Sexta-feira, 28 de Dezembro de 2018

No princípio estava o mar Gonçalo Cadilhe

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Coisas lidas

 

o Sal no corpo

A mãe e a mulher não gostam de sal no corpo. A Amante sim. Toca à mãe e, mais tarde, à mulher, lavar as fronhas dos travesseiros lençóis da cama manchados de água salgada que nos escorreu do nariz durante a noite. Toca a mãe olhar para a camisola que foi a nossa prenda de Natal e, anos mais tarde, toca a mulher pegar no pijama Armani que nos ofereceu no aniversário de casamento, toca a  elas descobrir que as cores desbotaram onde o sal atacou, que o dinheiro gasto foi dinheiro mal gasto. A mãe e, anos mais tarde a mulher, não gostam do Sal no nosso corpo porque lhes recorda o amor que temos pelo mar. O sal que encontram no nosso corpo é uma violência à privacidade delas, porque nem dentro da própria casa consegue esquecer o mundo que nós temos lá fora. O Sal no corpo é a equivalência física, tátil, sensorial da obsessão no espírito, da paixão infinita que nos percorre a existência.

 A amante, essa, acha engraçada A sugestão de espaços abertos e horizontes luminosos na pele áspera e salgada. Sente-se transportada a um universo de vento e sol, e ela não lhe  importa se ele sabe ou não sabe amar porque ele sabe a mar. Há qualquer coisa de inédito nesta pele que podia ser do Marinheiro irlandês, de um pescador da Secilia ,de um pirata sarraceno. As suas fantasias levantam vou com aquela pele. Quando a ponta da língua dela circula pelo gume da orelha dele, quando os lábios se Poisam na nuca , quando as pontas dos dedos dele entram pela boca dela, Então a saliva dela desce a garganta reforçada com o tempero vital e livre - a saliva que desce pela garganta traz sal. 

 

É assim desde que o mundo existe: a mãe e, anos mais tarde, a mulher recolhem as roupas por lavar, toleram uns atrasos à hora das refeições, suspiram com o mau feitio dele nos diz neura, suportam o suor no corpo; a amante recolhe o melhor, recolhe o sal à flor da pele. 

Eu gosto de adiar para o dia seguinte, gosto deixar o sal no corpo algumas horas, de um dia para o outro, o tempo que é preciso para corroer as impurezas enfiadas nos poros. O meu barbeiro diz que no verão as cabeças que lhe aparecem  pela frente têm muito menos caspa do que no resto do ano. Diz que é por causa dos banhos de mar: o sal limpa e tonifica o couro cabeludo . 

Quando deixo o sal no corpo, sinto-me antigo e mediterrânico, sinto que pertenço ao berço da civilização e não às pradarias do Novo mundo,  nem aos arrozais asiáticos nem ao socalco Andrino. Pertenço a uma cultura que fez do Sal o valor de troca, que pagou o trabalho com sal, Com um "salário", que abriu estradas nos Alpes para vender sal nas latitudes geladas do interior do continente. Pertenço a uma cultura que batiza os recém-chegados a este mundo com uma pitada de sal na boca, como augúrio de sabedoria, e que segue uma religião fundada por um homem que definia os seus discípulos como " O sal da terra". 

 

 

 

 

 


publicado por AnnaTree às 09:40
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