois tal situação poderia ser a morte. Que voltaria ao terceiro dia, pois tinha de jejuar esse tempo para poder quebrar o feitiço. Dizem que durante os três dias os pássaros desapareceram do quintal, que um corvo negro grasnou sem parar e que pelo telhado saia um fumo azulado denunciando a luta com o espírito que revolvia a mulher. Ao terceiro dia, o morto vivo regressou. Mandou o pai ficar por fora e só regressar ao por do sol e ordenou a mãe que tendesse massa para fazer pão. Entrou no quarto e pediu que lhe preparassem agua quente, e só então explicou a mãe os terríveis trabalhos para os quais precisava da sua ajuda. Que um dos piores demónios do inferno tomara conta das entranhas da filha e para a libertar de tanto sofrimento, quer ele, queen a mãe, tinham de sofrer por ela, tornando se segredo que os acompanharia na vida e na morte. Aterrada, assentiu a tudo o que o morto vivo lhe propunha e assim fizeram. Despiram a possuída pelo demónio e, enquanto o bruxo lhe limpou o corpo nu com água aquecida, recitava uma oração. A seguir, despiu-se e a mãe procedeu de igual forma, esfregando-lhe o corpo, enquanto ele continuava a murmurar a prece e a velha rezava um padre-nosso. Deitou-se sobre a rapariga e pediu a mãe que trouxesse um pequeno púcaro. E possuiu-a. A rapariga soltou um grito estridente quando o sentiu entrar e depois abraçou-o com tanta força que lhe arranhou as costas. E gemia enquanto o morto vivo continuava a recitar, penetrando-a cada vez com mais violência, e ela gemia e gritava até que o magico fez o sinal da cruz e a mãe acorreu com o púcaro para onde ele ejaculou.

Tornaram a limpar o corpo nu da enfeitiçada, que agora se revelava mais dócil. Era preciso proceder assim durante uma hora e o morto vivo tornou a penetra la e, mais uma vez, ela gemeu, gritou e, quando ele tornou a ejacular no púcaro que a mãe lhe oferecia, a moça contorcia-se em espasmos que, dizia ele, era o espírito a despegar-se-lhe das entranhas.

Orientou a mãe para que misturasse o sémen assim recolhido na massa do pão que deveria cozer sem queimar e que a doente comeria durante três dias, rezando um padre-nosso de seguida. Assim e fez.

Na verdade, passados esses três dias melhorou. Saiu da cama e pediu que a mãe lhe arranjasse roupa de luto. Dizia-se que o morto vivo a libertara do espírito maldito que a possuía, mas que, em contrapartida, a tornara serva de Lúcifer. Visitava-a todos os sábados e dizia quem ouvira que, quando os dois se fechavam para misteriosos serviços ao maldito, os berros que o bode soltava faziam estremecer as terras em volta.

Passaram a chamar lhe a Viúva Negra