Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Arvore De Letras

Coisas lidas,ouvidas,cantadas, declamadas,faladas,escritas

Arvore De Letras

Coisas lidas,ouvidas,cantadas, declamadas,faladas,escritas

26
Out18

Estilhaços de Júlio Machado Vaz

AnnaTree

Coisas lidas

F411DE56-512D-4E3C-A7C2-CC24BB9DEB79.jpeg

 

 

(...)

 o pai abomina a cadeira de rodas apesar da fissura óssea e sente-se humilhado pelos negássas da memória. Sobreviver à autonomia física e a uma agilidade mental que sempre constituiu o núcleo do seu amor próprio parece-lhe, creio, obsceno. Estou de acordo. 

(...)

aceito-lhe o pudor, o medo de ser recordado em tons  baços e não de sorriso aberto , cigarro e humor em riste, discurso florentino , histórias assegurando a lenda familiar. Compreendo- o, também não gostaria de sobreviver a mim próprio. 

(...)

A vida em abstrato não existe, “apenas” vidas humanas. E o respeito por essas, por nós, que delas somos garantes e fazedores, quem o deve decidir à revelia da nossa dignidade? Não basta garantir o controlo da dor física que atormenta alguém, muito menos rotular de sintoma psiquiátrico ou cobardia o que flui de lucidez diversa da nossa. Respeitar o outro, alguns dos outros, passa por aceitar que considerem a morte como parte integrante do seu projecto de vida e não a simples linha isoelétrica em visores de máquinas sem vontade própria, mas capazes de impedir o corpo de seguir alma. Esses, com razão ou sem ela aos nossos olhos, podem sentir um dia que chegou a hora de partir, antes de se tornarem caricaturas de quem foram. Discutir se a sociedade os deve ajudar em situação de impotência é seguramente necessário e angustiante, mas soterra-los sob a anátema de não respeitarem a vida que acarretam e construíram é de uma arrogância atroz.