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Arvore De Letras

Coisas lidas,ouvidas,cantadas, declamadas,faladas,escritas

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Coisas lidas,ouvidas,cantadas, declamadas,faladas,escritas

22
Abr13

velando um morto de guy de maupassant

AnnaTree

COISAS LIDAS

definhava, como definham os tuberculosos. vi-o sentar-se todos os dias, pelas duas da tarde, debaixo das janelas do hotel, frente ao mar, num banco da alameda. conservava-se imovel durante algum tempo, ao calor do sol, contemplando o mediterraneo com um olhar triste. por vezes, mirava de relance a elevada montanha de cumes bromosos que rodeia menton; depois, num movimento muito lento, cruzava as longas pernas, tão magras que pareciam dois ossos, em redor dos quais flutuavam as calças, e abria um livro, sempre o mesmo.
a partir daí, já não se movia mais, lia, lia,lia com o olhar e o pensamento; todo o seu pobre corpo moribundo parecia ler, toda a sua alma mergulhava , perdia-se, desaparecia no livro até ao momento em que o ar fresco o obrigava a tossicar.entao, levantava-se e regressava ao hotel.
era um alemão, alto e de barba loura, que almoçava e jantava no quarto, sem falar a ninguém.
atraia-me uma vaga curiosidade. um dia , sentei-me ao seu lado, munido de um volume das poesias de musset, para disfarcar.
e pus-me a ler Rolla.
o meu companheiro perguntou-me imediatamente, em bom francês:
-o senhor sabe alemão?
-absolutamente nada.
-lamento. já que o acaso nos colocou lado a lado, mostrar-lhe-ia uma coisa inestimável:este livro que aqui tenho.
-qual?
-é um exemplar do meu mestre Shopenhauer, anotado por ele. como vê, todas as margens se encontram escritas pelo seu punho.
peguei no livro, com o maximo respeito, e contemplei mas formas incompreensiveis para mim, mas que revelavam o pensamento
imortal do maior devastador de sonhos que jamais passou por este mundo.
(...)
a verdade é que shopenhauer marcou a humanidade com o selo do seu desdém e do seu desencanto.
boemio , desiludido, derrubou as crenças, as esperanças , as poesias, as quimeras, destruiu as aspirações, arrasou a confiança das almas, liquidou o amor, abateu o culto ideal da mulher, desfez as ilusões dos corações, realizou a mais gigantesca obra de céptico jamais vista. o seu escarnio em tudo penetrou, e tudo arruinou. e ainda hoje, mesmo aqueles que o detestam, parecem trazer no espirito, mau grado seu, parcelas do pensamento do grande mestre.
-conheceu, então, pessoalmente shopepenhauer?- perguntei eu ao alemão
-até á sua morte.
(...)
- na verdade, o seu sorriso era tão assustador que, mesmo depois da morte, nos aterrou. se lhe interessar, posso contar-lhe uma historia quase desconhecida.
e começou, numa voz fatigada, interrompida por ataques de tosse:
- shopenhauer acabara de morrer e decidimos vela-lo por turnos, dois a dois, até de manhã.
«encontrava-se num quarto muito simples, amplo e sombrio. na mesinha-de-cabeceira, ardiam duas velas.
«foi á meia noite que ocupei o meu lugar. juntamente com um dos nossos amigos. os dois colegas que deviamos substituir sairam, e nós sentámo-nos ao pé da cama.
«a expressão do rosto não se alterara. ria-se. a ruga que tão bem conhecemos acentuara-se na comissura dos lábios, e parecia-nos que se preparava para abrir os olhos, mover-se,, falar. o seu pensamento , ou antes, os seus pensamentos , envolviam-nos; sentiamo-nos mais do que nunca na atmosfera do seu génio, invadidos , possuidos por ele. o seu poder parecia-nos agora, que se encontrava morto, ainda mais soberano. um mistério perseguia o poder daquele incomparavel espirito.
«os corpos de certos homens desaparecem, mas eles permanecem; e assegure-lhe, meu caro senhor, que , na noite que se segue a paragem do coração, são assustadores.
«e em voz baixa, falamos do defunto, recordando palavras, formulas, essas maximas surprendentes que jorram como luz, em poucas palavras, nas trevas da vida desconhecida.
«-parece-nos que vai falar- disse o meu colega.
«e olhávamos, com uma inquietação que rasava o medo , o rosto imóvel e sorridente.
«começámos a sentir-nos pouco á vontade, oprimidos, desanimados. murmurei:
«- não sei o que tenho, mas asseguro-te que estou doente.
«apercebemo-nos, então, de que o cadaver cheirava mal.
«o meu amigo propôs que passeássemos para o quarto contíguo, deixando a porta aberta; aceitei.
«peguei numa das velas que ardia na mesinha de cabeceira e fomos sentar-nos na extremidade oposta do outro quarto, de modo a vermos o leito do morto, à luz da segunda vela.
«mas ele continuava a obsidiar-nos ; dir-se-ia que o seu ser imaterial, liberto, omnipotente e dominador, rondava à nossa volta. e o infame odor do corpo em decomposição chegava por vezes até nós , penetrando-nos, repugnante e vago.
«subitamente, passou-nos um arrepio pela espinha: um ruido , um ruido muito leve vinha do quarto do morto. os nossos olhos voltaram-se para ele e vimos, pode crer, meu caro senhor, vimos ambos perfeitamente uma coisa branca correndo sobre o leito, cair no tapete e desaparecer debaixo de uma poltrona.
«sem pensar, pusemo-nos de pé, dominados por um terror estupido, prontos para fugir. depois, olhámo-nos. estavamos horrivelmente pálidos. os nossos corações pulsavam tão imensamente que se adivinhavam sob os fatos. fui eu o primeiro a falar:
«-vite?...
«-vi, sim.
«-será possivel que não esteja morto?
«-mas , se entrou em putrefação...
«-que fazemos?
« o meu amigo declarou, hesitante:
«-precisamos de o ir ver.
«peguei na vela e entrei á frente, perscrutando o amplo quarto com o olhar , até aos recantos mais sombrios. nada se movia; aproximei-me do leito. fiquei estupefacto e aterrorizado; shopenhauer cesara de sorrir! esboçava um horrivel esgar, de boca fechada e faces profundamente cavadas. murmurei:
«- não está morto!
«mas o pavoroso odor subia-me ao nariz, sufocava-me. e eu não me mexia, olhando-o fixamente, assustado como perante uma aparição .
«então, o meu companheiro, que pegara na outra vela, debruçou-se. depois, tocou-me no braço, sem uma palavra. segui o seu olhar e avistei no chão, debaixo da poltrona que se encontrava ao lado da cama, muito branca no tapete escuro, a dentadura de shopenhauer.
« o trabalho da decomposição , descerrando as maxilas, expelira-a da boca.
«naquele dia, meu caro senhor, senti um medo atroz.
e, como o sol se aproximasse do mar cintilante, o alemão tisico levantou-se, cumprimentou-me e regressou ao hotel.