Quarta-feira, 16 de Janeiro de 2008

EMILIA E UMA NOITES POR ANTÓNIO LOBO ANTUNES

Coisas lidas

Esta crónica era para ser outra coisa mas sucede que de repente, ao principiar a escrever Angola me veio com toda a força ao corpo. Desculpem: ia dar-vos uma história que se chamaria Emília e umas noites e Angola, sem eu saber porque, veio-me com toda a força ao corpo. Não sei explicar bem: já não me acontecia há muitos anos, julgava-me livre, julgava-me numa certa paz e estou a mexer a mão sobre o papel com tanta pressa e tanta raiva eu que faço tudo devagar, principalmente para desenhar as palavras, eu que não vou corrigir nem uma sílaba, nem uma virgula, nem reler isto sequer . (eu que releio tanto, meu Deus!) Porque é insuportável sentir que Angola me veio com toda a força ao corpo. Não vou ter humor nem ser inteligente nem subtil nem terno nem irónico. Angola veio-me com toda a força ao corpo, custa muito; e o Macaco, o condutor, acaba de morrer de uma mina no Ninda: o Ernesto Melo Antunes estava lá e lembra-se. Perguntem-lhe a ele que se lembra. Pus a mão no peito do Macaco e não havia peito, e no entanto nem uma gotinha de sangue. No Ninda sob os eucaliptos um soldado que foi buscar água ao rio deitado na areia á minha frente. Apenas isto. Este foi o primeiro apenas. Podia relatar-vos muitos outros. Podia relatar-vos coisas horríveis absurdas, cruéis ao ponto de ter vontade de não escrever a palavra escuro só que Angola me veio com toda a força ao corpo e eu acuso a guerra de ter mudado a minha vida. É difícil entender mas eu não estava preparado, era novo demais se calhar é-se sempre novo de mais. Percebam: eu não merecia aquilo. Falo por mim: não sabia como aquilo era e ao saber como aquilo era compreendi que não merecia aquilo. Como não mereço isto hoje dia 1 de Setembro, dia dos meus anos em que Angola me veio com toda a força ao corpo. Aos que se interessam pelo que escrevo peço desculpa: ia dar-vos uma crónica chamada Emília e uma noites: pensei nela, tinha-a mais ou menos na cabeça (tanto quanto se pode ter um texto na cabeça visto que depois o texto toma conta da cabeça e faz-se conforme ele, texto, entende) Achava que vocês iam gostar e todavia não consigo: há tanta coisa em mim, tanta metralhadora, tanto morteiro, tanta horrível miséria. Para a próxima garanto que faço os possíveis por vos dar uma crónica como vocês gostam. Hoje não posso: é o dia dos meus anos e Angola veio-me com toda a força ao corpo. Depois de uma paz comprida, depois de imenso tempo de sossego. Claro que passa, claro que amanhã já estou melhor, os eucaliptos da Ninda desaparecem, tenho de novo a minha idade de agora, deixo de estar no armazém da companhia (o armazém era um barraco) A olhar os caixões e a pensar qual deles iria ser o meu. Lê-se que a guerra estava controlada em Angola, a guerra estar controlada em Angola: a guerra estar controlada era eu contar os mortos. Se calhar não foram muitos: para mim foram demais. Se calhar a guerra estar controlada tem que ver com um número reduzido de cadáveres: a merda é que eu os vi. Os conhecia. Costumava falar com eles, essas perdas insignificantes. Eu próprio sou uma perda insignificante a falar de perdas insignificantes. Um colega médico explicava assim a desordem e a ineficácia dos bancos de urgência dos hospitais - O doente entrou bem, depois sobreveio-lhe o banco e morreu. Eu também entrei bem: depois sobreveio-me a guerra e. Há tempos, almoçando com o Capitão disse-lhe: - Nunca vi ninguém tão corajoso debaixo de fogo como você a passear de lanterna acesa no meio dos abrigos E ele olhou para mim uma data de tempo - Sabe? É que as vezes apetecia-me morrer. Entendem um bocadinho melhor agora? Foi há vinte e quatro anos caramba. Em 1971. É aborrecido fazer e receber Angola de presente. Eu sei que vocês não têm nada com o assunto e como nunca viram rapazes mortos sob os eucaliptos do Ninda muito menos têm de pagar as favas disso. Perdoem: a próxima crónica será como se habituaram a que seja. Hoje não sou capaz. Tinha pensado numa coisa bem gira chamada EMILIA e uma noites e agradeço-vos a pachorra de aturarem por tabela Angola com toda a força no meu corpo. Para mais isto deve estar uma porcaria porque nunca na vida escrevi nada tão depressa. Mas agora pergunto: será que se consegue soltar um grito devagar?

música: if you wait for me tracy chapman

publicado por AnnaTree às 11:42
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5 comentários:
De oprincipal a 17 de Janeiro de 2008 às 04:11
Há uma frase do Lobo Antunes que nunca mais esqueci.
Ele dizia que durante a guerra colonial só tinha garantias que não era atacado quando o Benfica jogava.
Tive oportunidade de confirmar isto com outras pessoas. Independentemente de filiações clubisticas
O desporto sem foi uma fenómeno social e político brutal.


De AnnaTree a 18 de Janeiro de 2008 às 14:16
ola J! sorri me ao ler te! fez me lembrar qdo a novela gabriela cravo e canela veio para portugal os ladroes aproveitavam e assaltavam as casas e os carros pq a esta hora tava tudo de olhos postos no ecrã!


De oprincipal a 19 de Janeiro de 2008 às 00:16
Lá está. Mas os ladrões não estavam.
Na guerra até os terroristas respeitavam o Benfica.
Agora ninguem respeita o Benfica. a começar pelos seus dirigentes A. Hehehe


De AnnaTree a 21 de Janeiro de 2008 às 12:34
é mesmo...mas tb o benfica da se ao respeito,dá?


De oprincipal a 21 de Janeiro de 2008 às 14:54
Pois claro que não. Por isso escrevi que os dirigentes têm de respeitar o imenso patrimonio daquele que é, clubismos à parte, um dos maiores clubes do mundo.


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