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Arvore De Letras

Coisas lidas,ouvidas,cantadas, declamadas,faladas,escritas

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Coisas lidas,ouvidas,cantadas, declamadas,faladas,escritas

16
Fev12

SE VIR O LA FONTAINE POR AÍ…. PROVE-LHE QUE VALE MAIS SER CIGARRA DO QUE FORMIGA Tiago Matos Fernmandes Vocesa@åcj.pt

AnnaTree

 

 

 

 Coisas Lidas 

 

O leitor é frequentemente visitado por aquele sonho em que herda a fortuna do seu tio do Brasil, desaparece um escondido algures na Polinésia Francesa e deixa de trabalhar para o resto dos seus dias? É, não é? Claro que sim! Mas permita-me uma observação: seria alguma vez capaz de largar a sua bem-sucedida carreira profissional e aquela sensação de orgulho mal disfarçado pelas 16 horas de trabalho diário a que estoicamente se sujeita, para se meter numa aventura sem desafios, sem conquistas, sem história? Não, pois não? Claro que não!

Apesar de ter mudado radicalmente de opinião num espaço de apenas dois parágrafos, 460 caracteres e 10 segundos, o meu amigo sabe perfeitamente o que quer: trabalhar, sentir-se útil, desenvolver as suas capacidades. Por isso, está longe de aceitar a tese de que «o trabalho está na origem de toda a degenerescência intelectual e de toda a deformação orgânica», como afiançava o caduco Paul Lafargue.

Apesar de tudo isto, continua a sonhar com a sua Pina colada e um por do sol no pacífico sul, certo? Claro que sim! (eu bem dizia que o meu amigo era de ideias fixas…)

Pois é, o que você precisa desesperadamente é de preguiçar. Se não puder ser em Vanuatu, que seja no seu local de trabalho: estenda as pernas em cima da sua secretaria, passe languidamente os olhos por uma revista cor-de-rosa e esqueça o seu negócio, pelo menos, por umas horas….

E faça também o favor de esquecer o velho Cícero, que tinha a ousadia de dizer que «ócio é incompatível com negócio» bem se vê que esse senhor era um pobre infeliz que nunca soube o que era um cartão de crédito ilimitado, férias pagas ou um automóvel oferecido pela empresa!

E last but not the least: não seja você a formiguinha da versão moderna da fábula da cigarra e da formiga. Não me diga que não conhece…

Era uma vez uma formiga que trabalhava de sol a sol para preparar o inverno que se avizinhava. A muito esforço, passava os dias a carregar pesados grãos de acusar para dentro da sua casa. Pelo contrário, a cigarra passava as noites a embriagar-se e a cantar nas discotecas da cidade, onde estoirava irresponsavelmente todo o dinheiro que tinha, negligenciando a preparação dos rigores de Dezembro.

Chegada a estacão do inverno, a formiga tinha a casa atulhada de alimentos. E a preguiçosa da cigarra nem um miserável grão de açúcar para bicar….

Quando a formiga se preparava para refastelar-se no sofá e dormir uma soneca merecida, alguém a chamou. Abriu a porta de casa e nem queria acreditar no que via: a cigarra vestida com um lustroso vison, recostada no banco traseiro de um Bentley conduzido por um chauffeur!

- Olá amiga! disse-lhe a cigarra

- Peço-lhe um favor: toma conta da minha casa até á primavera?

- Até a estacão da primavera?

Estranhou a sua vizinha formiga.

-não sabe? Um agente famoso ouviu me cantar e contratou-me para ir para Paris gravar um disco. Já agora, quer alguma coisa de paris?

- Quero, respondeu a inconsolável formiga, contendo a revolta.

«Se vir por lá um tal de La Fontaine, diga-lhe que vá para o raio que o parta!»