Quinta-feira, 26 de Janeiro de 2017

DO LIVRO TANTO QUE EU NÃO TE DISSE DE MARTA GAUTIER

COISAS LIDAS

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Sabe luisa, pensei escrever sobre um livro de Óscar Wilde. Agora, em frente desta folha, foi irresistível falar consigo, não através dos autores, mas através de mim. Vêm –me as lagrimas aos olhos não sei bem porquê. Talvez pela noção de paralelo, entre o sofrimento solitário e o que hoje pode ser partilhado consigo, dantes, só o papel me ouvia e apenas a ele denunciava as minhas inquietações. Agora posso contar consigo. Contar-me. É impossível não agradecer a quem nos embalou, a quem nos deu abrigo. Ninguém entenderia estas palavras que lhe escrevo, pois as acharia excessivas ou injustas. Não me interessa. As duas sabemos: apesar da minha inconsciência (pois eu teimava em esquecer), a luisa corrigiu a interpretação dessas dores e, como se eu fosse disléxica, trocou as letras das palavras equivocas. Por isso posso agora entregar lhe a dor e quase os segredos. Nem sabia o que eram os segredos, não me eram permitidos; agora até posso dar me ao luxo de os esconder. Chorarei todas as lagrimas que me foram interditas. Choro, porque já desconfio ser possível. Só depois das lagrimas, poderei ver o sol que as seca. Há muitos sóis, não há luisa? Há, não há? Preciso de saber a verdade, para continuar a levantar –me de manhã, festejar o gato e assobiar. Quero tanto acreditar que me posso erguer do seu divã e ser feliz cá fora. Sinto urgência. Mas sei que é longa a cicatrização dos golpes profundos. É preciso tempo para cuidar deles: protegê-los da terra, das águas sujas, dos fumos. Os outros ainda me doem, a natureza ainda me magoa, os animais assustam me e a culpa devora me. Nesta casa tao grande, longe de si, procuro encontrar um espaço quente. Não é fácil encontrar o meu lugar e quando adormeço, os sonhos atormentam –me e lembram-me outras vidas que vivi, bem longe da memoria. Acordo já perdida. Ai começa tudo de novo: inquieta, procuro –me nos livros, nos papeis e na jardinagem desta casa. Tudo isto na ansiedade (esse monstro) de construir a minha morada a minha cabana, onde os pesadelos desistirão de me assombrar e onde as pessoas possam entrar sem que me doam Éramos duas mulheres e nenhuma de nós tinha de ser subalterna. Devíamo-nos respeito e nada mais. Poderíamos tornarmo-nos amigas desde que respeitássemos a liberdade uma da outra. Por mim não haveria mais cobranças. Tinha sido a análise que entendera que mais nada podia exigir de quem me tinha oferecido tudo o que tinha para dar. Não podia passar o resto da vida na frustração de ser amada da forma que sonhara. Tinha chegado a hora de aceitar os meus pais com as suas limitações e não insistir na frustração de querer modifica-los. Quero-a disciplinar o meu rumo sem estar presa a acusações. De qualquer forma, não podia ignorar as feridas que não foram tratadas. Isso era o mais difícil: a minha tendência era esquecer passado e começar uma nova vida, mas percebi que não resultava porque os sonhos não desistiam de mo lembrar e tinha que integrar um passado triste num presente que se estava a tornar, aos poucos, agradável.


publicado por AnnaTree às 14:59
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