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Arvore De Letras

Coisas lidas,ouvidas,cantadas, declamadas,faladas,escritas

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21
Jun13

Artigo de Pedro Afonso - Médico psiquiatra

AnnaTree

COISAS LIDAS

Artigo de Pedro Afonso - Médico psiquiatra

 

 Transcrição do artigo do médico psiquiatra Pedro Afonso, publicado no

 Público

 Alguns dedicam-se obsessivamente aos números e às estatísticas

 esquecendo que a sociedade é feita de pessoas.

 Recentemente, ficámos a saber, através do primeiro estudo

 epidemiológico nacional de Saúde Mental, que Portugal é o país da

 Europa com a maior prevalência de doenças mentais na população. No

 último ano, um em cada cinco portugueses sofreu de uma doença

 psiquiátrica (23%) e quase metade (43%) já teve uma destas

 perturbações durante a vida.

 Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque assisto com

 impotência a uma sociedade perturbada e doente em que violência,

 urdida nos jogos e na televisão, faz parte da ração diária das

 crianças e adolescentes. Neste redil de insanidade, vejo jovens

 infantilizados incapazes de construírem um projecto de vida, escravos

 dos seus insaciáveis desejos e adulados por pais que satisfazem todos

 os seus caprichos, expiando uma culpa muitas vezes imaginária. Na

 escola, estes jovens adquiriram um estatuto de semideus, pois todos

 terão de fazer um esforço sobrenatural para lhes imprimirem a vontade

 de adquirir conhecimentos, ainda que estes não o desejem. É natural

 que assim seja, dado que a actual sociedade os inebria de direitos,

 criando-lhes a ilusão absurda de que podem ser mestres de si próprios.

 Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque, nos últimos quinze

 anos, o divórcio quintuplicou, alcançando 60 divórcios por cada 100

 casamentos . As crises conjugais são também um reflexo das crises

 sociais. Se não houver vínculos estáveis entre seres humanos não

 existe uma sociedade forte, capaz de criar empresas sólidas e fomentar

 a prosperidade. Enquanto o legislador se entretém maquinal mente a

 produzir leis que entronizam o divórcio sem culpa, deparo-me com

 mulheres compungidas, reféns do estado de alma dos ex-cônjuges para

 lhes garantirem o pagamento da miserável pensão de alimentos.

 Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque se torna cada vez

 mais difícil, para quem tem filhos, conciliar o trabalho e a família.

 Nas empresas, os directores insanos consideram que a presença

 prolongada no trabalho é sinónimo de maior compromisso e

 produtividade. Portanto é fácil perceber que, para quem perde cerca de

 três horas nas deslocações diárias entre o trabalho, a escola e a

 casa, seja difícil ter tempo para os filhos. Recordo o rosto de uma

 mãe marejada de lágrimas e com o coração dilacerado por andar tão

 cansada que quase se tornou impossível brincar com o seu filho de três

 anos.

 Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque a taxa de

 desemprego em Portugal afecta mais de meio milhão de cidadãos. Tenho

 presenciado muitos casos de homens e mulheres que, humilhados pela

 falta de trabalho, se sentem rendidos e impotentes perante a maldição

 da pobreza. Observo as suas mãos, calejadas pelo trabalho manual,

 tornadas inúteis, segurando um papel encardido da Segurança Social.

 Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque é difícil aceitar

 que alguém sobreviva dignamente com pouco mais de 600 euros por mês,

 enquanto outros, sem mérito e trabalho, se dedicam impunemente à

 actividade da pilhagem do erário público. Fito com assombro e

 complacência os olhos de revolta daqueles que estão cansados de

 escutar repetidamente que é necessário fazer mais sacrifícios quando

 já há muito foram dizimados pela praga da miséria.

 Finalmente, interessa-me a saúde mental de alguns portugueses com

 responsabilidades governativas porque se dedicam obsessivamente aos

 números e às estatísticas esquecendo que a sociedade é feita de

 pessoas. Entretanto, com a sua displicência e inépcia, construíram um

 mecanismo oleado que vai inexoravelmente triturando as mentes sãs de

 um povo, criando condições sociais que favorecem uma decadência

 neuronal colectiva, multiplicando, deste modo, as doenças mentais.

 E hesito em prescrever antidepressivos e ansiolíticos a quem tem o

 estômago vazio e a cabeça cheia de promessas de uma justiça que se

 há-de concretizar; e luto contra o demónio do desespero, mas sinto uma

 inquietação culposa diante destes rostos que me visitam diariamente.

 Pedro Afonso

 Médico psiquiatra