Quarta-feira, 13 de Junho de 2018

Do livro até ao fim do Virgílio Ferreira

Coisas lidas

 

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(...)

 as matérias ensinadas nos liceus e mesmo nos cursos superiores estão desajustadas ao nosso tempo, são expressão da ditadura do adulto, da sua compreensão do que importa atualmente. 

(...)

Meu caro, nunca nenhum curso estará bem para o jovem. O jovem entende que só deve estudar o que interessa imediatamente à prática do seu curso futuro. Tudo mais é perder tempo. O futuro médico devia começar logo a dar injeções e a receitar, o advogado a saber de leis, o engenheiro a saber de pontes de fábricas, a farmacêutica saber de remédios. O jovem, meu caro amigo, ignora o interesse da cultura e tem pressa de se instalar na vida e sem dúvida a cultura não se pode explicar em termos práticos, não é assim? Digamos que ela só se aprecia depois de ser culto. Há que obrigar o jovem a ser culto como há que obrigá-lo a ser higiénico. Abandonado a si, o infante nunca se lava, meu amigo. Não vamos concluír daí  que a sujidade é que tem razão. 

Depois recomecei. Pergunto-me, disse eu, como é que a Flora, sempre tão rigorosa com os jovens, escolheu a profissão de professora. Ora ora, disse ela. Ser rigorosa não é ser injusta. Não sou mais rigorosa com o aluno do que com o professor. O que me indigna, meu caro, é culpabilização do adulto perante o jovem. E quanto à minha profissão, verdadeiramente não a escolhi, como acontece quase sempre. Nos mil acertos com a vida, há um que nos oferecem como mais aceitável. Mas não descontente com a minha profissão. De todas as possíveis que me surgiram foi esta que mais harmonizou comigo. Ser professor é colaborar mais eficazmente com o futuro. E é tudo. De todo o modo, disse eu, entre o jovem e o professor acha que é o professor quem tem mais razão? Não, meu caro amigo, não tenho nenhum parti pris . Mas não vamos inverter os papéis. Quem está sentado na carteira de aprender é o aluno, não é o professor. Há  decerto professores pouco dignos da sua missão. Mas há também uns meninos malcriados que são indignos de serem alunos. Inventou-se o absoluto da História e identificou-se a história com o jovem e o futuro. Mas história é também o presente e mesmo passado. Não abdico da minha responsabilidade de educadora. Fazê-lo seria abdicar da mim própria .E isso nunca. A história passa através de nós todos. Portanto, através também de mim. O que me preocupa é vergonhosa abdicação do adulto. O que me indigna é que o adulto aceite apressadamente a condição de bode expiatório. O jovem, que é cruel da sua natureza, aproveita logo essa situação explora-a logo em seu proveito. Toda a humilhação é repelente porque esquece a dignidade. E é o que está em causa na situação que analisamos. 


publicado por AnnaTree às 08:01
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