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Arvore De Letras

Coisas lidas,ouvidas,cantadas, declamadas,faladas,escritas

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01
Mai13

Contos Rose de Guy Maupassant

AnnaTree

COISAS LIDAS

 

 

 

 

As duas jovens parecem submersas por uma camada de flores. Vão sós no imenso landau carregado de ramalhetes, como uma gigantesca corbelha. No banco da frente , dois açafates de cetim branco estão reletos de violetas-de-nice e, sobre a pele de urso que cobre os joelhos das duas jovens, um amontoado de rosas, de mimosas, de laços de seda, parece esmagar os dois corpos delicados, realçando apenas , deste leito resplanecente e perfumado, os ombros, os braços e um pouco das blusas, uma azul e outra lilás.

(...)

É a festa das Flores, em Cannes.

(...)

As duas jovens, aconchegadas no manto de pele, olham languidamente. Por fim , uma exclama:

- Há noites deliciosas, em que tudo nos parece bom. Não é verdade ,Margot?

A outra responde :

- Sim é verdade. Mas falta sempre alguma coisa.

- O quê?Por mim sinto –me totalmente feliz. Não preciso de mais nada.

- Porque não pensas. Seja qual for o bem estar que nos conforte o corpo, desejamos sempre algo mais...para o coração.

E a outra sorrindo:

- Um pouco de amor?

- Sim.

Calaram-se, olhando em frente; depois, a jovem que se chamava Marguerite murmurou:

- Sem esse suplemento, a vida não me parece suportável. Necessito de ser amada, nem que seja por um cão. Somos todas assim, de resto, digas tu o que disseres,Simone.

- Não, minha querida. Prefiro não ser amada, a ser amado por qualquer um. Acreditas que me sentiria lisonjeada se fosse amada, por exemplo, por...por...

Pensava em alguém que a pudesse amar, percorrendo com o lahr o vasto horizonte. Depois de darem a volta á paisagem , detiveram-se os olhos nos botões de metal que brilhavam nas costas do cocheiro, e ela prosseguiu, rindo:

- Pelo meu cocheiro.

(...)

- Pois bem vou-te contar uma singular aventura, vivida por mim. Verás como é curioso e confuso o que se passa em nós, nesses casos.

Vai fazer quatro anos no Outono, encontrei-me sem criada de quarto. Já experimentara quatro ou cinco, todas elas incapazes, e desesperava de encontrar alguma, quando li, nos pequenos anúncios de um jornal, que uma rapariga sabendo bordar, coser, pentear, procurava emprego, e que forneceria as melhores referências. De resto, ainda falava inglês.

Escrevi para o endereço indicado e, no dia seguinte, a pessoa em questão apresentou-se. Era uma rapariga alta, magra, um pouco pálida, parecendo muito timida. Tinha uns belos olhos negros, uma tez encantadora, e agradou-me imediatamente. Pedi-lhe as referências: mostrou-me uma carta em inglês, pois, disse-me então, vinha de casa de Lady Rynwell, onde estivera dez anos.

A carta certificava que a jovem partira de livre vontade , para viver em França, e que nada havia a cencurar-lhe, ao longo do tempo de serviço, para além de um pouco de «galanteria francesa».

A construção pudibunda da frase provocou o meu sorriso, e contratei desde logo a criada de quarto.

Veio para minha casa naquele mesmo dia; chamava-se Rose.

Passado um mês, adorava-a.

Fora um achado, uma pérola, um fenomeno.

Sabia pentear com infinito bom gosto; armava o véu de um chapéu melhor do que qualquer modista, e até sabia fazer vestidos.

Sentia-me estufacta perante tantas qualidades. Nunca ninguém me servira assim.

Vestia-me rapidamente com uma leveza de mãos surpreendente. Nunca sentia os seus dedos na minha pele, e nada me é mais desagradavel do que o contato de uma mão de uma criada. Em breve adquiri hábitos de excessiva preguiça, tão agradavel me era deixar-me vestir, da cabeça aos pés, da camisa ás luvas, por aquela rapariga timida, sempre prestes a corar, e que nunca falava. Ao sair do banho, fricionava-me e massajava-me, enquanto eu dormitava um pouco, deitada no divã. Enfim, considerava-a mais como uma amiga de condição inferior de como uma simples criada.

Ora, uma manhã, o porteiro pediu para me falar, num tom misterioso. Surpreendida ordenei-lhe que entrasse. Era um homem de muita confiança, um velho soldado , que fora ordenança do meu marido.

Parecia consternado com o que tinha para dizer . Por fim, declarou, gaguejando:

- Minha senhora, está lá em baixo o comissário da policia do bairro.

Perguntei , num tom brusco:

- Que quer ele?

-Quer fazer uma busca á sua residência.

Aceito que a policia seja útil, mas detesto-a. Considero que não se trata de um oficio nobre. E respondi, tão irritada como humilhada:

- E porque razão? A que preposito? Nãp permitirei.

O porteiro insistiu:

- Insinua que se oculta aqui um malfeitor.

Desta vez, receosa, ordenei que introduzissem o comissário da policia nos meus aposentos, a fim de se explicar. Era um homem muito bem educado, condecorado com a Legião de Honra. Desculpou-se, pediu perdão e, depois, declarou que, entre os meus criados, se ocultava um condenado!

Senti-me revoltada; afirmei que respondia por todo o pessoal domestico e enumerei-o.

- O poteiro, Pierre Courtin, antigo soldado.

-Não é ele.

-O cocheiro, françois Pingau, um camponês champanhês, filho de um rendeiro do meu pai.

- Não é ele.

-Um moço da estrebaria, igualmente vindo de Champanha, e mais uma vez filho de camponeses que conheço bem, além de um lacaio , que acaba de ver.

- Não é nenhum deles.

- Então como vê, está enganado.

-Perdão, minha senhora, estou certo de que não me engano. Como se tratat de um temivel crimonoso, queira ter a bondade de reunir todo o pessoal, aqui, diante d enós.

Tentei resistir, mas acabei por ceder, e chamei todos os criados , homens e mulheres.

O comissário da policia examinou-os rapidamente, e declarou:

- Não estão todos.

-Falta apenas a minha criada de quarto, uma jovem que não pode confundir com um condenado.

O comissário da policia perguntou:

-Posso vê-la?

_-Com certeza.

Toquei a campainha e Rose compareceu de imediato. Mal entrou, o comissário fez um sinal, e dois homens que ainda tivera opoirtunidade de ver, escondidos atrás da porta, lançaram-se sobre ela, pegaram-lhe nas maos e ataram-nas com cordas.

Soltei um grito de fúria, e quis correr em sua defesa. O comissário deteve-me:

-Esta rapariga, minha senhora, é um homem que se chama Jean-Nicolas Lecaper, condenado á morte  em mil oitocentos e setenta e nove por assassinato precedido de violação. A pena foi comutada em prisão perpétua. Fugiu á quatro meses.Desde então, procuravamo-lo.

Furiosa, aterrada, não conseguia comprender. O comissário continuou, rindo:

-Posso fornecer-lhe uma prova. Tem o braço direito tatuado.

Arregaçaram-lhe a manga. Era verdade. O policia acrescentou, com algum mau gosto:

-as restantes verificações ficam por nossa conta.

E, assim, levaram a minha criada de quarto!

(...)

Simone não respondeu. Olhava em frente, fixando de forma singular os dois botões resplanecentes da libré , com aquele sorriso de esfinge que, por vezes, as mulheres têm.

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